25 outubro 2010

28 -A pobreza

"O monge elegeu seguir a Cristo pobre, para enriquecer-se com sua pobreza. Não se apoiando no terreno senão em Deus, tem seu tesouro no céu, onde tende seu coração. Portanto, sem considerar nada como próprio, está preparado a pôr gostosa e livremente em mãos de sua Prior todas as coisas que se lhe concederam, quantas vezes este quiser.

Os professos solenes nada têm em particular, fora das coisas que a Ordem lhes concede para o simples uso. Também renunciaram à faculdade de pedir, receber, dar ou alienar alguma coisa sem permissão. Ainda entre nós, também não podemos mudar ou receber algo sem licença.

Os professos de votos temporários e os doados, ainda que conservam a propriedade de seus bens e a capacidade de adquirir outros, não têm nada consigo, como também não os noviços. O Mestre ensine individualmente a seus alunos o desprendimento dos bens temporários e das comodidades, e o amor à pobreza.

Segundo Guigo, se a um monge algum amigo ou parente lhe envia roupa ou algo pelo estilo, não se lhe dá a ele, senão mais bem a outro, para que não pareça que o tem como próprio. Assim, pois, nenhuma pessoa da Ordem se atreva a reclamar o usufruto ou qualquer outro título de propriedade sobre os livros ou outra coisa adquirida pela Ordem obrigado a ele; mas se se lhe concede o uso, aceite-o com agradecimento, não como de coisa própria senão alheia. Ninguém tenha nunca dinheiro a seu arbítrio, nem o guarde em seu poder.

E porque o Filho do homem não teve onde reclinar sua cabeça, observem-se plenamente em nossas celas a singeleza e a pobreza.

Retiremos delas com perseverante empenho o supérfluo e o atraente, inclusive pedindo com agrado o parecer do Prior.

Não tenha nosso vestido nada de luxuoso ou supérfluo contrário à singeleza e pobreza religiosa. Pois em todas estas coisas, nossos Padres não se preocupavam senão de preservar-se do frio e cobrir a nudez, julgando que, certamente, aos cartuxos lhes corresponde a rusticidade em sua roupa e em todas as demais coisas que usam.

Seguindo seu espírito, tentemos, no entanto, que tanto a roupa como a cela de cada um estejam limpas e em boa ordem.

A não ser que estejamos de viagem ou enfermos, compomos a cama com monástica austeridade.

Os instrumentos de certo preço só se permitirão a quem, segundo o juízo do Prior, pareça necessário. Os instrumentos músicos não estão de acordo com nossa vocação, nem os jogos, sejam do gênero que sejam. No entanto, para aprender nosso canto podem admitir-se instrumentos que educam a voz ou a gravam.

Ficam totalmente excluídos de entre nós os instrumentos radiofônicos.

É tão grande a variedade das condições locais, que com frequência o que num lugar é necessário resulta supérfluo em outro, e assim não é possível estabelecer uma lei universal para todos.

Exortamos, pois, aos Priores que atendam benévolos a todas as necessidades reais de seus monges, quanto o permitam os recursos da Casa. Movidos pela caridade de Cristo, não permitam que se os possa repreender justamente em isto, nem que, por sua mesquinharia, vejam-se os monges induzidos ao vício de propriedade A pobreza será tanto mais grata a Deus, quanto mais voluntária, e o laudável não é carecer das comodidades do mundo, senão ter renunciado a elas. "

22 outubro 2010

27 -Os enfermos

"A doença ou a velhice nos sugerem um novo ato de fé no Pai, que por meio destas penalidades nos configura mais estritamente com Cristo. Sócios assim de modo especial à obra da Redenção, unimo-nos mais intimamente a todo o Corpo Místico.

O Prior mostre uma peculiar solicitação e misericórdia com os enfermos, os anciãos e os atribulados. E o mesmo se recomenda também a todos os encarregados do cuidado dos enfermos. Segundo as possibilidades da Casa, proporcione-se-lhes caritativamente quanto seja necessário e conveniente. Todos os serviços, ainda os mais particulares, que não possam eles fazer-se por si mesmos, se os prestarão os demais humildemente, sentindo-se feliz aquele a quem se lhe mande tal coisa. Os que sofrem alguma doença nervosa, particularmente gravosa na solidão, sejam ajudados tudo o possível, para que compreendam que podem dar glória a Deus esquecendo-se de si mesmos e entregando-se confiadamente à vontade daquele que é Pai.

No entanto, é preciso recordar aos enfermos, como diz São Bento, que cuidem de não contristar a seus enfermeiros pedindo coisas supérfluas ou impossíveis, ou quiçá murmurando. A recordação da vocação que abraçaram lhes fará ver que, como há diferença entre um monge são e um secular são, deve tê-la entre um monge enfermo e um secular enfermo. Não permita Deus que por motivo da doença se lhes estreite o espírito e resulte inútil a visita do Senhor.

A estes, pois, se os exorta a considerar os sofrimentos de Cristo, àqueles, sua misericórdia. Então, estes se sentirão animosos para suportar; aqueles, prontos para servir. Se uns e outros consideram que tudo é por Cristo, quer sendo servidos quer servindo, não existe arrogância dum lado nem negligência do outro; mas cada um espera do mesmo Senhor o prêmio do dever cumprido; uns padecendo, outros compadecendo-se.

Como pobres de Cristo, nos contentaremos com o médico ordinário da Casa ou, se o caso o pede, com algum especialista das cidades próximas. Se algum pai se vê obrigado a recorrer a dito especialista que não seja o médico ordinário, o Prior lhe pode permitir que vá a uma das cidades próximas designadas pelos Visitadores com o consentimento do Capítulo Geral ou do Reverendo Pai, com a condição que volte o mesmo dia. Igualmente, o Prior pode permitir que seja hospitalizado um monge, mas convém que seja informado o Reverendo Pai.

Nossos enfermos, dedicados à solidão, recebem os cuidados necessários na própria cela, quanto é possível. Não estamos obrigados a seguir as prescrições de alguns médicos que favorecem as saídas de Casa, ou que receitam remédios ou cuidados contrários a nossa vocação, pois só nós somos responsáveis ante Deus de nossos votos. Tem-se de evitar também abusar de medicinas com detrimento da perfeição e da mesma saúde corporal, e com encargo da Casa.

Em todas estas coisas, entreguemo-nos com docilidade de alma à vontade de Deus, e recordemos que a prova da doença nos prepara para o gozo eterno, sentindo com o salmista: Que alegria quando me disseram : vamos à casa do Senhor. "

26 -O Procurador

"O Prior põe à frente dos irmãos da Casa a um monge de entre os professos solenes como diligente Procurador; assim queremos que seja chamado. o qual, ainda que a exemplo de Marta, cujo ofício aceita, também ele necessariamente tem que se afanar e preocupar-se de muitas coisas, no entanto, não deve abandonar completamente ou tomar aversão ao silêncio e quietude da cela senão mais bem recorre sempre à cela, quanto se o permitem os negócios da Casa, como ao casaco do mais seguro e calmo porto, para acalmar -lendo, orando, meditando -os turbulentos movimentos de seu ânimo que nascem do cuidado ou administração das coisas exteriores; e para que possa guardar, no secreto de seu coração algo proveitoso que expor com unção e sabedoria aos irmãos a ele confiados.

