07 outubro 2010

5 -O trabalho na cela

"O monge do claustro, sujeito à lei divina do trabalho em sua própria vocação, foge da ociosidade que, segundo os antigos, é inimiga do alma. Por isso, abraça com humildade e prontidão todos os trabalhos que necessariamente traz consigo uma vida pobre e solitária, a condição, no entanto, de que tudo se ordene ao exercício da divina contemplação, à que está totalmente entregado. Além dos diversos trabalhos manuais, faz parte de sua tarefa diária o cumprimento das obrigações de seu estado, principalmente as que se referem ao culto divino e ao estudo das ciências sagradas.

Em primeiro lugar, para não perder inutilmente na cela o tempo da vida religiosa, o monge do claustro deve dedicar-se com interesse e discrição a estudos apropriados, não pela vaidade de saber ou de editar livros, senão porque uma leitura sabiamente ordenada facilita à alma uma instrução mais sólida e põe a base para a contemplação das coisas celestiais. Erram, pois, os que julgam que, descuidando ao princípio o estudo da palavra de Deus ou abandonando-o depois, podem elevar-se facilmente à união íntima com Deus. Assim, fixando-nos mais na substância do conteúdo que no brilho aparente da expressão estudemos os mistérios divinos com esse desejo de conhecer que nasce do amor e o inflama.

Com o trabalho de mãos, o monge se exercita na humildade e reduz todo seu corpo a servidão, para que sua alma adquira uma maior estabilidade. De onde, nos tempos estabelecidos, é lícito dedicar-se a trabalhos manuais verdadeiramente úteis, porque não está bem desperdiçar em bagatelas e trabalhos inúteis um tempo precioso concedido a cada um para glorificar a Deus. No entanto, não fica excluída deste tempo à utilidade da leitura e a oração; mais ainda, sempre é aconselhável, enquanto se trabalha, recorrer pelo menos às breves orações chamadas jaculatórias. Também pode às vezes suceder que o peso do trabalho sirva de âncora que sujeite o vaivém dos pensamentos ajudando com isso ao coração a permanecer fixo em Deus constantemente, sem fadiga mental.

O trabalho é um serviço mediante o qual nos unimos com Cristo, que não veio ser servido senão a servir. São de louvar certamente os que se as arrumam por si sós para cuidar do mobiliário, das ferramentas e das demais coisas usadas na cela, aliviando no possível o trabalho dos irmãos. Pelo demais todos têm de ter a cela ordenada e limpa.

Sempre pode o Prior impor a um pai algum trabalho ou serviço para bem da Comunidade, e ele o aceita com agrado e com alegria de coração, pois no dia de sua Profissão pediu ser recebido como o mais humilde servidor de todos. Quando se encomenda um trabalho a um monge do claustro, seja sempre de tal natureza que lhe permita conservar sua liberdade interior enquanto trabalha, sem preocupar-se do ganho ou de quando tem de terminar. Porque convém que o solitário, atendendo não tanto à obra como ao fim tentado, possa manter seu coração sempre em vela Mas para que o monge permaneça calmo e são na solidão muitas vezes será conveniente que goze de certa liberdade na ordenação de seu trabalho.

Normalmente não se tem de chamar aos padres a trabalhar fora de suas celas, sobretudo nas obediências dos irmãos. E em caso que se destinem alguns padres a fazer um trabalho em comum, eles poderão falar entre si do que requeira tal trabalho, mas não com os que chegam.

Toda nossa atividade nasça sempre da fonte interior, a exemplo de Cristo, que sempre atua com o Pai, de maneira que o mesmo Pai faça as obras permanecendo nele. Assim seguiremos a Cristo em sua vida humilde e oculta de Nazaré, tanto quando oramos a Deus no secreto, como quando trabalhamos por obediência em sua presença. "

06 outubro 2010

4 -A guarda da cela e do silêncio

"A nossa principal aplicação e propósito consistem em nos dedicar ao silêncio e à solidão da cela. Esta é a terra santa e o lugar onde o Senhor e o seu servo conversam frequentemente como dois amigos. É nela que muitas vezes a alma fiel se une ao Verbo de Deus, a esposa convive com o Esposo, as coisas da terra se ligam às do Céu, as humanas às divinas. Mas é muito o trajeto a percorrer, por caminhos áridos e secos, antes de chegar à fonte das águas e à terra de promissão.

Por isso convém que o que vive retirado em sua cela vele diligente e solícito para não se tentar nem aceitar nenhuma saída dela, fora das geralmente estabelecidas; mais bem considere a cela tão necessária para sua saúde e vida, como o água para os peixes e o aprisco para as ovelhas. Se se acostuma a sair dela com frequência e por leves causas, cedo se lhe fará odiosa; pois, como diz São Agostinho: Para os amigos deste mundo não há nada mais trabalhoso que não trabalhar. Pelo contrário, quanto mais tempo guarde a cela, tanto mais a gosto viverá nela, se sabe ocupar-se de uma maneira ordenada e proveitosa na leitura, escritura, salmodia, oração, meditação, contemplação e trabalho. Enquanto, vá acostumando-se à calma escuta do coração, que deixe entrar a Deus por todas suas portas e sendas. Assim, com a ajuda divina, evitará os perigos que frequentemente espreitam ao solitário : seguir na cela o caminho mais fácil e merecer ser contado entre os mornos.

Os frutos do silêncio os conhece quem o experimentou. Ainda que ao princípio nos resulte no duro calar, gradualmente, se somos fiéis, nosso mesmo silêncio irá criando em nós uma atração para um silêncio cada vez maior. Para consegui-lo, está estabelecido que não falemos uns com outros sem permissão do Presidente.

O primeiro ato de caridade para com nossos irmãos é respeitar sua solidão. Se se nos permite falar de algum assunto, seja nossa conversa tão breve quanto seja possível.

