18 outubro 2010

17 -O noviço

"Quem, ardendo em amor divino, deseja abandonar o mundo e captar as coisas eternas, quando chegam a nós recebamo-los com o mesmo espírito. É, pois, muito conveniente que os noviços encontrem nas Casas onde têm de ser formados, um verdadeiro exemplo de observância regular e de piedade, de guarda da cela e do silêncio, e também de caridade fraterna. Se chegasse a faltar isto, mal se poderá esperar que perseverem em nosso modo de vida.

Aos que se apresentem como candidatos, se os tem de examinar atenciosa e prudentemente, segundo o aviso do apóstolo São João : Examinai se os espíritos vêm de Deus. Porque é realmente verdadeiro que da boa ou má admissão e formação dos noviços depende principalmente a prosperidade ou decadência da Ordem, tanto na qualidade como no número das pessoas.

Por isso, os Priores devem informar-se com prudência sobre sua família, sua vida passada e suas qualidades de alma e corpo; pela mesma razão, convirá conferir a médicos prudentes que conheçam bem nosso gênero de vida. Efetivamente, entre as dotes pelas que os candidatos à vida solitária devem ser estimados, tem de contar-se sobretudo um juízo equilibrado e são.

Não acostumamos receber noviços antes de que tenham começado os vinte anos; inclusive entre os que peça ser admitidos, recebam-se tão só aqueles que, a juízo do Prior e da maioria da Comunidade, tenham suficiente piedade, maturidade e forças corporais para levar os ônus da Ordem; e sejam o bastante aptos, sem dúvida para a solidão, mas também para a vida comum.

Mas convém que sejamos mais circunspetos na recepção das pessoas de idade madura, já que se acostumam mais dificilmente às observâncias e nossa forma de vida; por isso, não queremos que se receba aspirante algum ao estado de converso passados os quarenta e cinco anos, sem licença expressa do Capítulo Geral ou do Reverendo Pai. Tal licença se requer também para admitir ao noviciado a um religioso paquerado o vínculo da Profissão em outro Instituto, e se se trata de um professo de votos perpétuos, o Reverendo Pai precisa do consentimento do Conselho Geral. Para admitir a alguém unido anteriormente com votos a um Instituto religioso se nos aconselha ouvir antes ao Reverendo Pai.

Quando se nos apresenta algum pedindo ser irmão nosso, é necessário que não padeça nenhum impedimento legítimo, que vinga movido por reta intenção, e que seja apto para levar os ônus da Ordem Razão pela qual seja interrogado devidamente sobretudo aquilo cujo conhecimento pareça necessário ou oportuno para formar um juízo reto a respeito de sua admissão.

Cumprido isto, expõe-se ao candidato o fim de nossa vida, a glória que esperamos dar a Deus por nossa união com sua obra redentora, e que bom e gozoso é deixá-lo tudo para aderir-se a Cristo. Também se lhe propõe o duro e áspero, fazendo-lhe ver, quanto seja possível, todo o modo de vida que deseja abraçar. Se ante isto segue decidido, oferecendo-se com sumo gosto a seguir um caminho duro, fiado nas palavras do Senhor, e desejando morrer com Cristo para viver com Ele, por fim se lhe aconselha que, conforme ao Evangelho, se reconcilie com aqueles que tiverem alguma coisa contra ele.

Depois de conviver uns dias conosco, se ao Prior lhe consta que pode ser recebido o aspirante, receberá o manto dos postulantes de mãos do Mestre de noviços. Exercitar-se-á em diversos trabalhos e obediências, e assistirá ao Ofício divino, para que se acostume quanto antes à nova vida. Antes de que comece o noviciado, seja provado na Casa ao menos durante três meses e não mais de um ano.

Se o postulante fosse achado humilde, obediente, casto, fiel, piedoso, equilibrado, apto para a solidão e diligente no trabalho pode ser apresentado à Comunidade, incluídos os doados perpétuos. Apresentação que fazem o Vigário, o Procurador e o Mestre, quem clara e exatamente põem de manifesto as dotes e defeitos do postulante. E se toda a Comunidade, ou a maior parte, julga que pode ser admitido, corresponde ao Prior associá-lo à Ordem com a tomada do hábito monacal, tendo feito antes ao menos quatro dias de retiro.

O novicio, já que se propõe deixar todas as coisas para seguir a Cristo, entregue integralmente ao Prior o dinheiro e as demais coisas que talvez trouxe consigo, a fim de que sejam guardadas não por ele mesmo, senão pelo Prior ou por quem este designar. Por nossa parte, não exigimos nem pedimos absolutamente nada aos que querem entrar em nossa Ordem ou aos noviços.

O noviciado fato para monges leigos não vale para monges do claustro, nem vice-versa.

O noviciado se prolonga durante dois anos; tempo que o Prior pode prorrogar, mas não mais de seis meses. O candidato, ao menos antes de começar o segundo ano, eleja entre a vida dos conversos e a dos doados, espontaneamente e com toda liberdade.

O candidato que passa com votos perpétuos de outra Religião à nossa uma vez cumprido o postulantado como dissemos antes, se fosse apto, é admitido ao noviciado dos conversos, no qual permanece cinco anos antes de ser admitido à Profissão solene.

Para sua admissão ao noviciado faça-se igualmente depois de passados dois anos, e depois, depois de outros dois, e finalmente antes da Profissão solene.

Se algum, já no segundo ano do noviciado dos doados, ou depois de feita a Doação, fosse passar ao estado dos conversos, ao Prior corresponde determinar o ordem de toda a provação, de modo que esta dure ao menos sete anos e três meses, e se observem as normas do Direito. O mesmo se faz quando um converso noviço ou professo de votos temporários passa ao estado de doado.

Não se deixe aplanar o novicio pelas tentações que costumam espreitar aos seguidores de Cristo no deserto; nem confie em suas próprias forças, senão mais bem espere no Senhor, que deu a vocação e levará a termo a obra começada. "

17 outubro 2010

15 -O trabalho

"Os irmãos se dedicam ao trabalho nas horas assinaladas, a fim de que, providenciando às necessidades da Casa mediante seu trabalho com Jesus, o filho do Carpinteiro, orientem toda a criação à glória de Deus, e glorifiquem ao Pai ao mesmo tempo que associam ao homem todo inteiro à obra da Redenção. No suor e na fadiga do trabalho acham, efetivamente, uma partícula da cruz de Cristo, por onde, à luz de sua Ressurreição, fazem-se partícipes dos novos céus e da nova terra.

Segundo a antiga tradição monástica, o trabalho é um meio muito eficaz de progresso para a caridade perfeita pela prática das virtudes Pelo equilíbrio que estabelece entre o homem interior e o exterior, o trabalho ajuda também ao irmão a sacar mais fruto da solidão.

Nas obediências, e em tudo o que têm a seu cargo, os irmãos seguem as disposições do Prior e do Procurador, aproveitando seus dotes naturais e os dons da graça no desempenho dos cargos que se lhes encomendem. Assim, pela obediência, aumenta-se a liberdade de filhos de Deus, e com esta submissão voluntária contribuem à edificação do Corpo de Cristo segundo o plano divino.

O Procurador com respeito aos irmãos, bem como o Encarregado de obediência com respeito a seus ajudantes, exerçam sua autoridade com espírito de serviço, de sorte que manifestem a caridade com que Deus os amou. Confiram-nos e escutem-nos gostosos, salva, com tudo, sua autoridade para decidir e ordenar o que tenha que fazer. Assim todos cooperam no cumprimento do dever com uma obediência ativa e cheia de amor.

Unidos a Cristo Jesus, que sendo rico se fez pobre por nós, os irmãos trabalham sempre com espírito de pobreza. Evitam, em especial tudo esbanja, e vigiam para que as ferramentas não se estraguem. Põem, igualmente, sumo cuidado em conservar em bom estado seus instrumentos, e, sobretudo, as máquinas.