O Procurador deve visitar em todo tempo aos monges enfermos que não assistem à igreja, mostrando-se com eles solícito e amável. Fora deste caso, não visita aos padres, nem entra em suas celas sem permissão, nem pode falar com eles fora da cela senão quando os encontre num colóquio concedido pelo Presidente; no entanto, pode mudar umas palavras à porta da cela. Mas cuide muito de não difundir notícias do mundo pela Casa, pois sua função própria é tentar que os monges possam consagrar-se à quietude contemplativa.

O Procurador deve velar solícito pelas obediências dos irmãos e pela saúde corporal destes, atendendo-os com toda caridade. O primeiro, deles exemplo, porque mais são estimulados com fatos que com palavras; gostosamente imitarão ao Procurador, se este imita a Cristo. Tente, sobretudo , não carregar aos irmãos com excessivo trabalho; e a fim de que possam gozar na cela do suficiente recolhimento, o tempo dedicado ao trabalho não passe normalmente de sete horas.

Seja cada irmão responsável de sua obediência, e, a sua vez, o Procurador apóie sua autoridade nos trabalhos que se lhe encomendem. Sobre eles deve conferir o irmão ao Procurador, e submeter-se a sua vontade; no entanto, quanto o permitam as coisas, o Procurador deixe fazer aos irmãos com a devida liberdade, para que cumpram melhor suas encomendas. E se quiser mudar algo em suas obediências, não o fará sem primeiro os consultar, ou ao menos os avisar.

O Procurador, como também os outros Oficiais da Casa, devem vigiar-se para não abusar de seu cargo e conceder-se dispensas ou coisas não necessárias, que não quereriam conceder aos demais.

O Procurador deve mostrar-se atencioso com os hóspedes, sair a recebê-los quando chegam, e visitá-los depois. Ausente o Prior, o Procurador pode deixar de ir ao refeitório para assistir aos hóspedes Mas não vírgula desordenada e indiferentemente com todos, senão somente com as pessoas às que não se lhes pode negar facilmente este atendimento; e isto, quantas menos vezes, melhor. Fora do Procurador, e do Vigário quando está ausente o Prior, nenhum monge assista à comida dos hóspedes.

O Procurador que deixa a tenta, deixa também toda preocupação e toda coisa supérflua, para seguir a Cristo nu no deserto. "

21 outubro 2010

23 –O Prior

"A eleição do Prior

Toda Casa da Ordem onde estão presentes ao menos seis professos capazes de eleger, podem eleger a seu Prior. Mas a eleição deve fazer-se dentro dos quarenta dias; decorrido esse tempo, proverá de novo Prior o Reverendo Pai ou o Capítulo Geral.

O ministério do Prior

O Prior, a exemplo de Cristo, está entre seus irmãos como quem serve; rege-os segundo o espírito do Evangelho e segundo a tradição da Ordem que ele mesmo recebeu. Se esforça por ser útil a todos com sua palavra e seu exemplo de vida. Será, em particular para os monges do claustro, dos quais procede, um modelo de quietude contemplativa, estabilidade, solidão e fidelidade às observâncias de sua vocação.

Nem seu posto nem seu vestido se diferenciam em nada dos demais por sua dignidade ou luxo, nem também não leva nenhum distintivo que o dê a conhecer como Prior.

O Prior, que é no mosteiro o pai comum de todos, deve mostrar a mesma solicitação pelos irmãos e pelos padres. Os visitará de vez em quando em suas celas e obediências. Se algum vai a sua cela, o acolherá com grande caridade, e sempre escutará com agrado a cada um. Será tal que seus monges, sobretudo nas provas possam recorrer a ele como ao regaço de um pai cheio de bondade e abrir-lhe, se o desejam, sua alma livre e espontaneamente. Não julgando com miras humanas, se esforçará com seus monges por estar à escuta do Espírito na busca comum da vontade de Deus, da que, pela missão que recebeu, é intérprete para seus irmãos.

O Prior não deve, para fazer-se querer, relaxar a disciplina regular, porque isto não é guardar as ovelhas, senão perdê-las. Pelo contrário, governe aos monges como a filhos de Deus, promovendo sua voluntária sujeição, para que na solidão se conformem mais plenamente a Cristo obediente.

Os monges, por sua vez, amem em Cristo e reverenciem a seu Prior, e tributem-lhe sempre humilde obediência. Confiem nele, que tomou o cuidado de suas almas no Senhor, abandonando toda preocupação naquele que se crê faz as vezes de Cristo. Não se tenham por sábios em sua própria estimação, fiados em seu próprio juízo, senão que, inclinando seu coração à verdade, escutem os conselhos de seu pai.

Aos mais jovens, quando começam a viver entre os professos solenes, aos conversos recém feitos seus votos solenes, e aos doados que já não estão sob a tutela do Mestre, não os deixe o Prior abandonados a si mesmos e ao arbítrio de sua própria vontade, pois a experiência ensina que estes anos são os mais perigosos para nossa vocação, e que deles depende todo o resto de nossa vida. Ajude-os como pai, e inclusive como irmão, dialogando com eles singelamente em particular. Quanto seja possível, evite o pôr aos monges nos cargos mal terminaram os estudos, sobretudo no de

Procurador.

Vele o Prior para que se tenha normalmente o Capítulo dos irmãos. Cuide, ademais, de que uma vez por semana se lhes explique a doutrina cristã ou os Estatutos. E como este é um dever seu grave, ponha sumo empenho em que os irmãos adquiram uma sólida formação e se lhes proporcionem livros adequados para isso.

Mostre um cuidado especial com os enfermos, tentados e afligidos, sabendo por experiência que dura pode resultar-nos as vezes a solidão.

Como os livros são o alimento perene de nossas almas, o Prior facilite-se gostosamente a seus monges. Convém que se nutram principalmente da Sagrada Escritura, dos Padres da Igreja e dos bons autores monásticos. Forneça-lhes também outros livros sólidos, cuidadosamente selecionados para utilidade de cada qual.

Pois na solidão nos dedicamos à leitura não para conhecer todas as novas opiniões, senão para alimentar a fé na paz e favorecer a oração. Também pode o Prior, se é preciso, proibir algum livro a seus monges.

O Prior, para tomar alguma decisão nas coisas de maior importância relacionadas com as obediências dos Oficiais, apóie-se neles depois de ter trocado opiniões e de comum acordo. Eles, por sua vez, submetam-se sempre a suas ordens com ânimo filial. Aprenda ele a conhecê-los com suas dificuldades, com ânimo paternal, ajude-os, defenda sua autoridade em presença de todos, e, se é necessário, corrigi-los com caridade. Proceda de tal modo que não só pareça interessar-se pela ordem externa, senão que, pessoalmente fiel ao Espírito, mostre a todos a caridade de Cristo Porque a paz e concórdia da Casa depende em grande parte de que os Oficiais estejam unidos com o Prior e de comum acordo.