Os que não são de nossa Ordem nem aspiram a entrar nela, não se hospedem em nossas celas.

Os monges do claustro dedicam todos os anos oito dias a uma guarda maior da quietude da cela e do recolhimento. O que se acostumou fazer normalmente por motivo do aniversário da Profissão.

Deus nos trouxe à solidão para falar-nos ao coração. Seja, pois, nosso coração como um altar vivo, do que suba continuamente ante o Senhor uma oração pura, pela qual devem ser impregnados todos nossos atos. "

05 outubro 2010

3 -Os monges do claustro

"Os que foram Padres de nossa Religião seguiam a luz do oriente, a daqueles antigos monges que, quente ainda em seus corações a recordação do Sangue recém derramado pelo Senhor, encheram os desertos para dedicar-se à solidão e a pobreza de espírito. Portanto, os monges do claustro, que seguem este mesmo caminho, convém que vivam como eles em ermos suficientemente afastados de toda moradia humana, e em celas livres de todo ruído, tanto do mundo como da mesma Casa ; sobretudo, que permaneçam alheios aos rumores do século.

Quem persevera firme na cela e por ela é formado, tende a que todo o conjunto de sua vida se unifique e converta numa constante oração. Mas não poderá entrar neste repouso sem ter-se exercitado no esforço de duro combate, já pelas austeridades nas que se mantém por familiaridade com a cruz, já pelas visitas do Senhor mediante as quais o prova como ouro no crisol. Assim, purificado pela paciência, consolado e robustecido pela assídua meditação das Escrituras, e introduzido no profundo de seu coração pela graça do Espírito, poderá já não só servir a Deus, senão também unir-se a Ele.

Convém também ocupar-se em algum trabalho manual, não tanto por simples distração do ânimo, quanto para submeter o corpo à lei comum dos homens e conservar e fomentar o gosto pelos exercícios espirituais. Por isso se lhe concedem ao monge em sua cela os utensílios necessários, a fim de evitar que se veja forçado a sair dela; porque isto não lhe está nunca permitido, a não ser para as reuniões na igreja ou no claustro, e em outras ocasiões previstas pela regra. Agora bem, quanto mais austera é a senda que abraçamos, tanto mais estritamente nos obriga a pobreza em todas as coisas de nosso uso. Porque é necessário que sigamos o exemplo de Cristo pobre, se queremos participar de suas riquezas.

Unidos em comunidade pelo amor ao Senhor, a oração e o zelo pela solidão mostrem-se os monges do claustro como verdadeiros discípulos de Cristo, não tanto de palavra quanto de obra; amem-se mutuamente, tendo os mesmos sentimentos, suportando-se e perdoando-se se algum tem queixa contra outro, a fim de que com uma mesma voz honrem a Deus.

Mantenham também os padres em seu espírito o íntimo vínculo pelo qual estão unidos em Cristo com os irmãos. Reconheçam que dependem deles para poder oferecer ao Senhor uma oração pura na quietude e a solidão da cela. Recordem que o sacerdócio ao que foram elevados representa um serviço à Igreja principalmente nos membros mais próximos, isto é, os irmãos da própria Casa. Tendo-se mútua deferência, padres e irmãos vivam na caridade que é vínculo de perfeição e fundamento e cume de toda vida consagrada a Deus.

É próprio do Prior mostrar em si mesmo a todos seus filhos, monges do claustro e leigos, um signo vivo do amor do Pai celestial, e reuni-los em Cristo de tal maneira que formem uma família, e cada uma de nossas Casas seja realmente, segundo a expressão de Guigo, uma igreja cartusiana.

A qual tem sua raiz e fundamento na celebração do SacrifícioEucarístico, que é signo eficaz de unidade. É também o centro ecume de nossa vida, e ademais viático espiritual de nosso Êxodo, por onde na solidão retornamos por Cristo ao Pai. Assim mesmo, em todo o curso da Liturgia, Cristo como nosso Sacerdote ora por nós, e como Cabeça nossa ora em nós de maneira que nele possamos reconhecer nossas vozes, e em nós a sua.

Na vigília noturna, nosso Ofício se prolonga bastante, segundo antigo costume, ainda que guardando sempre uma discreta moderação. Assim se alimenta a devoção interna com a salmodia e se pode dar o tempo restante à oração calada do coração sem fastio nem cansaço.

Segundo antigo costume nossa, todo monge do claustro está destinado, por uma admirável graça da piedade divina, ao sagrado ministério do altar. De onde se manifesta nele essa harmonia que, como diz Pablo VI, existe entre a consagração monástica e a sacerdotal. A exemplo, pois, de Cristo, faz-se juntamente sacerdote e vítima, em cheiro de suavidade para Deus, e pela união no sacrifício do Senhor participa das riquezas insondáveis de seu coração.

Como nosso Instituto está ordenado inteiramente à contemplação, temos de guardar com toda fidelidade nossa separação do mundo. Estamos, por tanto, isentos de todo ministério pastoral, por muito que urja a necessidade do apostolado ativo, a fim de cumprir nossa própria missão dentro do Corpo Místico.

Mantenha Marta seu ministério, laudável certamente, ainda que não isento de inquietude e turvação; mas permita a sua irmã que, sentada junto aos pés do Senhor, dedique-se a contemplar que Ele é Deus, a purificar seu espírito, a adentrar-se na oração do coração, a escutar o que o Senhor lhe diga em seu interior; e assim possa agradar e ver um pouquinho, como num espelho e confusamente, como o Senhor é bom, enquanto roga por sua irmã e por todos os que se afanam como ela. Maria tem a seu favor não só ao mais imparcial dos juízes, senão também ao mais fiel dos advogados, ao mesmo Senhor, que não se limita a defender sua vocação, senão que faz seu elogio, dizendo: Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada. Desta maneira a escusou de misturar-se nos cuidados e desassossegos de Marta, por piedosos que fossem. "

04 outubro 2010

2 - Elogio de Guigo à vida solitária

"Os monges que louvaram a solidão quiseram dar depoimento do mistério cujas riquezas experimentavam, e que só os bem-aventurados conhecem plenamente. Ali se leva a cabo um grande mistério, isto é, de Cristo e da Igreja, cujo eminente exemplar o encontramos em Maria Santíssima; o qual está também inteiramente oculto em toda alma fiel, e a solidão tem a virtude de revelá-lo mais profundamente.