O Enfermeiro e também o Cozinheiro, e os que tenham que atender às necessidades especiais dos enfermos, rodeiem de amor aos afligidos pela doença; mais ainda, reconheçam neles a imagem de Cristo paciente, e alegrem-se de poder servir e aliviar a Cristo nos enfermos.

A vida do irmão, em primeiro lugar, ordena-se a que unido a Cristo permaneça em seu amor. Assim, mediante a graça da vocação aplique-se de todo coração a ter a Deus sempre presente, já na solidão da cela, já também em seus trabalhos. "

16 outubro 2010

14 -O silêncio

"Deus conduziu a seu servo à solidão para falar-lhe ao coração; mas só o que escuta em silêncio percebe o sussurro da suave brisa que manifesta ao Senhor. Ainda que ao princípio nos resulte no duro calar, gradualmente, se somos fiéis, nosso mesmo silêncio irá criando em nós uma atração para um silêncio cada vez maior.

Por isso, não lhes está permitido aos irmãos falar indistintamente o que queiram, com quem queiram ou o tempo que queiram. No entanto , podem falar do que seja útil para seu trabalho, mas em poucas palavras e baixinho. Além do que corresponde à utilidade do trabalho, só podem falar com licença, tanto com os monges como com os estranhos. Como a guarda do silêncio é de suma importância na vida dos irmãos é preciso que guardem cuidadosamente esta regra. Nos casos duvidosos não previstos pela lei, fica à discrição de cada qual o julgar se lhe está permitido falar e quanto, segundo sua consciência e a necessidade.

A devoção ao Espírito que habita em nós e a caridade fraterna pedem que os irmãos contem e meça suas palavras quando lhes está permitido falar. É de crer que um colóquio longo e inutilmente prolongado contrista mais ao Espírito Santo e dissipa mais do que poucas palavras, inclusive ilícitas, mas em seguida interrompidas. Frequentemente, a conversa que começa sendo útil, degenera cedo em inútil, para terminar sendo censurável.

Os Domingos e Solenidades, e também os dias dedicados especialmente ao retiro, guardam com mais cuidado o silêncio e a cela. Todos os dias, desde o toque vespertino do Ângelus até Prima, deve reinar em toda a Casa um silêncio perfeito, que não podemos quebrantar sem verdadeira e urgente necessidade. Porque este tempo da noite, segundo os exemplos da Escritura e o sentir dos antigos monges, favorece de um modo especial o recolhimento e o encontro com Deus.

Não se permitam também não os irmãos dirigir a palavra sem permissão às pessoas de fora que chegam, nem conversar com eles; unicamente se lhes permite devolver a saudação aos que encontrem ao passo ou se lhes acerquem, e responder brevemente ao que lhes perguntem, escusando-se com que não têm permissão para falar mais.

A guarda do silêncio e o recolhimento interior requerem uma especial vigilância de parte dos irmãos, que têm tantas ocasiões de falar. Não poderão ser perfeitos neste ponto, se não tentam atenciosamente andar na presença de Deus. "

15 outubro 2010

13 -A clausura

"Já que deixamos o mundo para sempre a fim de assistir incessantemente ante a Divina Majestade, conscientes das exigências de nosso estado, sentimos horror por sair e percorrer lugares e cidades. Mas de nada serviria um rigor tão grande na clausura, se não tendêssemos por ela à pureza de coração à qual somente se promete a visão de Deus. Para consegui-la, requer-se uma grande abnegação, sobretudo da natural curiosidade que o homem sente por tudo o humano. Não devemos permitir que nosso espírito se derrame pelo mundo, andando à busca de notícias e rumores. Pelo contrário, nossa parte é permanecer ocultos no segredo do rosto do Senhor.

Quando é enviado um irmão a um lugar próximo, não aceita comida nem bebida de ninguém, nem alojamento, sem um mandato especial, ou obrigado por alguma necessidade inevitável e imprevista.

O Porteiro seja amável com todos, religiosamente educado, e abstenha-se por completo do muito falar; assim edificará aos leigos com o bom exemplo. Quando tenha que receber ou com mansidão despedir a alguém, faça-o com palavras atenciosas, mas muito breves. E o mesmo se manda praticar a quem faz suas vezes.

Recordemos assim mesmo que os leigos não esperam do cartuxo que lhes fale de vãos rumores ou de política; por isso, evitando todo tema profano ou frívolo, escrevamos sempre na presença de Deus, em Cristo.

O precioso carisma do celibato é um dom divino que libera nosso coração de maneira excepcional e nos impulsiona a cada um, cativado por Cristo a entregar-se totalmente por Ele. Esta graça não deixa lugar nem à estreiteza de coração nem ao egoísmo, senão que, em resposta ao amor inefável que Cristo nos manifestou, deve dilatar nosso amor de tal maneira que um convite irresistível inflame a alma a sacrificar-se sempre mais plenamente.

Seja, pois, o alma do monge, na solidão, como um lago tranqüilo, cujas águas brotam do fundo mais puro do Espírito; nenhum ruído vindo de fora as perturba e, como límpido espelho, só refletem a imagem de Cristo. "

14 outubro 2010

12 -A solidão

"A nossa principal aplicação e propósito consistem em encontrar Deus no silêncio e na solidão. Aqui, o Senhor e o seu servo conversam frequentemente como dois amigos, a alma fiel une-se muitas vezes ao Verbo de Deus, a esposa convive com o Esposo, as coisas da terra se ligam às do Céu, as humanas às divinas. Mas geralmente é longo o trajeto a percorrer, por caminhos áridos e secos, até chegar à fonte á fonte da água viva.

No entanto, geralmente é longo o caminho de peregrinação por sendas áridas e ressecas até chegar às fontes de águas vivas.

O irmão deve vigiar com atencioso cuidado a solidão exterior, que com freqüência não está protegida pelo retiro do claustro e a guarda da cela. Mas de nada aproveita a solidão exterior se não guarda também sempre a solidão interior, ainda durante o trabalho, bem que sem violência.

Sempre que não assistam ao Ofício divino na igreja nem estejam ocupados nos trabalhos das obediências, os irmãos se retiram a sua cela como ao refúgio mais seguro e calmo do porto. Na qual permanecem com paz e, quanto seja possível, sem fazer nenhum ruído, seguindo fielmente a ordem dos exercícios, fazendo-o tudo na presença de Deus, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, dando por sua médio graças a Deus Pai. Nela se ocupam proveitosamente lendo ou meditando, sobretudo a Sagrada Escritura, que é o alimento da alma, ou se entregam à oração segundo suas possibilidades, não procurando nem aproveitando nenhuma ocasião para sair fora, salvo nas geralmente estabelecidas, ou que procedam da obediência. O homem por natureza foge às vezes do silêncio da solidão e da quietude; pelo qual diz também Santo Agustín: Para os amigos deste mundo não há nada tão trabalhoso como não trabalhar. Também podem às vezes os irmãos, para seu proveito espiritual, dedicar-se a pequenos trabalhos em sua cela, com o consentimento do Procurador.

O primeiro ato de caridade para com nossos irmãos é respeitar sua solidão; se temos permissão para falar de algum assunto em sua cela, evitemos palestras inúteis.

Depois do toque do Ângelus da tarde não vão os irmãos à cela do Prior ou o Procurador sem ser chamados. Depois dessa hora só ficam com os hóspedes os encarregados de servir-lhes Igualmente, quando um está na cela de outro ou em outra parte, quanto ouve esse toque vespertino deve retirar-se em seguida a não ser que tenha ordem especial de deter-se por mais tempo. "

13 outubro 2010

11 -Os monges leigos

"Desde suas origens, nossa Ordem, como um corpo cujos membros não têm todos a mesma função, compreende padres e irmãos. Tanto uns como outros são monges, e participam da mesma vocação, ainda que de maneira diversa. Graças a esta diversidade, a família cartusiana pode cumprir mais perfeitamente sua missão na Igreja.