O Prior não deve comer em sua Casa com os hóspedes desordenada e indiferentemente, senão somente com as pessoas às que não se lhes pode negar facilmente este atendimento, e ainda então, quantas menos vezes, melhor.

O Prior que por velhice ou doença não pode reger sua grei nem dar-lhe exemplo de vida regular, reconheça-o humildemente e, sem esperar ao Capítulo Geral, peça a misericórdia ao Reverendo Pai. Exortamos aos Definidores que não mantenham no cargo de Prior a pessoas gastadas pela velhice ou pouca saúde.

O Prior, cujo cargo requer não pouca abnegação, aplique-se a si mesmo aquelas palavras de Guigo: Não tens de empenhar-te em que teus filhos, a cujo serviço te pôs o Senhor, façam o que tu queres, senão o que lhes convém. Deves submeter-te ao seu bem e não submetê-los a tua vontade, porque te foram confiados, não para que te colocares acima deles, mas ao seu serviço. "
































22 -A vida comum

"Quando nas celas ou nas obediências praticamos a vida solitária, o coração se inflama e se alimenta com o fogo da divina caridade, que é vínculo de perfeição, e nos constitui membros de um mesmo corpo. Este amor mútuo que nos temos, podemos manifestá-lo prazenteiramente com palavras e obras, ou abnegando-nos por nossos irmãos, quando nos reunimos nas horas assinaladas pelos Estatutos.

A sagrada Liturgia é a parte mais digna da vida comum, como queira que fundamenta a máxima união entre nós, quando, diariamente unidos, de tal maneira participamos nela que podamos estar concordes em presença de Deus.

O Capítulo da Casa é um lugar particularmente digno; nele fomos recebidos um dia cada um como o mais humilde servidor de todos; nele reconhecemos ante nossos irmãos as faltas cometidas depois; ali escutamos a leitura sagrada, e ali também deliberamos sobre questões que afetam ao bem comum.

Em algumas Solenidades nos reunimos todos no Capítulo para ouvir o sermão pronunciado pelo Prior ou por outro a quem ele tenha encarregado.

Nos Domingos e Solenidades -excetuadas as Solenidades de Natal do Senhor, Páscoa e Pentecostes, e todas as que na Quaresma ocorrem entre semana -depois de Nona vamos ao

Capítulo para atender à leitura do Evangelho ou dos Estatutos. Cada duas semanas ou uma vez ao mês, segundo o costume das Casas, reconhecemos ali publicamente as faltas. Cada um pode confessar as faltas cometidas contra os irmãos, contra os Estatutos, ou também contra as obrigações gerais de nossa observância. E porque não se guarda a solidão do coração senão pela proteção do silêncio, quem o tenha quebrantado reconhecerá sempre sua falta, e sofrerá alguma penitência pública, segundo costume. Depois da acusação, o Prior poderá oportunamente fazer correções.

Os irmãos se reúnem os Domingos no Capítulo ou em outro lugar, a uma hora apropriada, e ali se lhes lêem e explicam os Estatutos, ou um pai encarregado pelo Prior os forma na doutrina cristã. Ali mesmo reconhecem suas culpas, a não ser que tenham assistido ao Capítulo juntamente com os padres.

A juízo do Prior, os monges se reúnem no Capítulo sempre que tenha que deliberar sobre um assunto, ou que o Prior peça o parecer da Comunidade.

Comemos juntos no refeitório os Domingos e Solenidades; nestes dias nos reunimos mais com frequência dando lugar às expansões da vida de família. O refeitório, ao que entramos depois de um Ofício na igreja, recorda-nos o Jantar que Cristo consagrou; abençoa as mesas o sacerdote que celebrou a Missa conventual; e enquanto se nos serve o alimento corporal, nutrimo-nos da leitura divina.

Aos padres se lhes concede uma recreação comum depois do Capítulo de Nona; aos irmãos, a juízo do Prior, em qualquer solenidade, para quem o queiram. Uma vez ao mês há um colóquio para todos os irmãos; este dia, a vontade do Prior, padres e irmãos podem ter uma recreação comum, à que também podem assistir os noviços e professos temporários.

Nas recreações recordemos o conselho do Apóstolo: Alegrai-vos, tende um mesmo sentir, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco. Como a recreação é uma reunião de Comunidade, evitemos ficar-nos aparte ou falar fora do lugar onde estão todos reunidos, a não ser umas poucas palavras.

Já que, como diz São Bruno, o ânimo pusilânime, cansado pela estreita disciplina e os afãs espirituais, muitas vezes se alivia e toma alento com a amenidade do deserto e a beleza do campo, os padres têm um espaciamiento (passeio) cada semana, excetuada a Semana Santa. Por sua vez, os irmãos têm um espaciamiento ao mês, a gosto de cada um, quem, no entanto, deverão tomar parte nele ao menos três ou quatro vezes ao ano. Neste espaciamiento, padres e irmãos, a juízo do Prior, podem passear juntos.

Segundo antigo costume da Ordem, uma vez ao ano se concede um grande espaciamiento, que padres e irmãos, noviços e jovens professos podem fazer juntos, se o Prior o vê oportuno. Nesse dia está permitido sair dos limites do espaciamiento aprovados pelo Capítulo Geral, e podemos levar um pouco de comida para tomar nele. Mas ainda neste caso se tem de guardar a frugalidade cartusiana, e comer longe dos estranhos. Ademais, o Prior pode conceder outro semelhante, mas sem que se vírgula nele.

Nossos espaciamientos sejam tais que favoreçam a união dos espíritos e seu saudável aproveitamento. Por isso, seguindo todos o mesmo caminho, passeiem juntos para que todos possam falar alternativamente uns com outros, a não ser que, por alguma causa razoável, pareça melhor formar duas ou três grupos. E se têm que atravessar necessariamente pelos povos vizinhos, se contentarão com passar singelamente e com toda modéstia, sem entrar nunca em casas de seculares. Não falem com os estranhos, nem lhes dêem nada. Também não comam nos passeios, nem bebam outra coisa que água natural das fontes que encontrem no caminho.

Estas recreações foram estabelecidas para fomentar o amor mútuo e dar um alívio à solidão. Evitemos a loquacidade e as vozes e risos descompostos; sejam nossas conversas religiosas, não vãs nem mundanas, evitando cuidadosamente toda sombra de detração ou murmuração. Quando não estejamos de acordo com outro, saibamos escutá-lo, tentando compreender sua mentalidade, a fim de que tudo sirva para estreitar mais o vínculo da caridade.