No presente capítulo, pois, tomado dos Costumes de Guigo, temos de ver alguns reflexos da alma daquele que teve por missão do Espírito codificar as primeiras leis de nossa Ordem. Porque estas frases do quinto Prior, segundo o antigo sentido alegórico da Sagrada Escritura retamente entendidas, tocam uma verdade sublime que nos une aos nossos Padres na fruição da mesma graça.

Na recomendação da vida solitária, à que estamos chamados por vocação especial, seremos breves, por conhecer os muitos louvores que lhe tributaram tantos varões santos e sábios, e de tanta autoridade que não nos consideramos dignos de pisar suas impressões.

Já sabeis como no Antigo e, sobretudo, no Novo Testamento, quase todos os mais profundos e sublimes mistérios foram revelados aos servos de Deus não entre o tumulto das multidões, senão estando a sós, e como os mesmos servos de Deus, quando queriam sumir-se numa meditação mais profunda, ou dedicar-se à oração com mais liberdade, ou alienar-se das coisas terrenas pela elevação do alma, quase sempre se apartavam do ruído das multidões e procuravam as vantagens da solidão.

De aqui que para tocar de algum modo o tema, Isaac sai a sós ao campo a meditar, e é de crer que isto não foi nele algo isolado, senão de costume; que Jacob, enviando todas suas coisas por diante, fica a sós, vê a Deus cara a cara, e à vez pela bênção e a mutação do nome em melhor se torna ditoso; atingindo mais num momento só do que durante toda a vida acompanhado.

Também nos atesta a Escritura quanto amavam a solidão Moisés, Elias, e Eliseu, quanto cresceram por ela na comunicação dos segredos divinos; e até que ponto incessantemente corriam perigo entre os homens, e eram visitados por Deus quando estavam sós.

Jeremias se senta solitário, porque se acha penetrado da cólera de Deus Pedindo que se dê água a sua cabeça e a seus olhos uma fonte de lágrimas para chorar aos mortos de seu povo, solicita também um lugar onde poder exercitar-se mais livremente em obra tão santa, dizendo: Quem me dará na solidão um albergue de caminhantes? como se não lhe fosse possível fazê-lo na cidade, indicando deste modo quanto impede a companhia o dom de lágrimas. Assim mesmo, quando diz: Bom é esperar em silêncio a salvação de Deus, para o qual ajuda muito a solidão, adicionando depois: Bom é para o homem o ter levado o jugo desde sua mocidade, com o qual nos dá um motivo de grande consolo, pois quase todos abraçamos este género de vida desde a juventude. E diz também: Se sentará solitário e calará, porque se elevará sobre si mesmo; significando quase tudo o melhor do que há em nosso Instituto: quietude e solidão, silêncio e desejo dos dons mais elevados.

Depois dá a conhecer que alunos forma esta escola, dizendo: Dará sua bochecha a quem o ferir e se saciará de opróbrios. No primeiro brilha uma paciência suma, e no segundo uma perfeita humildade.

Também João Batista, o maior dos nascidos de mulher segundo o panegírico do Salvador, pôs em evidência quanta segurança e utilidade contribui a solidão. O qual, não se sentindo seguro nem pelos oráculos divinos que tinham predito que, cheio do Espírito Santo desde o seio de sua mãe, teria de ser o precursor do Senhor no espírito e a virtude de Elias, nem pelas maravilhas de seu nascimento, nem pela santidade de seus pais, fugindo da companhia dos homens como perigosa, elegeu os apartados desertos como mais seguros, ignorando quaisquer perigos e a morte, por tanto tempo quanto habitou só no deserto. Quanta virtude adquiriu ali e quanto mérito, demonstrou-o o batismo de Cristo e a morte sofrida por defender a justiça. Fez-se tal na solidão, que só ele foi digno de batizar a Cristo que tudo o purifica, e de enfrentar o cárcere e a morte em defesa da verdade. O mesmo Jesus, Deus e Senhor, ainda que sua virtude não podia verse favorecida pelo retiro nem impedida pelo público, no entanto, para instruir-nos com seu exemplo, antes de começar seu pregação e seus milagres quis submeter-se a uma espécie de prova de tentações e jejuns na solidão. Dele diz a Escritura que, deixando a companhia de seus discípulos, subia ao morro a orar a sós. E iminente já o tempo da Paixão, deixou aos Apóstolos para orar solitário, dando-nos com isto o melhor exemplo de quanto aproveita a solidão para a oração, quando não quer orar acompanhado nem de seus mesmos Apóstolos.

Aqui não passemos em silêncio um mistério que merece todo nosso atendimento : que o mesmo Senhor e Salvador do gênero humano se dignou mostrar-nos por si mesmo o primeiro modelo vivo de nosso Instituto, ao permanecer assim solitário no deserto, se entregava à oração e aos exercícios da vida interior, macerando seu corpo com jejuns, vigílias e outros frutos de penitência vencendo as tentações do inimigo com armas espirituais.

Agora considerai vocês mesmos quanto aproveitaram em seu espírito na solidão os santos e veneráveis padres, Pablo, Antonio, Hilarião, Benito, e tantos outros inumeráveis, e comprovareis que a suavidade da salmodia, o amor pela leitura, o fervor da oração, a profundidade da meditação, a elevação da contemplação e o batismo das lágrimas com nada se podem favorecer tanto como com a solidão.