Os monges do claustro, de quem tratamos até agora, vivem no retiro de suas celas e são sacerdotes ou chamados a sê-lo. Os monges leigos, dos quais vamos tratar agora com a ajuda de Deus consagram sua vida ao serviço do Senhor não só pela solidão senão também por uma maior dedicação ao trabalho manual. Aos primeiros irmãos, chamados conversos, se lhes uniram no correr do tempo outra classe de irmãos, os doados, que, sem fazer votos, oferecem-se por amor de Cristo à Ordem mediante um contrato recíproco. Já que levam vida monástica, chamamo-los também monges.

Bem como os primeiros Padres de nossa Ordem seguiram as impressões daqueles antigos monges que levaram uma vida de solidão e pobreza de espírito, igualmente nossos primeiros irmãos,Andrés e Guerín, decidiram-se a abraçar uma vocação parecida. É necessário, pois, que os conversos e doados não saiam dos termos do ermo senão rara vez e obrigados pela necessidade cuidando diligentemente de manter-se alheios aos rumores do século.

Finalmente, suas celas de tal maneira estejam isoladas que, entrando em seu interior, fechada a porta e deixando afora todos os cuidados e preocupações, possam orar ao Pai em escondido repouso.

Os irmãos, imitando a vida escondida de Jesus em Nazaré, enquanto realizam os trabalhos diários da Casa, louvam ao Senhor em suas obras, consagrando o mundo à glória do Criador e ordenando as ocupações naturais ao serviço da vida contemplativa; mas nas horas consagradas à oração solitária, e quando assistem aos Ofícios divinos, dedicam-se a Deus por inteiro. Assim, pois, os lugares onde trabalham e vivem devem estar acondicionados de tal sorte que facilitem o recolhimento e, ainda providos de tudo o necessário e útil, deem a impressão de ser verdadeira mansão de Deus, não um edifício profano.

Unidos no amor do Senhor, na oração, no zelo pela solidão e no ministério do trabalho, os irmãos vivem juntos sob a direcção do Procurador. Mostrem-se, pois, verdadeiros discípulos de Cristo, não tanto de palavra quanto de obra, fomentem a caridade fraterna, tendo uns mesmos sentimentos, suportando-se mutuamente e perdoando-se se algum tem queixa contra outro, a fim de ser um só coração e uma só alma.

Dentro de seu próprio marco de solidão, os irmãos trabalham para providenciar às necessidades materiais da Casa, que lhes estão especialmente confiadas. Assim permitem aos monges do claustro consagrar-se mais livremente ao silêncio da cela.

Padres e irmãos, discípulos daquele que não veio ser servido senão a servir manifestam de forma diversa as riquezas de nossa vida, consagrada totalmente a Deus na solidão.

Estas duas formas de vida, na unidade de um mesmo corpo, têm graças diferentes, mas complementares a uma da outra e com mútua comunicação de bens espirituais. Tal harmonia permite ao carisma confiado pelo Espírito Santo a nosso Pai São Bruno atingir sua plenitude.

Entendam os padres que pelas sagradas Ordens, com as que foram marcados, receberam não tanto uma dignidade como um serviço. Ademais, o sacerdócio ministerial e o sacerdócio batismal dos leigos estão relacionados entre si, já que ambos participam do único sacerdócio de Cristo. Que cada qual, pois, correndo pelo caminho reto para a única meta de nossa vocação, persevere no estado ao que foi chamado.

O Prior há-de ser para todos os seus filhos, monges do claustro e leigos, um signo vivo do amor do Pai celestial, unindo-os em Cristo de tal maneira que formem uma família e que, segundo a expressão de Guigo, cada uma de nossas Casas seja realmente, uma igreja cartusiana.

A qual tem sua raiz e fundamento na celebração do Sacrifício Eucarístico, que é signo eficaz de unidade. É também o centro ecume de nossa vida, e ademais viático espiritual de nosso Êxodo, por onde na solidão retornamos por Cristo ao Pai. Assim mesmo, em todo o curso da Liturgia, Cristo como nosso Sacerdote ora por nós, e como Cabeça nossa ora em nós.

E como o caminho mais seguro para ir a Deus é seguir de perto as impressões de nossos Fundadores, os irmãos devem propor-se como modelos aos primeiros conversos da Grande Cartuxa, que, sem contar ainda com uma regra escrita, deram forma e espírito a seu gênero de vida.

Sua recordação inundava de gozo o coração de São Bruno, e o movia a escrever: De vocês, amaríssimos irmãos leigos, digo : Minha alma glorifica ao Senhor ao ver a grandeza de sua misericórdia sobre vocês. Alegro-me também de que, ainda sem ser letrados, Deus todo-poderoso grava com seu dedo em vossos corações não só o amor, senão também o conhecimento de sua santa lei. Com vossas obras, efetivamente, demonstrais o que amais e conheceis. Porque praticais com todo o cuidado e zelo possíveis a verdadeira obediência, que é o cumprimento da vontade de Deus e a clave e o selo de toda vida espiritual. Obediência que não existe nunca sem muita humildade e grande paciência, e que sempre vai acompanhada do casto amor do Senhor e da verdadeira caridade. O qual põe de manifesto que recolheis sabiamente o fruto muito suave e vivificador da Escritura divina. Permanecei, pois, irmãos meus, no estado ao que chegastes."

12 outubro 2010

10 -A Profissão

"Morto ao pecado e consagrado a Deus pelo batismo, o monge pela Profissão se consagra mais plenamente ao Pai e se desembaraça do mundo, para poder tender mais retamente para a perfeita caridade. Unido ao Senhor mediante um compromisso firme e estável, participa dom mistério da Igreja unida a Cristo com vínculo indissolúvel, e dá depoimento ante o mundo da nova vida adquirida pela Redenção de Cristo.

Quando se acerca o fim do segundo ano de noviciado, se o novicio parece digno de ser admitido, se o apresentará à Comunidade que, depois de alguns dias, bem pensado o assunto, dará seu parecer sobre a admissão do novicio. Este, por sua vez, não faça os votos senão com plena liberdade e maturidade de juízo.

Esta primeira Profissão se emite por três anos. Passado este prazo, corresponde ao Prior, depois do voto da Comunidade, admitir ao jovem professo a passar dois anos com os professos de votos solenes. Em tal caso, o monge renovará por um biênio a Profissão temporária. Durante um destes dois anos – normalmente o segundo –, o futuro professo estará livre de estudos canônicos, a fim de se preparar com mais reflexão para os votos solenes.

Porque o discípulo que segue a Cristo deve renunciar a tudo e a si mesmo, o futuro professo, antes da Profissão solene, renuncie a todos os bens que tem em ato; pode também, se quer, dispor dos bens aos que tenha direito. Nenhuma pessoa da Ordem peça nada em absoluto de suas coisas ao professo temporária, nem sequer com fins piedosos, nem para dar esmola a quem seja, senão que ele deve dispor livremente de seus bens segundo lhe ele decida.

O que vai professar escreva por si mesmo a Profissão na forma e com as palavras: Eu, frei N., prometo… estabilidade, obediência e conversão de meus costumes, diante de Deus e dos seus Santos, e das relíquias deste ermo, que está construído em honra de Deus e da bem-aventurada sempre Virgem Maria e de São João Batista, na presença de Dom N., Prior..

Depois da palavra “prometo”, se se trata da primeira Profissão temporária, adiciona-se “por três anos”, e quando esta Profissão se prorrogue, especifique-se o tempo da prorrogação; mas se se trata da Profissão solene, diga-se “perpétua”.

É de saber que todos nossos ermos estão dedicados em primeiro lugar à Santíssima Virgem Maria e a São João Batista, nossos principais patronos no céu.

A cédula de toda Profissão deve ser assinada pelo professo e pelo Prior que recebeu os votos, e levar consignada a data; se a conserva no arquivo da Casa.