Três vezes ao ano, os padres fazem obras comuns, a vontade do Prior, que também poderá omiti-las. Entre Nona e Vésperas se faz o trabalho em comum, guardando silêncio. Estes trabalhos podem durar três dias. Além das ajudas que se prestem ao Sacristão, o Prior pode encarregar algum trabalho que alivie aos irmãos; e assim os padres se alegrarão de ter uma ocasião de participar nas tarefas dos irmãos. Na semana na que se fazem obras comuns, a qualquer pai lhe é lícito não assistir ao espaciamiento.

Uma vez ao mês, os padres que queiram podem, com a aprovação do Prior, dedicar o tempo do passeio a algum trabalho a modo de obras comuns, com licença para falar entre eles. "

20 outubro 2010

21 -A celebração cotidiana da Liturgia

"Depois de ter descrito a vida do monge à escuta de Deus na cela ou no trabalho, vamos tratar agora, com a ajuda do Senhor, da Comunidade. A graça do Espírito Santo congrega aos solitários para formar uma comunhão no amor, a imagem da Igreja que é uma e se estende por todas as partes.

Quando nosso Pai São Bruno penetrou no deserto com seis colegas, seguia as impressões dos antigos monges, consagrados totalmente ao silêncio e à pobreza de espírito. Com tudo, esta graça própria de nossos primeiros Padres consistiu em introduzir naquela vida a Liturgia quotidiana, que, conservando a força da instituição eremítica, associasse-a mais expressamente ao cântico de louvor do que o Sumo Sacerdote, Cristo, transmitiu a sua Igreja. Esta peculiar Liturgia a conservamos como mais conforme à vida contemplativa e solitária.

Ao modo da sinaxis dos antigos monges, em nossa Liturgia ocupam o lugar mais eminente as vigílias da noite, seguidas imediatamente de Laudes, a Eucaristia celebrada conventualmente, e também as Vésperas. Para estes ofícios nos reunimos na igreja.

Quando nos congregamos para a Eucaristia, em Cristo presente e orante se consuma a unidade da família cartusiana. Esta comemoração do sacrifício do Senhor reúne cada dia a todos os monges do claustro e aos monges leigos que o desejem.

Ademais, os sacerdotes na solidão celebram a Eucaristia, juntamente com a Igreja; então a humilde oblação de sua vida no deserto é assumida em Cristo para a glória de Deus Pai.

No entanto, nos dias que se ajustam mais à vida comunitária, os monges podem concelebrar, unidos num mesmo sacerdócio.

A oração noturna é aquela na que, perseverando nas sentinelas divinas, esperamos a volta do Senhor, para que, quando chame, abramos-lhe ao instante. As Vésperas se celebram ao tempo em que o dia declina e convida às almas ao sábado espiritual.

As demais Horas canônicas da Liturgia as recitamos, segundo costume, na cela. Os Domingos e Solenidades, Terça, Sexta e Nona as cantamos no coro.

A Liturgia celebrada no segredo da cela se adapta à vida solitária, que é liberdade do alma, de tal maneira que possa harmonizar o mais possível com a inclinação do coração, ainda quando seja sempre um ato de nossa vida comunitária. Ao toque de sino, orando todos ao mesmo tempo, obtêm como resultado que toda a Casa seja um louvor da glória de Deus.

Enquanto celebram o Ofício divino, os monges se fazem voz e coração da mesma Igreja, que por meio deles oferece a Deus Pai, em Cristo culto de adoração, louvor e súplica, e pede humildemente perdão pelos pecados. Cargo de suma importância, que desempenham os monges, certamente através de toda sua vida, mas mais expressa e publicamente por meio da sagrada Liturgia.

Sendo ocupação do monge meditar assiduamente as Sagradas Escrituras, até que se convertam em algo próprio à pessoa, quando se nos apresentam pela Igreja na Sagrada Liturgia, acolhemo-las como pão de Cristo.

A Liturgia conventual se canta sempre. Nosso canto gregoriano, o qual sabemos que fomenta a interioridade e a sobriedade do espírito, é parte tradicional e sólida do patrimônio da Ordem.

Os monges do claustro estão obrigados ao Ofício divino segundo o descrevem nossos livros litúrgicos. A participação dos monges leigos na Liturgia pode realizar-se de vários modos; em qualquer caso, participam na oração pública da Igreja.

Além do Ofício divino, nossos Padres nos transmitiram o Ofício da bem-aventurada Virgem Maria, cada uma de cujas Horas costuma preceder à Hora correspondente do Ofício divino. Com essas preces se celebra a perene novidade do mistério pelo qual a bem-aventurada Virgem engendra espiritualmente a Cristo em nossos corações.

Já que o Senhor nos chamou para que representemos ante Ele a toda criatura, é necessário que intercedamos por todos : por nossos irmãos, familiares e benfeitores, e por todos os vivos e defuntos.

Frequentemente celebramos a Liturgia da reconciliação, perpétua Páscoa do Senhor, pela que nos renova a nós, pecadores, que procuramos seu rosto. Efetivamente, nossa vida espiritual depende da assídua diligente e pessoal prática do Sacramento da Penitência.

Porque nossa vocação consiste em estar sem interrupção em vela cerca de Deus, toda nossa vida se converte numa espécie de Liturgia que em certos tempos se faz mais patente, já seja que ofereçamos orações em nome e segundo os ritos da Igreja, ou bem que sigamos os impulsos do próprio coração. Mas não nos dividimos por esta diversidade, já que sempre exerce em nós sua sacerdócio o mesmo Senhor, orando no mesmo Espírito ao Pai. "

20 -A formação dos irmãos

"Os irmãos principiantes estão sujeitos à direção do Mestre de noviços, que sempre será um Pai ordenado de sacerdote. Que seja, ademais, varão sobressalente em religiosidade, quietude, silêncio, juízo e prudência, que arda em autêntica caridade e irradie amor de nossa vocação, que compreenda também a diversidade de espíritos, e tenha uma mentalidade aberta às necessidades dos jovens. Sob sua tutela permanecem os conversos até sua Profissão solene, e os doados até sua Doação perpétua ou até que comecem o regime no que se renova a Doação cada três anos.

O Mestre instrua a seus alunos a fim de que a vida de oração, enraizada na fé e na caridade, saquem-na da genuína fonte da palavra de Deus, e a adaptem às obrigações próprias de seu estado, como são a solidão, o silêncio, a liturgia e o trabalho. Promove, também, o entendimento e o amor de nossos Estatutos bem como das tradições da Ordem Se preocupará de que o amor dos alunos a Cristo e à Igreja vá em aumento de dia em dia. Uma vez por semana atende à formação em comum de seus discípulos, tendo uma conferência de ao menos meia hora de duração, na que os instrua, sobretudo, a respeito do espírito e as observâncias de nosso propósito. Aos noviços se lhes concede mais tempo de cela, para que possam aplicar-se melhor a sua formação espiritual.