Mas não vos contenteis com os poucos exemplos aqui citados em elogio de nosso modo de vida, senão vocês mesmos ide recolhendo outros muitos, tomados de vossa experiência cotidiana ou das páginas da Sagrada Escritura. "

03 outubro 2010

1 - Prólogo dos Estatutos

"A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vocês. Amém.

Para louvor da glória de Deus, Cristo, P do Pai por mediação do Espírito Santo, elegeu desde o princípio a alguns homens, a quem levou à solidão para uni-los a si em íntimo amor. Seguindo esta vocação o Mestre Bruno entrou com seis colegas no deserto de Cartuxa, o ano do Senhor de 1084, e se instalou ali. Tanto eles como seus sucessores, permaneceram naquele lugar sob a direção do Espírito Santo, e, guiando-se pela experiência, foram criando gradualmente um gênero de vida eremítica próprio, que se transmitia a seus sucessores, não por escrito, senão com o exemplo.

Mas a instâncias de outros eremitérios fundados a imitação do de Cartuxa Guigo, quinto Prior de Cartuxa, pôs por escrito a norma de seu propósito, que todos se comprometeram a seguir e imitar, como regra de sua observância e como vínculo de caridade da nascente família. Mas como os Priores da observância cartusiana pedissem insistentemente aos Priores e aos irmãos de Cartuxa que se lhes permitisse ter na mesma Casa um Capítulo Geral comum, reuniu-se o primeiro Capítulo Geral durante o priorado de Antelmo, ao qual se submeteram para sempre todas as Casas, junto com a mesma Casa de Cartuxa. Por aquele então, as monjas de Prebayón abraçaram também espontaneamente o modo de vida cartusiana. Este foi o começo de nossa Ordem. A partir de aqui, no decurso do tempo, a tenor da experiência e das novas circunstâncias, o Capítulo Geral ia adaptando a forma de vida cartusiana, e estabilizando e explicando nossa instituição. Esta contínua e esmerada acomodação de nossos costumes acrescentou progressivamente o conjunto de nossas Ordenações. Por isso, o ano do Senhor 1271, o Capítulo Geral reunindo num o principal sacado dos Costumes de Guigo, das ordenações dos Capítulos Gerais e dos usos da Grande Cartuxa tomados em conjunto, promulgou os Antigos Estatutos. A estes se adicionaram o ano 1368 outros documentos, que se denominaram Novos Estatutos; adicionados também documentos no ano 1509, chamaram-se Terceira Compilação.

Existindo, pois, três coleções, por motivo do Concílio Tridentino foram redigidas num só corpo, o que chamamos a Nova Coleção dos Estatutos. Sua terceira edição foi aprovada em forma específica pela Constituição Apostólica Iniunctum Nobis do Papa Inocêncio XI. Uma nova edição, outra vez examinada e acomodada às prescrições do Código de Direito Canônico então em vigor, foi aprovada também em forma específica pelo Papa Pio XI na Constituição Apostólica Umbratilem.

Por mandato do Concílio Ecumênico Vaticano II, empreendeu-se uma adequada renovação de nosso gênero de vida, segundo a mente dos decretos do mesmo Concílio, guardando como algo muito sagrado nosso retiro do mundo e os exercícios próprios da vida contemplativa. Por isso, o Capítulo Geral do ano 1971 aprovou os Estatutos Renovados, uma vez examinados e corrigidos com a cooperação de todos os membros da Ordem.

No entanto, para concordá-los com o Código de Direito Canônico, promulgado no ano 1983, os susoditos Estatutos, novamente revisados, dividiram-se em duas partes, das quais, a primeira que compreende os livros primeiro, segundo, terceiro e quarto, contém as Constituições da Ordem. Nós, pois, os humildes irmãos, Andrés, Prior de Cartuxa, e todos os demais com potestade no Capítulo Geral do ano 1989, aprovamos e confirmamos estes Estatutos.

Mas não por isso queremos relegar ao esquecimento os Estatutos anteriores, sobretudo os mais antigos, senão que se mantenha vivo seu espírito na presente observância, ainda que já não conservem força de lei.

Finalmente, exortamos a todos os professos e aspirantes de nossa Religião, e lhes rogamos encarecidamente pela misericórdia e bondade de Deus (quem com tanta clemência se dignou ajudar, dirigir e proteger a nossa família cartusiana, desde seus começos até o dia de hoje, provendo-nos em abundância de quanto conduz a nossa salvação e perfeição), que cada um em nossa vocação e ofício, esforcemo-nos por corresponder com a maior gratidão possível a tão paternal liberalidade e benevolência de Deus nosso Senhor. O que cumpriremos, se de tal modo nos dedicamos fiel e solicitamente à observância regular contida nos presentes Estatutos, que, reta e devidamente instruído e aperfeiçoado por estas disposições nosso homem exterior, no homem interior procuremos ao mesmo Deus com maior fervor, achemo-lo com mais prontidão e o possuamos mais perfeitamente. E assim, com a ajuda do Senhor, possamos chegar à perfeição da caridade, fim de nossa profissão e de toda vida monástica, e atingir depois a bem-aventurança eterna. "

Estatutos da Ordem Cartusiana

Hoje inicio aqui a transcrição dos Estatutos (tradução Brasileira) desta Ordem monástica, Ordem sobre a qual poucos de nós sabemos, aliás, salvo melhor opinião de quem de direito, apenas com o filme "O Grande Silêncio" é que se viu o lado de dentro o trabalho que estes nossos irmãos realizam em prol de todos nós. A Oração é um grande mistério para nós leigos mas, para eles (e demais consagrados que vivem em clausura) é algo que transcende o nosso conhecimento. Sim é verdade que sinto uma grande empatia por eles, este monges brancos de poucas palavras...