Feita a Profissão, o que foi recebido de tal maneira se considere alheio a tudo o do mundo, que não tenha potestade sobre coisa alguma, nem sequer sobre si mesmo, sem licença de seu Prior. Dado que todos os que determinaram viver regularmente têm de praticar com grande zelo a obediência, nós o faremos com tanta maior entrega e fervor, quanto mais estrita e austera é a vocação que abraçamos; pois se, o que Deus não permita, esta obediência faltar, tantos trabalhos careceriam de prémio De aqui que Samuel diga: Melhor é obedecer do que sacrificar, e melhor a docilidade do que a gordura dos carneiros.

A exemplo de Jesus Cristo, que veio cumprir a vontade de seu Pai e, tomando a forma de servo, aprendeu por seus padecimentos a obediência, o monge se submete pela Profissão ao Prior, que faz as vezes de Deus, e se esforça por chegar à medida da plenitude de Cristo. "

11 outubro 2010

9 -O Mestre de noviços

"A formação dos noviços se tem de encomendar a um Mestre que se distinga por sua prudência, caridade e observância regular, que esteja dotado da devida maturidade e experiência das coisas da Ordem que senta um gosto especial à quietude e à cela que irradie amor por nossa vocação, que entenda a diversidade de espíritos e tenha uma mentalidade aberta às necessidades dos jovens. Ao ocupar-se com todo coração da perfeição espiritual de seus alunos, saiba também escusar os defeitos alheios.

O Mestre mostre-se solícito e vigilante com respeito à recepção dos noviços, antepondo o mérito ao número. Para que um seja cartuxo não de puro nome, senão real e verdadeiramente, não basta querer; requer-se ademais, junto com o amor à solidão e a nossa vida, certa aptidão especial de alma e corpo, por onde se conheça a vocação divina. Tudo isto o tenha em conta o Mestre, a quem principalmente pertence o examinar e provar aos calouros. Não esqueça que certos defeitos, que num princípio pareciam quiçá de pouca monta, frequentemente costumam crescer e arraigasse mais depois da Profissão. É assunto grave o recusar ou despedir a alguém, e só se tem de decidir depois de madura deliberação. No entanto, receber a algum ou retê-lo longo tempo, quando consta que lhe faltam as dotes necessárias, é uma falsa e quase cruel compaixão. Esteja muito em guarda o Mestre para que o novicio se decida em sua vocação com plena liberdade, e não o compila em modo algum para que faça a Profissão.

O Mestre visitará ao novicio em momentos oportunos e ensinar-lhe-á as observâncias da Ordem que um novicio não deve ignorar.

Cuidará, ademais, especialmente de que o novicio estude com interesse os Estatutos da Ordem. Ao Mestre toca também formar os hábitos do novicio, dirigi-lo em seus exercícios espirituais e pôr remédios oportunos a suas tentações. Esteja atencioso a que, de dia em dia, aumente o amor dos alunos para Cristo e a Igreja. Ainda que, a exemplo de nosso Pai São Bruno, deve ter entranhas de mãe, é preciso também que mostre uma energia de pai, para que a formação do calouro seja monástica e varonil. Deixe, sobretudo, que os noviços experimentem a vida solitária na cela e sua austeridade, e ensine-os a prestar-se mutuamente auxílio espiritual com caridade sincera e singela.

É muito proveitoso, certamente, que o novicio se dedique ao estudo e ao trabalho manual; mas não basta que o solitário esteja ocupado em sua cela e persevere laudavelmente assim até a morte; precisa, ademais, outra coisa: o espírito de oração e prece. Faltando o viver com Cristo e a íntima união do alma com Deus, de pouco servirá a fidelidade nas cerimônias e a mesma observância regular, e nossa vida se poderia justamente comparar a um corpo sem alma.

Portanto, nada tenha mais no coração o Mestre do que inculcar este espírito e acrescentá-lo com discrição, para que os noviços depois de sua Profissão se acerquem cada dia mais a Deus e consigam o fim de sua vocação.

Cuide muito o Mestre de ir sempre às fontes de toda vida cristã, aos documentos da tradição monástica e à primitiva inspiração de nossa Ordem. Exponha compridamente o espírito de nosso Pai São Bruno e vele pelas sãs tradições, recopiladas principalmente por Guigo e guardadas fielmente desde o nascimento da Ordem.

A partir do segundo ano, os noviços começarão seus estudos, que serão prudentemente orientados para uma formação ao mesmo tempo monástica e sacerdotal, segundo as normas da Ratio Studiorum. Os monges não sejam promovidos ao sacerdócio até que estejam dotados de suficiente maturidade humana e espiritual, a fim de que possam participar mais plenamente deste dom de Deus."

10 outubro 2010

8 -O novicio

"Quem, ardendo em amor divino, desejam abandonar o mundo e captar as coisas eternas, quando chegam a nós recebamo-los com o mesmo espírito. É, pois, muito conveniente que os noviços encontrem nas Casas onde têm de ser formados, um verdadeiro exemplo de observância regular e de piedade, de guarda da cela e do silêncio, e também de caridade fraterna. Se chegasse a faltar isto, mal se poderá esperar que perseverem em nosso modo de vida.

Aos que se apresentem como candidatos, se os tem de examinar atenciosa e prudentemente, segundo o aviso do Apóstolo São João: Examinai se os espíritos vêm de Deus. Porque é realmente verdadeiro que da boa ou má admissão e formação dos noviços depende principalmente a prosperidade ou a decadência da Ordem, tanto na qualidade como no número das pessoas.

Por isso, os Priores devem informar-se com prudência sobre sua família, sua vida passada e suas qualidades de alma e corpo; pela mesma razão, convirá conferir a médicos prudentes que conheçam bem nosso gênero de vida. Efetivamente, entre as dotes pelas que os candidatos à vida solitária devem ser estimados, tem de contar-se, sobretudo, um juízo equilibrado e são.

Não acostumamos receber noviços antes que tenham começado os vinte anos; inclusive entre os que peça ser recebidos, recebam-se tão só aqueles que, a juízo do Prior e da maioria da Comunidade, tenham suficiente doutrina, piedade, maturidade e forças corporais para levar os ônus da Ordem; e que sejam o bastante aptos, sem dúvida para a solidão, mas também para a vida comum.

Mas convém que sejamos mais circunspetos na recepção das pessoas de idade madura, já que se adaptam mais dificilmente às observâncias e nossa forma de vida; por isso não queremos que alguém seja recebido depois dos quarenta e cinco anos, sem licença expressa do Capítulo Geral ou do Reverendo Pai. Tal licença se requer também para admitir ao noviciado a um religioso paquerado o vínculo da Profissão em outro Instituto, e se se trata de um professo de votos perpétuos, o Reverendo Pai precisa o consentimento do Conselho Geral. Para admitir a alguém unido anteriormente com votos a um Instituto religioso, se nos aconselha ouvir antes ao Reverendo Pai.

Quando se nos apresenta algum com desejos de ser monge do claustro, primeiro se lhe pergunta em particular que motivo e daí intenção o movem a isso. E se realmente se vê que só procura a Deus, se o examina sobre alguns pontos que então é preciso conhecer : se tem a devida formação cultural para um monge que tem de ser promovido ao sacerdócio, se pode cantar e se tem algum impedimento canônico. No entanto, o postulante não poderá iniciar o noviciado até que tenha os suficientes conhecimentos de língua latina.

Cumprido isto, expõe-se ao candidato o fim de nossa vida, a glória que esperamos dar a Deus por nossa união com sua obra redentora, e que bom e gozoso é deixá-lo tudo para aderir-se a Cristo. Também se lhe propõe o duro e áspero, fazendo-lhe ver, quanto seja possível, todo o modo de vida que deseja abraçar. Se ante isto segue decidido, oferecendo-se com sumo gosto a seguir um caminho duro, fiado nas palavras do Senhor, e desejando morrer com Cristo para viver com Ele, por fim se lhe aconselha que, conforme ao Evangelho, se reconcilie com aqueles que tiverem alguma coisa contra ele.

Depois de uma provação de três meses, ao menos, e não mais de um ano, o postulante, numa data determinada, apresenta-se à Comunidade, que dará outro dia seu voto a respeito da admissão.