Visitando aos calouros e conversando singelamente com eles em particular o Mestre observa suas disposições espirituais e lhes dá conselhos acomodados a suas necessidades especiais, para que cada um possa atingir a perfeição de sua vocação.

O Procurador, que por razão de seu cargo trata diariamente com os irmãos, os moverá mais eficazmente à virtude e à oração com o exemplo de virtude e de vida de oração do que ele mesmo pratique; porque a ciência divina se comunica melhor vivendo-a que explicando-a.

Cuide-se já desde o tempo de formação de não carregar aos irmãos com excessivos exercícios comuns ou observâncias alheias a nossa Ordem; vigie-se mais bem para do que sejam iniciados na vida de oração e no verdadeiro espírito monástico.

Ao Prior e ao Mestre de noviços pertence o julgar, segundo sua prudência e discrição, da idoneidade dos candidatos ou dos irmãos jovens para seguir o gênero de vida da Ordem. Para que um seja cartuxo não só de nome, senão real e verdadeiramente, não basta querer; requer-se ademais, junto com o amor à solidão e a nossa vida, certa aptidão especial de alma e corpo. Receber a algum ou retê-lo longo tempo, quando consta que lhe faltam as dotes necessárias, é uma falsa e quase cruel compaixão. Esteja muito em guarda o Mestre para que o novicio se decida em sua vocação com plena liberdade, e não o compila em modo algum para que faça a Doação ou a Profissão.

Quatro vezes ao ano dê conta, ante o Prior e o Conselho, do estado dos noviços doados e dos noviços conversos; responda também às perguntas que se lhe façam sobre os demais membros do noviciado.

Os irmãos principiantes tenham livre acesso ao Mestre de noviços e possam tratar sempre com ele, mas espontaneamente e sem coação alguma. Exortamo-los a que exponham com singeleza e confiança suas dificuldades ao Mestre, aceitando-o como eleito pela divina Providência para dirigi-los e ajudá-los. Igualmente, todos os irmãos podem ir livremente ao Prior, quem, como pai comum, os receberá benignamente e os visitará algumas vezes em suas celas, mostrando o mesmo interesse por todos, sem acepção de pessoas.

Os irmãos mais antigos, em especial os Encarregados de obediência, contribuem eficazmente à formação dos mais jovens com quem trabalham, se lhes dão exemplo de observância regular e praticam as virtudes e a oração no viver de cada dia. No entanto, abstenham-se ou pouco menos de ter conversas, ainda sobre temas espirituais, pois não devem misturar-se em coisas relativas à consciência alheia.

Para que a vida espiritual dos irmãos se sustente numa sólida base, se lhes dará aos jovens irmãos, desde o começo de sua vida monástica, uma formação doutrinal, à qual se reservará cada dia verdadeiro tempo. Tal formação tende a que o irmão se inicie nas riquezas latentes na Palavra de Deus e lhe permita adquirir uma percepção pessoal dos mistérios de nossa fé, ao mesmo tempo que vai aprendendo a sacar fruto da meditação em livros sólidos. O cargo de dar dita instrução corresponde ao Prior, ao Mestre e ao Procurador, quem farão de comum acordo, segundo as prescrições do Capítulo Geral.

A formação espiritual e doutrinal dos irmãos tem de ir-se completando durante toda a vida. Na consecução deste fim ajudam ao Procurador os padres designados pelo Prior, dando cada domingo uma conferência aos irmãos. Desde Todos os Santos até Páscoa, nesta conferência se explicam os Estatutos, e se lêem os capítulos que é costume ler todos os anos na Comunidade dos irmãos; esta conferência, pela que são também instruídos sobre as observâncias da Ordem, se encomendará preferencialmente ao Procurador. Desde Páscoa até a festa de Todos os Santos, tal formação versará sobre doutrina cristã, vida espiritual, e ademais sobre Sagrada Escritura e Liturgia, segundo as normas que estabelecerá o Prior; este ensino seja profundo e, ao mesmo tempo, adaptada à capacidade dos irmãos. Estas duas classes de instrução, se parece oportuno, podem-se distribuir de outro modo, com a condição que não se diminua o tempo dedicado a cada uma.

Assim, os irmãos aprenderão a sublime ciência de Jesus Cristo, se se dispõem a recebê-la com uma vida de oração silenciosa, oculta com Cristo em Deus. Esta é a vida eterna, que conheçamos ao Pai e a seu enviado, Jesus Cristo. "

19 outubro 2010

19 -A Doação

"Na Casa de Deus há muitas mansões : entre nós há monges do claustro e conversos, há também doados que, tendo abandonado igualmente o mundo, procuraram a solidão da Cartuxa a fim de consagrar toda sua vida a Deus, aplicando-se à oração e ao trabalho ao amparo da clausura. Pois não poucas vezes os homens mais virtuosos preferiram viver e morrer no estado de doados, para desfrutar, agregados aos filhos de São Bruno, de sua santa herança.

Findo laudavelmente o noviciado, o novicio doado é admitido pelo Prior a fazer a Doação temporária, depois da votação dos professos de votos solenes, e assim mesmo dos doados perpétuos.

O dia da Doação temporária ou perpétua, o futuro doado, tendo feito ao menos quatro dias de retiro, lerá sua Doação, escrita em língua vernácula, ante toda a Comunidade, antes de Vésperas, sob esta forma e com estas palavras: Eu, irmão N., por amor de nosso Senhor Jesus Cristo e pela salvação de minha alma, obrigo-me a servir a Deus fielmente como Donato, observando a obediência e castidade, sem nada ter como próprio, para a edificação da Igreja.

Por isso eu me entrego… a esta Casa, em compromisso recíproco, para a servir em todo o tempo, submetendo-me à disciplina da Ordem, segundo as normas dos Estatutos.

Depois da expressão “me entrego”, adicione-se “por três anos”, se a Doação é temporária; e se se prorroga, indique-se o tempo de prorrogação; mas se a Doação é perpétua, diga-se “perpetuamente”.

Ainda que o doado viva em pobreza, conserva a propriedade e a disposição de seus bens. Mas antes do tempo da Doação perpétua, ninguém aliene nem permita que seja alienado nenhum de seus bens, ainda que o queira o mesmo doado.

Desde este momento, o doado fica constituído em pessoa da Ordem e incorporado a ela, podendo os Superiores, em caso de necessidade, transladá-lo a qualquer de nossas Casas. No entanto, não pode ser expulsado da Ordem, a não ser que faltasse gravemente a alguma de suas obrigações, em cujo caso poderá o Prior, com o consentimento de seu Conselho, anular sua Doação.

Mas quando se anula um contrato de Doação, ambas as partes, a saber, o Prior em nome da Comunidade, e o mesmo doado, assinem um instrumento que dê fé desta rescisão.

Terminado o triênio, ao Prior corresponde, depois da votação da Comunidade, incluídos os Doados perpétuos, admitir ao doado à renovação temporária por dois anos. O tempo da Doação temporária pode prorrogá-lo o Prior, mas não mais de um ano.