28 setembro 2010

Um pensamento que me ocorreu

A maioria de nós apelida-se de Cristãos e está correcto, mas quantos de nós, no meio de resmas de livros lidos sobre o Cristianismo e as Sagradas Escrituras, já leu a nascente dessa água viva que dá pelo nome de Bíblia Sagrada?

17 setembro 2010

Deserto

Vagueio pelo deserto mais árido e seco que conheci até agora.

Tento a todo o custo e com as minhas forças imaginar-me ao Teu colo nesta areia mas, o conjunto de pegadas que vejo, sinto que são só as minhas.

Já estive em outros desertos mais aconchegantes e menos inóspitos.

Vou parar um pouco, reflectir, meditar e orar, porque mesmo que a minha reflexão seja frouxa, a minha meditação seja cheia de ruídos e a minha oração esvaziada de conteúdo, penso (sonho) que terá algum valor e, pouco que seja a Deus, deverá ser mais do que deixar-me afundar nestas areias que, não sendo movediças, são tão finas que, passo a passo que dê, vou-me “afundando”.


09 setembro 2010

Um pensamento para este dia



"Para alguém que tenha fé, nenhuma explicação é necessária. Para aquele sem fé, nenhuma explicação é possível."



São Tomás de Aquino

08 setembro 2010

Carta a uma filha de Maria de Nazaré


Deus escreve direito por linhas tortas” diz o povo desde longa data e com muita razão, aliás, salvo melhor opinião, todos os ditados criados e ainda hoje em uso, têm um fundamento lógico e com nexo, e não foram criados ao acaso ou numa altura em que o seu criador estava inspirado.
Esta pequena introdução irmã, vem na sequência do artigo anterior (homem de Deus). Estava eu a ver os meus emails quando reparei que tinha um de ti. Abri, como costume, e li com calma e ponderação aquilo que me dizias.
Assim, a dada altura, dizes-me que desde há algum tempo apelidaste-me de “homem de oração” e que o mesmo é um nadinha mais que o anterior, ou seja, que para ser um “homem de oração” tem que primeiramente ser um “homem de Deus”.
Realmente foi uma afirmação arrebatadora, bombástica até mas, ao contrário da do outro artigo, esta não mexeu comigo da mesma maneira. Aparentemente, nada senti, senão a constatação da afirmação que, a meu ver, tem lógica e fundamento. Na verdade, para sermos homens de Oração, temos que ser antes de tudo mais, homens de Deus.
Como disse, aparentemente nada senti, no entanto, foi nessa aparente falta de alguma sensação que arrebatasse o meu coração, que fiquei a pensar estes dias.
Hoje e após alguma meditação/introspecção constatei que esta tua afirmação é que uma fiel devota de Maria, já que foi na tua simplicidade e humildade que me chamaste tal coisa. Só alguém que segue-O ao lado de Maria diria, tal como todas as suas aparições ao longo dos tempos em que apenas pede que Orem. Só mesmo quem tem convicção e fé na oração, dar-me-ia um apelido tão simples e belo mas, em simultâneo, tão poderoso como a oração o é, tão simples como Maria o foi ao anjo Gabriel e tão silencioso mas fecundo como a oração deve ser.
Eu, minha irmã, sem querer ser repetitivo, sou um pecador ainda a caminho de ser homem de Deus. Oro, é certo e é na Oração que me identifico com Deus, mais do que na acção, no entanto, tantas são as vezes que oro sem saber orar. Inúmeras são as vezes que conto as contas do terço mas o meu pensamento está longe d`Ele. Imensas são as vezes que nem o Coroa de Nossa Senhora rezo e quando rezo, nem sempre sinto-me convicto nas palavras que me banham a mente. Converso muitas vezes com ela, como de filho para mãe mas, será isso orar? Sinto-me amparado por ela porque, quando lhe peço algo, raras são as vezes que a sua intercepção não é atendida e, se não é, é porque Nosso Senhor deve achar que não é chegada a altura de atender a tal pedido mas, com tantas falhas na minha “vocação” de oração, serei um homem de Oração?
Tens razão quando dizes que pensavas que no outro blog iria continuar a escrever orações como a 1ª oração e “desiludi-te”, porque tem sido muito amiúde os meus escritos por lá.
Agora, após estas toscas palavras, sinto que, aparentemente quase nada senti, no entanto, sem querer com o que vou dizer a seguir, vangloriar-me ou algo assim pecaminoso, sinto que é assim que os filhos da Virgem Maria devem ser, isto é, na humildade humanamente possível, não se ficaram pelos elogios, não se sentirem num “altar” quando são ditas coisas positivas a seu respeito, ainda que com alguma verdade inserida.
Se calhar, mesmo nas orações ditas e não sentidas, Nossa Senhora soube aproveitar uma mera vogal ou uma simples consoante e tornou-a perante Deus uma oração digna d`Ele e, com esta aparente falta de sensação, ela voltou a colocar-me no caminho certo em direcção a Deus, no caminho da humildade, sinceridade e seguindo Cristo como ela segui-O, sem me sentir mais que os outros, aliás, tendo como lema próprio “um irmão como os demais”, a sensação de euforia que senti no anterior artigo, ainda que possa ter sido, em parte, uma Graça, um mimo para um homem de Deus, também se calhar fiquei um pouco presunçoso de mais e com essa atitude pequei.
Como disse no inicio “Deus escreve direito por linhas tortas” e com este comentário que me fizeste, Maria, através das tuas palavras fez-me descer do “altar” em que me sentia e voltei a ser apenas e tão só uma tentativa de homem de oração, como aqueles que, no silêncio das suas clausuras, separados de todos, oram por eles, sem que muitos “deles” o saibam ou sonhem.