O novicio, já que vai seguir a Cristo deixando todas suas coisas, entregue ao Prior integralmente o dinheiro e o demais que talvez trouxe consigo, a fim de que não seja ele mesmo senão o Prior, ou o que o Prior disponha, quem o guarde a modo de depósito. Por nossa parte, não exigimos nem pedimos absolutamente nada aos noviços nem aos que querem entrar em nossa Ordem.

O noviciado se prolonga durante dois anos; tempo que o Prior poderá prorrogar, mas não mais de seis meses.

Não se deixe aplanar o novicio pelas tentações que costumam espreitar aos seguidores de Cristo no deserto, nem confie em suas próprias forças, senão mais bem espere no Senhor que deu a vocação e levará a termo a obra começada. "

09 outubro 2010

7 -A abstinência e o jejum

"Cristo sofreu por nós, dando-nos exemplo para que sigamos suas impressões. O que praticamos já aceitando as penalidades e angústias desta vida, já abraçando a pobreza com a liberdade de filhos de Deus e renunciando à própria vontade. Também, segundo a tradição monástica, corresponde-nos seguir a Cristo quando jejua no deserto, castigando nosso corpo e reduzindo-o a servidão, para que nossa alma brilhe com o desejo de Deus.

Os monges do claustro fazem uma abstinência semanal, geralmente a sexta-feira. Esse dia se contentam com pão e água. Em certos tempos e dias fazem jejum de Ordem, no que têm uma só comida.

A penitência corporal não devemos abraçá-la só por obedecer aos Estatutos; está destinada principalmente a aliviar-nos do peso da carne para que possamos seguir com mais presteza ao Senhor.

Mas se em algum caso, ou durante uma temporada, sentisse um que alguma de nossas observâncias supera suas forças, e que mais bem o entorpece do que o impulsiona ao seguimento de Cristo, decida, em filial acordo com o Prior, a mitigação que lhe convém, ao menos temporariamente. Mas, tendo sempre presente o telefonema de Cristo, indague o que está ainda dentro de suas possibilidades, e o que não pode dar ao Senhor pela observância comum, supra-o de outro modo, negando-se a si mesmo e levando sua cruz cada dia. Convém que os noviços se acostumem pouco a pouco às abstinências e jejuns da Ordem, a fim de que tendam ao rigor da observância com prudência e segurança, sob a direção do Mestre. Este os ensinará particularmente a vigiar-se para não faltar à sobriedade à hora da refeição, sô pretexto dos jejuns que têm de observar. Assim aprenderão a reprimir com o espírito as obras da carne, e a levar em seu corpo a mortificação de Jesus, a fim de que também a vida de Jesus se manifeste em seus corpos.

Segundo uma observância introduzida por nossos primeiros Padres e guardada sempre com um zelo especial, renunciamos em nosso propósito ao uso da carne. Observe-se dita abstinência como algo próprio da Ordem e signo do rigor eremítico no qual, com a ajuda de Deus, queremos perseverar.

Nenhum de nós se dê a exercícios de penitência fora dos indicados nestes Estatutos, a não ser com o conhecimento e aprovação do Prior. Mas se o Prior quisesse dar a algum de nós uma mitigação na comida, o sonho ou em alguma outra coisa, ou impor-lhe algo duro e grave, não podemos opor-nos, não seja que ao resisti-lo, resistamos não a ele, senão ao Senhor, cujas vezes faz para com nós. Pois ainda que sejam muitas e diversas as coisas que observamos, não esperamos que nenhuma delas nos aproveite sem o bem da obediência. "

08 outubro 2010

6 -A guarda da clausura

"Desde os princípios de nossa Ordem se pensou que, mediante o estrito rigor da clausura, se expressaria e afirmaria nossa total consagração a Deus. Que grande necessidade devesse mediar para sair fora, aparece suficientemente claro pelo fato de que o Prior de Cartuxa não sai nunca dos termos de seu ermo. Agora bem, como numa mesma Ordem suas observâncias devem guardar-se de um modo uniforme e similar por seus professos, nós, que abraçamos o propósito cartusiano, de onde nos vem o nome de Cartuxos, não admitimos facilmente exceções; mas se alguma necessidade o exigisse, sempre se tem de pedir permissão ao Reverendo Pai, salvo em algum caso urgente e nos demais previstos pelos Estatutos.

O rigor da clausura se converteria numa observância farisaica, se não fora um signo daquela pureza de coração à que unicamente se promete a visão de Deus. Para consegui-la, requer-se uma grande abnegação, sobretudo da natural curiosidade que o homem sente por tudo o humano. Não devemos deixar que nosso espírito se derrame pelo mundo, andando à busca de notícias e rumores. Pelo contrário, nossa parte é permanecer ocultos no segredo do rosto de Deus.

Temos de evitar os livros profanos ou revistas que possam turvar nosso silêncio interior. Particularmente seria contrário ao espírito da Ordem introduzir de qualquer modo no claustro jornais que tratem de política. Ainda mais, os Priores exortem a seus monges que sejam muito parcos nas leituras profanas. Mas esta advertência requer uma maturidade de espírito e um domínio de si mesmo que saiba aceitar sinceramente todas as conseqüências dessa melhor parte do que elegeu, a saber: sentar-se aos pés do Senhor e escutar sua palavra.

Não obstante, a familiaridade com Deus não estreita o coração senão que o dilata e o capacita para abarcar nele os afãs e problemas do mundo, junto com os grandes interesses da Igreja de tudo o qual convém que o monge tenha algum conhecimento. No entanto, a verdadeira solicitação pelos homens deve nascer, não da curiosidade senão da íntima comunhão com Cristo. Cada qual, escutando interiormente ao Espírito, veja que é o que pode admitir em sua mente sem que sofra menoscabo seu diálogo com Deus.

Se chegasse até nós alguma notícia do que ocorre pelo mundo, guardemo-nos de comunicá-la aos demais; deixemos mais bem os rumores do século ali onde os ouvimos. Toca ao Prior informar a seus monges sobre os temas que não convém ignorar, em especial sobre a vida da Igreja e suas necessidades.

Sem verdadeira necessidade, não procuremos ocasião de falar com as pessoas da Ordem e com os demais que as vezes chegam a nossa Casa. Porque não aproveita ao amigo da solidão, firme no silêncio e ansioso da quietude, fazer ou receber visitas sem motivo.

Como está escrito: Honra teu pai e tua mãe, mitigamos um pouco o rigor da clausura para receber a nossos pais e a outros parentes próximos, dois dias ao ano, seguidos ou separados. Pelo demais, a não ser que, por amor do Senhor, nos o imponha uma inevitável necessidade, evitamos a visita dos amigos e as palestras dos seculares. Sabemos que Deus é digno de que se lhe ofereça este sacrifício, que será para os homens mais proveitoso do que as nossas palavras.

Nas Casas da Ordem canonicamente constituídas se guarda estrita clausura segundo a tradição da Ordem. Não se pode admitir dentro da clausura a mulheres. Quando falamos com elas, observamos a modéstia própria de um monge.

Recordem os monges que a castidade pelo Reino dos Céus que professam, tem de estimar-se como dom exímio da graça, pois libera de modo singular seu coração para que mais facilmente possam unir-se a Deus com amor indiviso. Deste modo, evocam aquele maravilhoso conúbio, fundado por Deus e que tem de revelar-se plenamente no século futuro, pelo que a Igreja tem por Esposo único a Cristo. É, pois, mister que, empenhados em guardar fielmente sua vocação, acreditem em as palavras do Senhor e, confiados no auxílio de Deus, não presumam de suas próprias forças e pratiquem a mortificação e a guarda dos sentidos. Confiem também em Maria, quem por sua humildade e virgindade mereceu ser a Mãe de Deus.

Quanto proveito e alegria divina proporcionam a solidão e o silêncio do deserto a quem os ama, só o sabe quem o experimentou.

Aqui podem os homens esforçados recolher-se em seu interior quanto queiram, morar consigo, cultivar sem cessar os germes das virtudes e alimentar-se felizmente dos frutos do paraíso.