Decorrido o tempo de provação, ao Prior corresponde, depois da votação da Comunidade, incluídos os Doados perpétuos, admitir ao irmão ou à Doação perpétua, ou ao regime no que a Doação se renova cada três anos; renovações para as quais não se repete a votação. Para a Doação perpétua se requer ademais o consentimento do Reverendo Pai.

Os doados são monges dotados de costumes próprios quanto ao Ofício divino e às demais observâncias. Estes costumes se podem adaptar às necessidades de cada um, de maneira que lhe permitam viver, segundo seu caminho pessoal, nossa vocação de união com Deus na solidão e o silêncio. Esta ordenada liberdade não a tomarão como uma concessão à sensualidade, senão em serviço da caridade. Entregam-se, por tanto, ao serviço do Senhor de diferente maneira que os conversos, mas sua oferenda a Deus não é menos verdadeira, nem menos ardente seu desejo de santidade. Prestam, assim mesmo, uma ajuda muito útil à Casa, encarregando-se as vezes de trabalhos que aos conversos lhes dificultariam a guarda de suas observâncias. "

18 outubro 2010

18 -A Profissão

"Morto ao pecado e consagrado a Deus pelo batismo, o monge pela Profissão se consagra mais plenamente ao Pai e se desembaraça do mundo, para poder tender mais retamente para a perfeita caridade. Unido ao Senhor mediante um compromisso firme e estável, participa do mistério da Igreja unida a Cristo com vínculo indissolúvel, e dá depoimento ante o mundo da nova vida adquirida pela Redenção de Cristo.

Findo laudavelmente o noviciado, o noviço converso se apresenta ao Convento. Prostrado em Capítulo pede misericórdia e suplica por amor de Deus ser admitido à primeira Profissão em hábito dos professos, como o mais humilde servidor de todos.

Depois de ter feito pelo menos oito dias de retiro espiritual, o dia estabelecido, o irmão renovará sua petição ante o Convento. Então o Prior o admoestará sobre a estabilidade, a obediência, a conversão de costumes e restantes coisas necessárias ao estado de conversos. Depois, emitirá na igreja a Profissão por três anos. Tem-se de tentar absolutamente que o irmão, ao emitir seus votos, proceda com maturidade de juízo, e não se comprometa senão com plena liberdade.

Decorrido o triénio, ao Prior corresponde, depois do voto da Comunidade admitir ao jovem professo à renovação da Profissão temporária por dois anos.

O Prior admite aos professos temporários à Profissão solene depois do sufrágio dos monges professos de votos solenes, e com a anuência do Reverendo Pai. Também para esta Profissão deverá fazer o irmão duas vezes sua petição em Capítulo, como se disse ao falar da Profissão temporária.

Porque o discípulo que segue a Cristo deve renunciar a tudo e a si mesmo, o futuro professo, antes da Profissão solene, renuncie a todos os bens que tenha em ato; pode também, se quer, dispor dos bens aos que tenha direito. Nenhuma pessoa da Ordem peça nada em absoluto de suas coisas ao professo temporal, nem sequer com fins piedosos, nem para dar esmola a quem seja, senão que ele disponha livremente de seus bens segundo ele decida.

O dia assinalado, o que vai professar emite a Profissão na Missa conventual, depois do Evangelho ou o Credo. Então, realmente, a entrega de si mesmo que pretende fazer com Cristo, através do Prior é aceitada e consagrada por Deus.

O que vai professar escreva por si mesmo em língua vernácula a Profissão nesta forma e com estas palavras: Eu, frei N., prometo… obediência, conversão de meus costumes e perseverança neste ermo, diante de Deus e dos seus Santos e das relíquias deste ermo, construído em honra de Deus e da bem-aventurada sempre Virgem Maria e de São João Batista, na presença de Dom N., Prior..

Se se trata da Profissão temporária, adicionem-se depois de “prometo”, as palavras que limitem o tempo; se da Profissão solene, diga-se “perpétua”.

É de saber que todos nossos ermos estão dedicados, em primeiro lugar, à bem-aventurada sempre Virgem Maria e a São João Batista, nossos principais patronos no céu.

Todas as cédulas de Profissões, assinadas pelo Professo e pelo Prior que recebeu os votos, e com indicação da data, se guardarão no arquivo da Casa.

Todos os religiosos de nossa Ordem permanecem daqui por diante professos da Casa onde, uma vez findo o noviciado, fizeram a primeira Profissão, ainda que sejam transladados a outras Casas e façam ali sua Profissão solene.

Desde o momento de sua Profissão, saiba o irmão que não pode ter coisa alguma sem licença do Prior, nem ainda a bengala em que se apóia quando caminha, já que já não é dono nem de si mesmo.

Dado que todos os que determinaram viver regularmente têm de praticar com grande zelo a obediência, nós o faremos com tanta maior entrega e fervor, quanto mais estrita e austera é a vocação que abraçamos; pois se, o que Deus não permita, esta obediência faltar, tantos trabalhos careceriam de mérito De aqui que Samuel diga: Melhor é obedecer do que sacrificar, e melhor a docilidade do que a gordura dos carneiros."

17 -O noviço

"Quem, ardendo em amor divino, deseja abandonar o mundo e captar as coisas eternas, quando chegam a nós recebamo-los com o mesmo espírito. É, pois, muito conveniente que os noviços encontrem nas Casas onde têm de ser formados, um verdadeiro exemplo de observância regular e de piedade, de guarda da cela e do silêncio, e também de caridade fraterna. Se chegasse a faltar isto, mal se poderá esperar que perseverem em nosso modo de vida.

Aos que se apresentem como candidatos, se os tem de examinar atenciosa e prudentemente, segundo o aviso do apóstolo São João : Examinai se os espíritos vêm de Deus. Porque é realmente verdadeiro que da boa ou má admissão e formação dos noviços depende principalmente a prosperidade ou decadência da Ordem, tanto na qualidade como no número das pessoas.

Por isso, os Priores devem informar-se com prudência sobre sua família, sua vida passada e suas qualidades de alma e corpo; pela mesma razão, convirá conferir a médicos prudentes que conheçam bem nosso gênero de vida. Efetivamente, entre as dotes pelas que os candidatos à vida solitária devem ser estimados, tem de contar-se sobretudo um juízo equilibrado e são.

Não acostumamos receber noviços antes de que tenham começado os vinte anos; inclusive entre os que peça ser admitidos, recebam-se tão só aqueles que, a juízo do Prior e da maioria da Comunidade, tenham suficiente piedade, maturidade e forças corporais para levar os ônus da Ordem; e sejam o bastante aptos, sem dúvida para a solidão, mas também para a vida comum.