06 setembro 2010

"homem de Deus"


Há dias atrás, num blog que visito regularmente e num contexto que seria demasiado explicar aqui, o seu autor apelidou-me de “homem de Deus”.
Confesso que por uma breve fracção de segundo, senti um calor abrasador na minha pequena alma, com esta afirmação minimalista e breve mas, ao mesmo tempo, de uma enorme grandeza inexplicável. Depois, veio ao de cima a parte humana de mim, a parte em que senti-me inchado, importante e quase como sendo alguém muito próximo do Altíssimo. De seguida, pedi-Lhe perdão, quase que inconscientemente, por ter tido esses pensamentos normais para o homem mas, tentações para quem é crente, para quem tenta diariamente seguir Cristo por intercessão da Sua Mãe Maria Santíssima. Para quem se diz ser, apenas e tão só Cristão como os demais.
Há noite, não sei se por obra e graça do Espírito Santo (como dizemos na gíria e algumas vezes em jeito de gozo) novamente essa expressão batia incessantemente na minha mente “homem de Deus” como se quisesse dizer algo mais do que apenas isso. É certo que, em termos religiosos, já me deram muitos apelidos, uns bons e outros menos bons, mas todos eles com um impacto na alma muito menor que este. Este realmente mexeu muito comigo porque, nesta pequena afirmação, este irmão em Cristo conseguiu, sem saber ou tão pouco imaginar, agregar todos os outros apelidos num só.
Aos poucos fui ruminando-a para ver se conseguia extrair alguma seiva, alguma gota de orvalho ou algumas proteínas necessárias para a minha alma, mas acabei por adormecer antes que se fizesse luz, antes que retirasse algum ensinamento.
Agora, e enquanto vou passando para esta folha de papel inexistente, com esta tinta virtual, aos poucos vou sentido, não só o peso mas, principalmente, a responsabilidade de tal apelido. Sim, porque apesar de ser membro efectivo da A.P.A. (Associação de Pecadores Anónimos) na qual, comprometi-me que, todos os dias da minha vida, tentaria não pecar, tentaria segui-Lo com todas as minhas forças, todos nós Cristãos, membros do A.P.A. ou não, somos co-responsáveis com aqueles e aquelas que se entregaram a Deus de alma e coração. Apesar de leigos, somos as pedras vivas da Igreja e assim sendo, também temos responsabilidades perante Deus, também temos deveres perante os nossos irmãos e não, como alguns possam pensar, que só temos direitos, e os deveres, esses são para os sacerdotes e afins.
Sermos “homens de Deus”, para além de toda a enormidade inserida, para além de toda a carga emocional e teológica inserida, é agirmos como tal, é sermos sacerdotes, profetas e reis aqui e agora e não amanhã… se calhar. É usarmos dos meios disponíveis neste tempo, para passarmos a “boa nova” a quem está um pouco debilitado na fé mas, principalmente, a quem não tem fé ou a perdeu. É também darmos a mão a que está estendido, o ombro a quem precisa de apoio, uma palavra amiga a quem precisa de auto-estima ou apenas ouvir quem precisa falar, entre muitas outras acções.
Termino confessando a Deus todo-poderoso e a vós, irmãos, que nem sempre sou o Cristão que devia ser, que muitas vezes peco com todos os poros do meu corpo e não “… muitas vezes por pensamentos, palavras, actos e omissões”, mas é “por minha culpa, minha tão grande culpa” porque diariamente “peço à Virgem Maria, aos Anjos e Santos e a vós irmãos, que roguem por mim a Deus nosso Senhor” e sabendo que intercedem, esta minha pequena alma sofre, quando caio em tentação.
homem de Deus”… tão perto e tão longe que me encontro desse estatuto mas, foram gotas de água pura na minha alma, muitas vezes impura. Que Nossa Senhora interceda a Deus Nosso Senhor por este irmão, “fruta que cairá quando estiver madura” como me explicou um irmão romeiro, sacerdote por sinal.

02 setembro 2010

“Padres de púlpito precisam-se!”


Quase todas as igrejas possuem um púlpito, local onde os padres antigamente proferiam as leituras da Sagrada Escritura e respectivo sermão. Hoje, na sua grande maioria, são apenas e tão-somente um adorno da igreja, algo que quase parece mais uma varanda com vista para a igreja ou, em cerimónias como casamentos e baptizados, para quem foi contratado para filma-las e/ou fotografá-las. Hoje em dia, as leituras e respectivo sermão são proferidos ao mesmo nível do que os fieis, ao contrário de outros tempos, em que os referidos fieis tinham que olhar para cima.

Independentemente de pontos de vista teológicos ou de directivas da Santa Sé, não quero dizer com esta pequena introdução (quiçá controversa), que pense que os padres devam voltar a usar o púlpito, fisicamente falando. É certo que ainda existem alguns que não deixam acumular pó ou teias de aranha no referido local mas, quando digo que “Padres de púlpito precisam-se!” refiro-me a padres que o são na verdade da palavra, contra tudo e todos, em nome da fé que professam, ou seja, que não se deixam amordaçar pelo poder económico ou político. Que não entram em cantigas, como por exemplo “o socialmente correcto”. Jesus Cristo, naquele tempo também em nome de Deus, não foi nas cantigas de então. Que não caem na tentação do marasmo que se vê em algumas igrejas por este país dentro, principalmente nas missas dominicais, onde as leituras são monocórdicas, e infelizmente, como se isso já não fosse bastante, as explicações da Sagrada Escritura ficam há quem das expectativas da maioria dos fieis, como se o padre não tivesse tido tempo durante a semana para se preparar convenientemente ou como se os fieis não fossem perceber.

A propósito “das expectativas da maioria dos fiéis” há tempos atrás, numa procissão de freguesia, e na sequência de um comentário sobre devoção/obrigação um padre dizia para um outro:

- Não sei o que é que este povo de Deus pretende de nós!”