Aqui se adquire aquele olho limpo, cuja serena mirada fere de amores ao Esposo e cuja limpeza e pureza permite ver a Deus.

Aqui se vive um lazer ativo, repousa-se numa sossegada atividade.

Aqui concede Deus a seus atletas, pelo esforço do combate, a ansiada recompensa : a paz que o mundo ignora e o gozo no Espírito Santo. "

07 outubro 2010

5 -O trabalho na cela

"O monge do claustro, sujeito à lei divina do trabalho em sua própria vocação, foge da ociosidade que, segundo os antigos, é inimiga do alma. Por isso, abraça com humildade e prontidão todos os trabalhos que necessariamente traz consigo uma vida pobre e solitária, a condição, no entanto, de que tudo se ordene ao exercício da divina contemplação, à que está totalmente entregado. Além dos diversos trabalhos manuais, faz parte de sua tarefa diária o cumprimento das obrigações de seu estado, principalmente as que se referem ao culto divino e ao estudo das ciências sagradas.

Em primeiro lugar, para não perder inutilmente na cela o tempo da vida religiosa, o monge do claustro deve dedicar-se com interesse e discrição a estudos apropriados, não pela vaidade de saber ou de editar livros, senão porque uma leitura sabiamente ordenada facilita à alma uma instrução mais sólida e põe a base para a contemplação das coisas celestiais. Erram, pois, os que julgam que, descuidando ao princípio o estudo da palavra de Deus ou abandonando-o depois, podem elevar-se facilmente à união íntima com Deus. Assim, fixando-nos mais na substância do conteúdo que no brilho aparente da expressão estudemos os mistérios divinos com esse desejo de conhecer que nasce do amor e o inflama.

Com o trabalho de mãos, o monge se exercita na humildade e reduz todo seu corpo a servidão, para que sua alma adquira uma maior estabilidade. De onde, nos tempos estabelecidos, é lícito dedicar-se a trabalhos manuais verdadeiramente úteis, porque não está bem desperdiçar em bagatelas e trabalhos inúteis um tempo precioso concedido a cada um para glorificar a Deus. No entanto, não fica excluída deste tempo à utilidade da leitura e a oração; mais ainda, sempre é aconselhável, enquanto se trabalha, recorrer pelo menos às breves orações chamadas jaculatórias. Também pode às vezes suceder que o peso do trabalho sirva de âncora que sujeite o vaivém dos pensamentos ajudando com isso ao coração a permanecer fixo em Deus constantemente, sem fadiga mental.

O trabalho é um serviço mediante o qual nos unimos com Cristo, que não veio ser servido senão a servir. São de louvar certamente os que se as arrumam por si sós para cuidar do mobiliário, das ferramentas e das demais coisas usadas na cela, aliviando no possível o trabalho dos irmãos. Pelo demais todos têm de ter a cela ordenada e limpa.

Sempre pode o Prior impor a um pai algum trabalho ou serviço para bem da Comunidade, e ele o aceita com agrado e com alegria de coração, pois no dia de sua Profissão pediu ser recebido como o mais humilde servidor de todos. Quando se encomenda um trabalho a um monge do claustro, seja sempre de tal natureza que lhe permita conservar sua liberdade interior enquanto trabalha, sem preocupar-se do ganho ou de quando tem de terminar. Porque convém que o solitário, atendendo não tanto à obra como ao fim tentado, possa manter seu coração sempre em vela Mas para que o monge permaneça calmo e são na solidão muitas vezes será conveniente que goze de certa liberdade na ordenação de seu trabalho.

Normalmente não se tem de chamar aos padres a trabalhar fora de suas celas, sobretudo nas obediências dos irmãos. E em caso que se destinem alguns padres a fazer um trabalho em comum, eles poderão falar entre si do que requeira tal trabalho, mas não com os que chegam.

Toda nossa atividade nasça sempre da fonte interior, a exemplo de Cristo, que sempre atua com o Pai, de maneira que o mesmo Pai faça as obras permanecendo nele. Assim seguiremos a Cristo em sua vida humilde e oculta de Nazaré, tanto quando oramos a Deus no secreto, como quando trabalhamos por obediência em sua presença. "

06 outubro 2010

4 -A guarda da cela e do silêncio

"A nossa principal aplicação e propósito consistem em nos dedicar ao silêncio e à solidão da cela. Esta é a terra santa e o lugar onde o Senhor e o seu servo conversam frequentemente como dois amigos. É nela que muitas vezes a alma fiel se une ao Verbo de Deus, a esposa convive com o Esposo, as coisas da terra se ligam às do Céu, as humanas às divinas. Mas é muito o trajeto a percorrer, por caminhos áridos e secos, antes de chegar à fonte das águas e à terra de promissão.

Por isso convém que o que vive retirado em sua cela vele diligente e solícito para não se tentar nem aceitar nenhuma saída dela, fora das geralmente estabelecidas; mais bem considere a cela tão necessária para sua saúde e vida, como o água para os peixes e o aprisco para as ovelhas. Se se acostuma a sair dela com frequência e por leves causas, cedo se lhe fará odiosa; pois, como diz São Agostinho: Para os amigos deste mundo não há nada mais trabalhoso que não trabalhar. Pelo contrário, quanto mais tempo guarde a cela, tanto mais a gosto viverá nela, se sabe ocupar-se de uma maneira ordenada e proveitosa na leitura, escritura, salmodia, oração, meditação, contemplação e trabalho. Enquanto, vá acostumando-se à calma escuta do coração, que deixe entrar a Deus por todas suas portas e sendas. Assim, com a ajuda divina, evitará os perigos que frequentemente espreitam ao solitário : seguir na cela o caminho mais fácil e merecer ser contado entre os mornos.

Os frutos do silêncio os conhece quem o experimentou. Ainda que ao princípio nos resulte no duro calar, gradualmente, se somos fiéis, nosso mesmo silêncio irá criando em nós uma atração para um silêncio cada vez maior. Para consegui-lo, está estabelecido que não falemos uns com outros sem permissão do Presidente.

O primeiro ato de caridade para com nossos irmãos é respeitar sua solidão. Se se nos permite falar de algum assunto, seja nossa conversa tão breve quanto seja possível.

Os que não são de nossa Ordem nem aspiram a entrar nela, não se hospedem em nossas celas.

Os monges do claustro dedicam todos os anos oito dias a uma guarda maior da quietude da cela e do recolhimento. O que se acostumou fazer normalmente por motivo do aniversário da Profissão.

Deus nos trouxe à solidão para falar-nos ao coração. Seja, pois, nosso coração como um altar vivo, do que suba continuamente ante o Senhor uma oração pura, pela qual devem ser impregnados todos nossos atos. "

05 outubro 2010

3 -Os monges do claustro

"Os que foram Padres de nossa Religião seguiam a luz do oriente, a daqueles antigos monges que, quente ainda em seus corações a recordação do Sangue recém derramado pelo Senhor, encheram os desertos para dedicar-se à solidão e a pobreza de espírito. Portanto, os monges do claustro, que seguem este mesmo caminho, convém que vivam como eles em ermos suficientemente afastados de toda moradia humana, e em celas livres de todo ruído, tanto do mundo como da mesma Casa ; sobretudo, que permaneçam alheios aos rumores do século.

Quem persevera firme na cela e por ela é formado, tende a que todo o conjunto de sua vida se unifique e converta numa constante oração. Mas não poderá entrar neste repouso sem ter-se exercitado no esforço de duro combate, já pelas austeridades nas que se mantém por familiaridade com a cruz, já pelas visitas do Senhor mediante as quais o prova como ouro no crisol. Assim, purificado pela paciência, consolado e robustecido pela assídua meditação das Escrituras, e introduzido no profundo de seu coração pela graça do Espírito, poderá já não só servir a Deus, senão também unir-se a Ele.