Mas convém que sejamos mais circunspetos na recepção das pessoas de idade madura, já que se acostumam mais dificilmente às observâncias e nossa forma de vida; por isso, não queremos que se receba aspirante algum ao estado de converso passados os quarenta e cinco anos, sem licença expressa do Capítulo Geral ou do Reverendo Pai. Tal licença se requer também para admitir ao noviciado a um religioso paquerado o vínculo da Profissão em outro Instituto, e se se trata de um professo de votos perpétuos, o Reverendo Pai precisa do consentimento do Conselho Geral. Para admitir a alguém unido anteriormente com votos a um Instituto religioso se nos aconselha ouvir antes ao Reverendo Pai.

Quando se nos apresenta algum pedindo ser irmão nosso, é necessário que não padeça nenhum impedimento legítimo, que vinga movido por reta intenção, e que seja apto para levar os ônus da Ordem Razão pela qual seja interrogado devidamente sobretudo aquilo cujo conhecimento pareça necessário ou oportuno para formar um juízo reto a respeito de sua admissão.

Cumprido isto, expõe-se ao candidato o fim de nossa vida, a glória que esperamos dar a Deus por nossa união com sua obra redentora, e que bom e gozoso é deixá-lo tudo para aderir-se a Cristo. Também se lhe propõe o duro e áspero, fazendo-lhe ver, quanto seja possível, todo o modo de vida que deseja abraçar. Se ante isto segue decidido, oferecendo-se com sumo gosto a seguir um caminho duro, fiado nas palavras do Senhor, e desejando morrer com Cristo para viver com Ele, por fim se lhe aconselha que, conforme ao Evangelho, se reconcilie com aqueles que tiverem alguma coisa contra ele.

Depois de conviver uns dias conosco, se ao Prior lhe consta que pode ser recebido o aspirante, receberá o manto dos postulantes de mãos do Mestre de noviços. Exercitar-se-á em diversos trabalhos e obediências, e assistirá ao Ofício divino, para que se acostume quanto antes à nova vida. Antes de que comece o noviciado, seja provado na Casa ao menos durante três meses e não mais de um ano.

Se o postulante fosse achado humilde, obediente, casto, fiel, piedoso, equilibrado, apto para a solidão e diligente no trabalho pode ser apresentado à Comunidade, incluídos os doados perpétuos. Apresentação que fazem o Vigário, o Procurador e o Mestre, quem clara e exatamente põem de manifesto as dotes e defeitos do postulante. E se toda a Comunidade, ou a maior parte, julga que pode ser admitido, corresponde ao Prior associá-lo à Ordem com a tomada do hábito monacal, tendo feito antes ao menos quatro dias de retiro.

O novicio, já que se propõe deixar todas as coisas para seguir a Cristo, entregue integralmente ao Prior o dinheiro e as demais coisas que talvez trouxe consigo, a fim de que sejam guardadas não por ele mesmo, senão pelo Prior ou por quem este designar. Por nossa parte, não exigimos nem pedimos absolutamente nada aos que querem entrar em nossa Ordem ou aos noviços.

O noviciado fato para monges leigos não vale para monges do claustro, nem vice-versa.

O noviciado se prolonga durante dois anos; tempo que o Prior pode prorrogar, mas não mais de seis meses. O candidato, ao menos antes de começar o segundo ano, eleja entre a vida dos conversos e a dos doados, espontaneamente e com toda liberdade.

O candidato que passa com votos perpétuos de outra Religião à nossa uma vez cumprido o postulantado como dissemos antes, se fosse apto, é admitido ao noviciado dos conversos, no qual permanece cinco anos antes de ser admitido à Profissão solene.

Para sua admissão ao noviciado faça-se igualmente depois de passados dois anos, e depois, depois de outros dois, e finalmente antes da Profissão solene.

Se algum, já no segundo ano do noviciado dos doados, ou depois de feita a Doação, fosse passar ao estado dos conversos, ao Prior corresponde determinar o ordem de toda a provação, de modo que esta dure ao menos sete anos e três meses, e se observem as normas do Direito. O mesmo se faz quando um converso noviço ou professo de votos temporários passa ao estado de doado.

Não se deixe aplanar o novicio pelas tentações que costumam espreitar aos seguidores de Cristo no deserto; nem confie em suas próprias forças, senão mais bem espere no Senhor, que deu a vocação e levará a termo a obra começada. "

17 outubro 2010

15 -O trabalho

"Os irmãos se dedicam ao trabalho nas horas assinaladas, a fim de que, providenciando às necessidades da Casa mediante seu trabalho com Jesus, o filho do Carpinteiro, orientem toda a criação à glória de Deus, e glorifiquem ao Pai ao mesmo tempo que associam ao homem todo inteiro à obra da Redenção. No suor e na fadiga do trabalho acham, efetivamente, uma partícula da cruz de Cristo, por onde, à luz de sua Ressurreição, fazem-se partícipes dos novos céus e da nova terra.

Segundo a antiga tradição monástica, o trabalho é um meio muito eficaz de progresso para a caridade perfeita pela prática das virtudes Pelo equilíbrio que estabelece entre o homem interior e o exterior, o trabalho ajuda também ao irmão a sacar mais fruto da solidão.

Nas obediências, e em tudo o que têm a seu cargo, os irmãos seguem as disposições do Prior e do Procurador, aproveitando seus dotes naturais e os dons da graça no desempenho dos cargos que se lhes encomendem. Assim, pela obediência, aumenta-se a liberdade de filhos de Deus, e com esta submissão voluntária contribuem à edificação do Corpo de Cristo segundo o plano divino.

O Procurador com respeito aos irmãos, bem como o Encarregado de obediência com respeito a seus ajudantes, exerçam sua autoridade com espírito de serviço, de sorte que manifestem a caridade com que Deus os amou. Confiram-nos e escutem-nos gostosos, salva, com tudo, sua autoridade para decidir e ordenar o que tenha que fazer. Assim todos cooperam no cumprimento do dever com uma obediência ativa e cheia de amor.

Unidos a Cristo Jesus, que sendo rico se fez pobre por nós, os irmãos trabalham sempre com espírito de pobreza. Evitam, em especial tudo esbanja, e vigiam para que as ferramentas não se estraguem. Põem, igualmente, sumo cuidado em conservar em bom estado seus instrumentos, e, sobretudo, as máquinas.

O Enfermeiro e também o Cozinheiro, e os que tenham que atender às necessidades especiais dos enfermos, rodeiem de amor aos afligidos pela doença; mais ainda, reconheçam neles a imagem de Cristo paciente, e alegrem-se de poder servir e aliviar a Cristo nos enfermos.

A vida do irmão, em primeiro lugar, ordena-se a que unido a Cristo permaneça em seu amor. Assim, mediante a graça da vocação aplique-se de todo coração a ter a Deus sempre presente, já na solidão da cela, já também em seus trabalhos. "

16 outubro 2010

14 -O silêncio

"Deus conduziu a seu servo à solidão para falar-lhe ao coração; mas só o que escuta em silêncio percebe o sussurro da suave brisa que manifesta ao Senhor. Ainda que ao princípio nos resulte no duro calar, gradualmente, se somos fiéis, nosso mesmo silêncio irá criando em nós uma atração para um silêncio cada vez maior.