Bem, na sequência do já acima escrito, o que o povo de Deus possivelmente pretende dos padres de hoje, é que, espanejam as missas, tirem as teias de aranhas dos bancos que não são usados e, por amor de Deus, para além de uma preparação conveniente, principalmente para as missas dominicais, não tenham medo em explicar a Sagrada Escritura à luz dos dias de hoje, ou seja, de um ponto de vista catequetico e profético. De um ponto de vista de sacerdote para fiel, onde não exista a critica pessoal e por vezes destrutiva, o recado a alguém que está na igreja ou pontos de vista pessoais “ofensivos” sobre “determinado(s) movimento(s) da igreja. Todos nós somos filhos de Deus e todos nós professamos a fé em Deus, seja como individuo e/ou inserido em algum movimento.

O que também o povo de Deus possivelmente pretende é que os padres sejam-no, não por obrigação, mas sim por devoção.

Costumo dizer (como possivelmente muitos outros fieis) que existem “padres que chamam-nos à igreja e outros que nos afastam”. Graças a Deus que ainda existem muitos padres que nos chamam à igreja, aqueles a que apelido de Padres do púlpito, no entanto, apesar de (ainda) muitos, começam a ser poucos para a messe que é grande.

Termino dizendo que, com este artigo de opinião pessoal, não estou a apontar o dedo ou a fazer uma crítica destrutiva a algum sacerdote em particular, muito pelo contrário, tento com este modesto artigo despertar o ardor dos nossos corações quando Ele nos fala durante a caminhada terrena e nos explica as escrituras, em especial aos padres, mas também a todos os fieis (começando por mim) que também por vezes, contribuem para a apatia geral nas missas.

25 agosto 2010

Clarissas na Ilha de São Miguel

Dois apontamentos para a posteridade de um mosteiro de contemplativas nos Açores. Gostei de falar com uma das irmãs.

23 julho 2010

Jesus explica a parábola do semeador

Mt 13,18-23

“- Então escutem e aprendam o que a parábola do semeador quer dizer. As pessoas que ouvem a mensagem do Reino, mas não a entendem, são como as sementes que foram semeadas na beira do caminho. O Maligno vem e tira o que foi semeado no coração delas. As sementes que foram semeadas onde havia muitas pedras são as pessoas que ouvem a mensagem e a aceitam logo com alegria, mas duram pouco porque não têm raiz. E, quando por causa da mensagem chegam os sofrimentos e as perseguições, elas logo abandonam a sua fé. Outras pessoas são parecidas com as sementes que foram semeadas no meio dos espinhos. Elas ouvem a mensagem, mas as preocupações deste mundo e a ilusão das riquezas sufocam a mensagem, e essas pessoas não produzem frutos. E as sementes que foram semeadas em terra boa são aquelas pessoas que ouvem, e entendem a mensagem, e produzem uma grande colheita: umas, cem; outras, sessenta; e ainda outras, trinta vezes mais do que foi semeado.”

Esta é a leitura para o dia de hoje.

Depois de a ler, deparei-me com a situação de me sentir enquadrado neste “As sementes que foram semeadas onde havia muitas pedras são as pessoas que ouvem a mensagem e a aceitam logo com alegria, mas duram pouco porque não têm raiz” e neste Outras pessoas são parecidas com as sementes que foram semeadas no meio dos espinhos. Elas ouvem a mensagem, mas as preocupações deste mundo e a ilusão das riquezas sufocam a mensagem, e essas pessoas não produzem frutos”, isto é, no 1º caso ouço a mensagem e aceito-a com alegria, mas por vezes essa alegria dura pouco, ainda que tente a custo, mantê-la o mais possivel. No entanto, não abandono a Fé. No 2º caso também ouço a mensagem mas, as preocupações do dia-a-dia, algumas vezes sufocam a mensagem e relego-a para 2º plano…infelizmente.

Espero e desejo que, com a ajuda do Espirito Santo, um dia me torne em terra boa…

20 julho 2010

"Deuscidências"


Este fim-de-semana aconteceu-me uma coisa um pouco diferente do que é habitual, passo a explicar-te:

- Vou recebendo e lendo alguns PPS`s, entre os quais, aqueles a que posso apelidar de cariz religioso, entre os quais, aqueles em que determinadas pessoas, por oração, pedido ou meramente uma conversa com Deus, Ele “aceita” e manda o que queremos por terceiros, isto é, nem sempre é como pensamos que seja, no entanto, Ele dá-nos a resposta.

Pois na passada madrugada de sexta para sábado, estava na cama sem sono e pus-me a pensar que precisava de falar com determinada pessoa para me ajudar numa determinada tarefa. Não que a pessoa em questão residisse muito longe mas, passam-se meses que não me cruzo com ela.

Sábado de manhã, estava eu a deitar algum lixo fora num contentor que se encontra na rua onde resido (por sinal um pouco desviada do caminho corrente e como tal um pouco calma) e eis que para um carro ao pé de mim e o condutor, pergunta-me se precisava de ajuda (por “mero acaso”) a pessoa que tinha pensado nessa madrugada).

Não importa se aceitei a ajuda ou por mais vergonha que custo a declinei mas, o “caricato” da questão foi que, muito possivelmente devido à conversa com Deus, Ele ter-me respondido.

16 julho 2010

Onde puseram Deus nesta Sociedade?


Vivemos numa época, na qual o Homem pensa já ter o conhecimento total sobre quase tudo e aquilo que ainda não sabe, não é obra de Deus, ou seja, a grande maioria dos seres humanos tendo já adquirido um enorme grau de conhecimentos em quase todas as áreas da vida, pensa e age como se Deus tivesse sido uma invenção dos nossos antepassados e como tal, alguns põem em causa a Sua existência, mesmo entre aqueles que se dizem Cristãos e outros, já nem duvidam da sua não existência.