Convém também ocupar-se em algum trabalho manual, não tanto por simples distração do ânimo, quanto para submeter o corpo à lei comum dos homens e conservar e fomentar o gosto pelos exercícios espirituais. Por isso se lhe concedem ao monge em sua cela os utensílios necessários, a fim de evitar que se veja forçado a sair dela; porque isto não lhe está nunca permitido, a não ser para as reuniões na igreja ou no claustro, e em outras ocasiões previstas pela regra. Agora bem, quanto mais austera é a senda que abraçamos, tanto mais estritamente nos obriga a pobreza em todas as coisas de nosso uso. Porque é necessário que sigamos o exemplo de Cristo pobre, se queremos participar de suas riquezas.

Unidos em comunidade pelo amor ao Senhor, a oração e o zelo pela solidão mostrem-se os monges do claustro como verdadeiros discípulos de Cristo, não tanto de palavra quanto de obra; amem-se mutuamente, tendo os mesmos sentimentos, suportando-se e perdoando-se se algum tem queixa contra outro, a fim de que com uma mesma voz honrem a Deus.

Mantenham também os padres em seu espírito o íntimo vínculo pelo qual estão unidos em Cristo com os irmãos. Reconheçam que dependem deles para poder oferecer ao Senhor uma oração pura na quietude e a solidão da cela. Recordem que o sacerdócio ao que foram elevados representa um serviço à Igreja principalmente nos membros mais próximos, isto é, os irmãos da própria Casa. Tendo-se mútua deferência, padres e irmãos vivam na caridade que é vínculo de perfeição e fundamento e cume de toda vida consagrada a Deus.

É próprio do Prior mostrar em si mesmo a todos seus filhos, monges do claustro e leigos, um signo vivo do amor do Pai celestial, e reuni-los em Cristo de tal maneira que formem uma família, e cada uma de nossas Casas seja realmente, segundo a expressão de Guigo, uma igreja cartusiana.

A qual tem sua raiz e fundamento na celebração do SacrifícioEucarístico, que é signo eficaz de unidade. É também o centro ecume de nossa vida, e ademais viático espiritual de nosso Êxodo, por onde na solidão retornamos por Cristo ao Pai. Assim mesmo, em todo o curso da Liturgia, Cristo como nosso Sacerdote ora por nós, e como Cabeça nossa ora em nós de maneira que nele possamos reconhecer nossas vozes, e em nós a sua.

Na vigília noturna, nosso Ofício se prolonga bastante, segundo antigo costume, ainda que guardando sempre uma discreta moderação. Assim se alimenta a devoção interna com a salmodia e se pode dar o tempo restante à oração calada do coração sem fastio nem cansaço.

Segundo antigo costume nossa, todo monge do claustro está destinado, por uma admirável graça da piedade divina, ao sagrado ministério do altar. De onde se manifesta nele essa harmonia que, como diz Pablo VI, existe entre a consagração monástica e a sacerdotal. A exemplo, pois, de Cristo, faz-se juntamente sacerdote e vítima, em cheiro de suavidade para Deus, e pela união no sacrifício do Senhor participa das riquezas insondáveis de seu coração.

Como nosso Instituto está ordenado inteiramente à contemplação, temos de guardar com toda fidelidade nossa separação do mundo. Estamos, por tanto, isentos de todo ministério pastoral, por muito que urja a necessidade do apostolado ativo, a fim de cumprir nossa própria missão dentro do Corpo Místico.

Mantenha Marta seu ministério, laudável certamente, ainda que não isento de inquietude e turvação; mas permita a sua irmã que, sentada junto aos pés do Senhor, dedique-se a contemplar que Ele é Deus, a purificar seu espírito, a adentrar-se na oração do coração, a escutar o que o Senhor lhe diga em seu interior; e assim possa agradar e ver um pouquinho, como num espelho e confusamente, como o Senhor é bom, enquanto roga por sua irmã e por todos os que se afanam como ela. Maria tem a seu favor não só ao mais imparcial dos juízes, senão também ao mais fiel dos advogados, ao mesmo Senhor, que não se limita a defender sua vocação, senão que faz seu elogio, dizendo: Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada. Desta maneira a escusou de misturar-se nos cuidados e desassossegos de Marta, por piedosos que fossem. "

04 outubro 2010

2 - Elogio de Guigo à vida solitária

"Os monges que louvaram a solidão quiseram dar depoimento do mistério cujas riquezas experimentavam, e que só os bem-aventurados conhecem plenamente. Ali se leva a cabo um grande mistério, isto é, de Cristo e da Igreja, cujo eminente exemplar o encontramos em Maria Santíssima; o qual está também inteiramente oculto em toda alma fiel, e a solidão tem a virtude de revelá-lo mais profundamente.

No presente capítulo, pois, tomado dos Costumes de Guigo, temos de ver alguns reflexos da alma daquele que teve por missão do Espírito codificar as primeiras leis de nossa Ordem. Porque estas frases do quinto Prior, segundo o antigo sentido alegórico da Sagrada Escritura retamente entendidas, tocam uma verdade sublime que nos une aos nossos Padres na fruição da mesma graça.

Na recomendação da vida solitária, à que estamos chamados por vocação especial, seremos breves, por conhecer os muitos louvores que lhe tributaram tantos varões santos e sábios, e de tanta autoridade que não nos consideramos dignos de pisar suas impressões.

Já sabeis como no Antigo e, sobretudo, no Novo Testamento, quase todos os mais profundos e sublimes mistérios foram revelados aos servos de Deus não entre o tumulto das multidões, senão estando a sós, e como os mesmos servos de Deus, quando queriam sumir-se numa meditação mais profunda, ou dedicar-se à oração com mais liberdade, ou alienar-se das coisas terrenas pela elevação do alma, quase sempre se apartavam do ruído das multidões e procuravam as vantagens da solidão.

De aqui que para tocar de algum modo o tema, Isaac sai a sós ao campo a meditar, e é de crer que isto não foi nele algo isolado, senão de costume; que Jacob, enviando todas suas coisas por diante, fica a sós, vê a Deus cara a cara, e à vez pela bênção e a mutação do nome em melhor se torna ditoso; atingindo mais num momento só do que durante toda a vida acompanhado.

Também nos atesta a Escritura quanto amavam a solidão Moisés, Elias, e Eliseu, quanto cresceram por ela na comunicação dos segredos divinos; e até que ponto incessantemente corriam perigo entre os homens, e eram visitados por Deus quando estavam sós.

Jeremias se senta solitário, porque se acha penetrado da cólera de Deus Pedindo que se dê água a sua cabeça e a seus olhos uma fonte de lágrimas para chorar aos mortos de seu povo, solicita também um lugar onde poder exercitar-se mais livremente em obra tão santa, dizendo: Quem me dará na solidão um albergue de caminhantes? como se não lhe fosse possível fazê-lo na cidade, indicando deste modo quanto impede a companhia o dom de lágrimas. Assim mesmo, quando diz: Bom é esperar em silêncio a salvação de Deus, para o qual ajuda muito a solidão, adicionando depois: Bom é para o homem o ter levado o jugo desde sua mocidade, com o qual nos dá um motivo de grande consolo, pois quase todos abraçamos este género de vida desde a juventude. E diz também: Se sentará solitário e calará, porque se elevará sobre si mesmo; significando quase tudo o melhor do que há em nosso Instituto: quietude e solidão, silêncio e desejo dos dons mais elevados.

Depois dá a conhecer que alunos forma esta escola, dizendo: Dará sua bochecha a quem o ferir e se saciará de opróbrios. No primeiro brilha uma paciência suma, e no segundo uma perfeita humildade.