Nos dias de hoje, todos aqueles que O seguem, são na sua maioria de rotulados de retrógrados, antiquados ou outros termos mas, todos eles depreciativos. Aliás, na maioria dos países ditos desenvolvidos, a religião apesar de ter séculos de existência e ser aceite, democraticamente falando, cada vez mais os governantes desses mesmos países, criam leis que afastam o Homem do seu Criador. Cada vez mais, indirectamente e em passinhos de lã, vão empurrando o Cristão e o Cristianismo para um canto onde não incomode, não opine, não critique (ainda que construtivamente) e principalmente não interfira em determinadas leis, leis essas que do ponto de vista governativo, são “progressivas”, “inovadoras” e até “humanas”. Lamentavelmente, na minha maneira de ver essas mesmas determinadas leis, todas elas são tudo menos progressivas, inovadoras ou humanas. Todas elas enquadram-se no consumismo, no facilitismo e na pressão que certos grupos da sociedade fazem junto dos governantes, no intuito de fazer prevalecer as suas ideias em detrimento do que é humanamente e eticamente correcto, e eles (os governantes) na maioria das vezes deixam-se ir ao sabor do vento e atrás das cantigas que lhe dizem aos ouvidos, infelizmente.

Aqueles que O seguem, como eu e muitos daqueles que neste momento lêem estas linhas, sentem o mesmo que eu sinto, isto é, o ser Cristão e Segui-Lo é cada vez mais difícil, mas não é impossível.

O começo deste “empurra os Cristãos para um canto” já ocorreu á alguns anos. Primeiro com situações muito subtis, mas actualmente, com situações muito concretas, a saber (entre outras que me esteja a esquecer):

- Retirar os crucifixos das salas de aula (por causa das crianças que professam outros credos). Há poucos dias passou por mim um abaixo-assinado sobre a reposição dos mesmos nas salas de aula, atendendo a que (entre outros argumentos) Portugal é maioritariamente Católico (quis perceber isso). Se formos para países muçulmanos (entre outros credos), apesar de haver igrejas católicas, somos confrontados diariamente com o chamamento para as orações diárias deles, e não vejo os seus dirigentes serem tolerantes ao ponto de retirarem os microfones que chamam pelos seus fiéis;

- Supressão do “nome” Padre nas escolas que o nome era o de um padre. Que situação mais ridícula e ambígua criada, isto é, determinada pessoa tornou-se conhecida, notada e até alvo de reconhecimento publico e institucional (“dar” o nome a um determinado estabelecimento de ensino) não pelo seu nome de baptismo mas sim pela sua vocação. Se o nome “Padre” numa determinada escola pode ferir susceptibilidades, também em outras situações públicas poderá ferir susceptibilidades os nomes “Eng.” ou “Dr.” entre outros cargos que, pelo reconhecimento do seu trabalho e dedicação à sociedade, esta resolveu homenageá-lo;

- Possibilidade de contrair matrimónio civil duas pessoas do mesmo sexo. Cada um é livre de fazer o que quer (mesmo que isso vá contra a moral, os bons costumes e a liberdade dos que estão à volta) e levar a vida que considera ser a mais correcta (mesmo que isso vá contra a Lei de Deus), no entanto, a constituição de o que é designado por Família com duas pessoas do mesmo sexo, não me parece correcto, aliás, sou contra redundantemente. Para mim, e de certeza uma grande maioria das pessoas (felizmente) uma família, em primeira instância é a união de duas pessoas de sexos opostos. E não querendo entrar na procriação da espécie, duas pessoas do mesmo sexo, não conseguem (naturalmente falando) procriar por si só e, em última instância têm que recorrer a uma terceira pessoa para a continuação da espécie humana. Será isto correcto? Não creio, aliás, penso que estas “uniões de facto” ou outro termo que queiram utilizar, não passam de modas ou de ser um “vamos experimentar outra coisa”, como quem hoje come carne e amanhã experimenta-se peixe;

- Numa altura em que se fala, discute e até se criam comissões de trabalho para debaterem a deficitária taxa de natalidade em detrimento da taxa de mortalidade, em simultâneo cria-se uma lei em que se permite o aborto “legal” até determinadas semanas! Num tempo em que existem mil e uma maneiras de evitar gravidezes “indesejadas”, antes do acto e até depois do mesmo, era necessário uma lei que aniquile vidas já criadas no útero da mãe? E depois, os “pro-aborto” dizem que as mulheres (por estas ou aquelas razões) têm todo o direito de o fazer mas, esquecem-se das complicações, não só físicas como principalmente psicológicas;

- Estipulassem regras que dão todos os direitos às crianças na sociedade mas não se diz que também têm deveres a cumprir perante a mesma sociedade, regras essas que tiram quase na integra a “autoridade” aqueles que têm obrigações familiares e/ou sociais, sob pena dessas crianças contraírem doenças, principalmente as do foro psicológico, caso essas regras não sejam cumpridas. Em bom rigor, já chegámos a um ponto em que uma criança pode agredir (fisicamente e/ou verbalmente) um adulto e sair impune e este último, caso dê um pequeno “carolo” ou uma palavra mais áspera (mais pequeno ou mais “soft” dos que ocorrem entre essas crianças) estar sujeito a um processo em Tribunal.

Apesar de todas estas situações, nós Cristãos também temos algumas responsabilidades, isto é, algumas das coisas descritas “deixamos passar” e muitas outras, mesmo com abaixo assinados e possibilidade de referendos, quem nos governa, na sua maioria apenas e tão só governa-se!

Por vezes penso que se calhar somos os Cristãos dos últimos dias descritos no Livro do Apocalipse, e como tal, em comparação com os primeiros, desceremos às “catacumbas”, onde quer que elas existam, para continuarmos a praticar a Fé Cristã e, em segredo ensinarmos aos outros as Leis de Deus, eternas e imutáveis, ao contrário das leis dos homens, finitas e mutáveis.

Mais situações existem com certeza, mas também não pretendo alongar-me mais do que já me alonguei.

Termino como uma eventual reflexão a ser feita por cada um de nós, com o título deste artigo:

- Onde puseram Deus nesta Sociedade?