Também João Batista, o maior dos nascidos de mulher segundo o panegírico do Salvador, pôs em evidência quanta segurança e utilidade contribui a solidão. O qual, não se sentindo seguro nem pelos oráculos divinos que tinham predito que, cheio do Espírito Santo desde o seio de sua mãe, teria de ser o precursor do Senhor no espírito e a virtude de Elias, nem pelas maravilhas de seu nascimento, nem pela santidade de seus pais, fugindo da companhia dos homens como perigosa, elegeu os apartados desertos como mais seguros, ignorando quaisquer perigos e a morte, por tanto tempo quanto habitou só no deserto. Quanta virtude adquiriu ali e quanto mérito, demonstrou-o o batismo de Cristo e a morte sofrida por defender a justiça. Fez-se tal na solidão, que só ele foi digno de batizar a Cristo que tudo o purifica, e de enfrentar o cárcere e a morte em defesa da verdade. O mesmo Jesus, Deus e Senhor, ainda que sua virtude não podia verse favorecida pelo retiro nem impedida pelo público, no entanto, para instruir-nos com seu exemplo, antes de começar seu pregação e seus milagres quis submeter-se a uma espécie de prova de tentações e jejuns na solidão. Dele diz a Escritura que, deixando a companhia de seus discípulos, subia ao morro a orar a sós. E iminente já o tempo da Paixão, deixou aos Apóstolos para orar solitário, dando-nos com isto o melhor exemplo de quanto aproveita a solidão para a oração, quando não quer orar acompanhado nem de seus mesmos Apóstolos.

Aqui não passemos em silêncio um mistério que merece todo nosso atendimento : que o mesmo Senhor e Salvador do gênero humano se dignou mostrar-nos por si mesmo o primeiro modelo vivo de nosso Instituto, ao permanecer assim solitário no deserto, se entregava à oração e aos exercícios da vida interior, macerando seu corpo com jejuns, vigílias e outros frutos de penitência vencendo as tentações do inimigo com armas espirituais.

Agora considerai vocês mesmos quanto aproveitaram em seu espírito na solidão os santos e veneráveis padres, Pablo, Antonio, Hilarião, Benito, e tantos outros inumeráveis, e comprovareis que a suavidade da salmodia, o amor pela leitura, o fervor da oração, a profundidade da meditação, a elevação da contemplação e o batismo das lágrimas com nada se podem favorecer tanto como com a solidão.

Mas não vos contenteis com os poucos exemplos aqui citados em elogio de nosso modo de vida, senão vocês mesmos ide recolhendo outros muitos, tomados de vossa experiência cotidiana ou das páginas da Sagrada Escritura. "

03 outubro 2010

1 - Prólogo dos Estatutos

"A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vocês. Amém.

Para louvor da glória de Deus, Cristo, P do Pai por mediação do Espírito Santo, elegeu desde o princípio a alguns homens, a quem levou à solidão para uni-los a si em íntimo amor. Seguindo esta vocação o Mestre Bruno entrou com seis colegas no deserto de Cartuxa, o ano do Senhor de 1084, e se instalou ali. Tanto eles como seus sucessores, permaneceram naquele lugar sob a direção do Espírito Santo, e, guiando-se pela experiência, foram criando gradualmente um gênero de vida eremítica próprio, que se transmitia a seus sucessores, não por escrito, senão com o exemplo.

Mas a instâncias de outros eremitérios fundados a imitação do de Cartuxa Guigo, quinto Prior de Cartuxa, pôs por escrito a norma de seu propósito, que todos se comprometeram a seguir e imitar, como regra de sua observância e como vínculo de caridade da nascente família. Mas como os Priores da observância cartusiana pedissem insistentemente aos Priores e aos irmãos de Cartuxa que se lhes permitisse ter na mesma Casa um Capítulo Geral comum, reuniu-se o primeiro Capítulo Geral durante o priorado de Antelmo, ao qual se submeteram para sempre todas as Casas, junto com a mesma Casa de Cartuxa. Por aquele então, as monjas de Prebayón abraçaram também espontaneamente o modo de vida cartusiana. Este foi o começo de nossa Ordem. A partir de aqui, no decurso do tempo, a tenor da experiência e das novas circunstâncias, o Capítulo Geral ia adaptando a forma de vida cartusiana, e estabilizando e explicando nossa instituição. Esta contínua e esmerada acomodação de nossos costumes acrescentou progressivamente o conjunto de nossas Ordenações. Por isso, o ano do Senhor 1271, o Capítulo Geral reunindo num o principal sacado dos Costumes de Guigo, das ordenações dos Capítulos Gerais e dos usos da Grande Cartuxa tomados em conjunto, promulgou os Antigos Estatutos. A estes se adicionaram o ano 1368 outros documentos, que se denominaram Novos Estatutos; adicionados também documentos no ano 1509, chamaram-se Terceira Compilação.

Existindo, pois, três coleções, por motivo do Concílio Tridentino foram redigidas num só corpo, o que chamamos a Nova Coleção dos Estatutos. Sua terceira edição foi aprovada em forma específica pela Constituição Apostólica Iniunctum Nobis do Papa Inocêncio XI. Uma nova edição, outra vez examinada e acomodada às prescrições do Código de Direito Canônico então em vigor, foi aprovada também em forma específica pelo Papa Pio XI na Constituição Apostólica Umbratilem.

Por mandato do Concílio Ecumênico Vaticano II, empreendeu-se uma adequada renovação de nosso gênero de vida, segundo a mente dos decretos do mesmo Concílio, guardando como algo muito sagrado nosso retiro do mundo e os exercícios próprios da vida contemplativa. Por isso, o Capítulo Geral do ano 1971 aprovou os Estatutos Renovados, uma vez examinados e corrigidos com a cooperação de todos os membros da Ordem.

No entanto, para concordá-los com o Código de Direito Canônico, promulgado no ano 1983, os susoditos Estatutos, novamente revisados, dividiram-se em duas partes, das quais, a primeira que compreende os livros primeiro, segundo, terceiro e quarto, contém as Constituições da Ordem. Nós, pois, os humildes irmãos, Andrés, Prior de Cartuxa, e todos os demais com potestade no Capítulo Geral do ano 1989, aprovamos e confirmamos estes Estatutos.

Mas não por isso queremos relegar ao esquecimento os Estatutos anteriores, sobretudo os mais antigos, senão que se mantenha vivo seu espírito na presente observância, ainda que já não conservem força de lei.

Finalmente, exortamos a todos os professos e aspirantes de nossa Religião, e lhes rogamos encarecidamente pela misericórdia e bondade de Deus (quem com tanta clemência se dignou ajudar, dirigir e proteger a nossa família cartusiana, desde seus começos até o dia de hoje, provendo-nos em abundância de quanto conduz a nossa salvação e perfeição), que cada um em nossa vocação e ofício, esforcemo-nos por corresponder com a maior gratidão possível a tão paternal liberalidade e benevolência de Deus nosso Senhor. O que cumpriremos, se de tal modo nos dedicamos fiel e solicitamente à observância regular contida nos presentes Estatutos, que, reta e devidamente instruído e aperfeiçoado por estas disposições nosso homem exterior, no homem interior procuremos ao mesmo Deus com maior fervor, achemo-lo com mais prontidão e o possuamos mais perfeitamente. E assim, com a ajuda do Senhor, possamos chegar à perfeição da caridade, fim de nossa profissão e de toda vida monástica, e atingir depois a bem-aventurança eterna. "

Estatutos da Ordem Cartusiana

Hoje inicio aqui a transcrição dos Estatutos (tradução Brasileira) desta Ordem monástica, Ordem sobre a qual poucos de nós sabemos, aliás, salvo melhor opinião de quem de direito, apenas com o filme "O Grande Silêncio" é que se viu o lado de dentro o trabalho que estes nossos irmãos realizam em prol de todos nós. A Oração é um grande mistério para nós leigos mas, para eles (e demais consagrados que vivem em clausura) é algo que transcende o nosso conhecimento. Sim é verdade que sinto uma grande empatia por eles, este monges brancos de poucas palavras...


28 setembro 2010

Um pensamento que me ocorreu

A maioria de nós apelida-se de Cristãos e está correcto, mas quantos de nós, no meio de resmas de livros lidos sobre o Cristianismo e as Sagradas Escrituras, já leu a nascente dessa água viva que dá pelo nome de Bíblia Sagrada?