Por isso, não lhes está permitido aos irmãos falar indistintamente o que queiram, com quem queiram ou o tempo que queiram. No entanto , podem falar do que seja útil para seu trabalho, mas em poucas palavras e baixinho. Além do que corresponde à utilidade do trabalho, só podem falar com licença, tanto com os monges como com os estranhos. Como a guarda do silêncio é de suma importância na vida dos irmãos é preciso que guardem cuidadosamente esta regra. Nos casos duvidosos não previstos pela lei, fica à discrição de cada qual o julgar se lhe está permitido falar e quanto, segundo sua consciência e a necessidade.

A devoção ao Espírito que habita em nós e a caridade fraterna pedem que os irmãos contem e meça suas palavras quando lhes está permitido falar. É de crer que um colóquio longo e inutilmente prolongado contrista mais ao Espírito Santo e dissipa mais do que poucas palavras, inclusive ilícitas, mas em seguida interrompidas. Frequentemente, a conversa que começa sendo útil, degenera cedo em inútil, para terminar sendo censurável.

Os Domingos e Solenidades, e também os dias dedicados especialmente ao retiro, guardam com mais cuidado o silêncio e a cela. Todos os dias, desde o toque vespertino do Ângelus até Prima, deve reinar em toda a Casa um silêncio perfeito, que não podemos quebrantar sem verdadeira e urgente necessidade. Porque este tempo da noite, segundo os exemplos da Escritura e o sentir dos antigos monges, favorece de um modo especial o recolhimento e o encontro com Deus.

Não se permitam também não os irmãos dirigir a palavra sem permissão às pessoas de fora que chegam, nem conversar com eles; unicamente se lhes permite devolver a saudação aos que encontrem ao passo ou se lhes acerquem, e responder brevemente ao que lhes perguntem, escusando-se com que não têm permissão para falar mais.

A guarda do silêncio e o recolhimento interior requerem uma especial vigilância de parte dos irmãos, que têm tantas ocasiões de falar. Não poderão ser perfeitos neste ponto, se não tentam atenciosamente andar na presença de Deus. "

15 outubro 2010

13 -A clausura

"Já que deixamos o mundo para sempre a fim de assistir incessantemente ante a Divina Majestade, conscientes das exigências de nosso estado, sentimos horror por sair e percorrer lugares e cidades. Mas de nada serviria um rigor tão grande na clausura, se não tendêssemos por ela à pureza de coração à qual somente se promete a visão de Deus. Para consegui-la, requer-se uma grande abnegação, sobretudo da natural curiosidade que o homem sente por tudo o humano. Não devemos permitir que nosso espírito se derrame pelo mundo, andando à busca de notícias e rumores. Pelo contrário, nossa parte é permanecer ocultos no segredo do rosto do Senhor.

Quando é enviado um irmão a um lugar próximo, não aceita comida nem bebida de ninguém, nem alojamento, sem um mandato especial, ou obrigado por alguma necessidade inevitável e imprevista.

O Porteiro seja amável com todos, religiosamente educado, e abstenha-se por completo do muito falar; assim edificará aos leigos com o bom exemplo. Quando tenha que receber ou com mansidão despedir a alguém, faça-o com palavras atenciosas, mas muito breves. E o mesmo se manda praticar a quem faz suas vezes.

Recordemos assim mesmo que os leigos não esperam do cartuxo que lhes fale de vãos rumores ou de política; por isso, evitando todo tema profano ou frívolo, escrevamos sempre na presença de Deus, em Cristo.

O precioso carisma do celibato é um dom divino que libera nosso coração de maneira excepcional e nos impulsiona a cada um, cativado por Cristo a entregar-se totalmente por Ele. Esta graça não deixa lugar nem à estreiteza de coração nem ao egoísmo, senão que, em resposta ao amor inefável que Cristo nos manifestou, deve dilatar nosso amor de tal maneira que um convite irresistível inflame a alma a sacrificar-se sempre mais plenamente.

Seja, pois, o alma do monge, na solidão, como um lago tranqüilo, cujas águas brotam do fundo mais puro do Espírito; nenhum ruído vindo de fora as perturba e, como límpido espelho, só refletem a imagem de Cristo. "

14 outubro 2010

12 -A solidão

"A nossa principal aplicação e propósito consistem em encontrar Deus no silêncio e na solidão. Aqui, o Senhor e o seu servo conversam frequentemente como dois amigos, a alma fiel une-se muitas vezes ao Verbo de Deus, a esposa convive com o Esposo, as coisas da terra se ligam às do Céu, as humanas às divinas. Mas geralmente é longo o trajeto a percorrer, por caminhos áridos e secos, até chegar à fonte á fonte da água viva.

No entanto, geralmente é longo o caminho de peregrinação por sendas áridas e ressecas até chegar às fontes de águas vivas.

O irmão deve vigiar com atencioso cuidado a solidão exterior, que com freqüência não está protegida pelo retiro do claustro e a guarda da cela. Mas de nada aproveita a solidão exterior se não guarda também sempre a solidão interior, ainda durante o trabalho, bem que sem violência.

Sempre que não assistam ao Ofício divino na igreja nem estejam ocupados nos trabalhos das obediências, os irmãos se retiram a sua cela como ao refúgio mais seguro e calmo do porto. Na qual permanecem com paz e, quanto seja possível, sem fazer nenhum ruído, seguindo fielmente a ordem dos exercícios, fazendo-o tudo na presença de Deus, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, dando por sua médio graças a Deus Pai. Nela se ocupam proveitosamente lendo ou meditando, sobretudo a Sagrada Escritura, que é o alimento da alma, ou se entregam à oração segundo suas possibilidades, não procurando nem aproveitando nenhuma ocasião para sair fora, salvo nas geralmente estabelecidas, ou que procedam da obediência. O homem por natureza foge às vezes do silêncio da solidão e da quietude; pelo qual diz também Santo Agustín: Para os amigos deste mundo não há nada tão trabalhoso como não trabalhar. Também podem às vezes os irmãos, para seu proveito espiritual, dedicar-se a pequenos trabalhos em sua cela, com o consentimento do Procurador.

O primeiro ato de caridade para com nossos irmãos é respeitar sua solidão; se temos permissão para falar de algum assunto em sua cela, evitemos palestras inúteis.

Depois do toque do Ângelus da tarde não vão os irmãos à cela do Prior ou o Procurador sem ser chamados. Depois dessa hora só ficam com os hóspedes os encarregados de servir-lhes Igualmente, quando um está na cela de outro ou em outra parte, quanto ouve esse toque vespertino deve retirar-se em seguida a não ser que tenha ordem especial de deter-se por mais tempo. "

13 outubro 2010

11 -Os monges leigos

"Desde suas origens, nossa Ordem, como um corpo cujos membros não têm todos a mesma função, compreende padres e irmãos. Tanto uns como outros são monges, e participam da mesma vocação, ainda que de maneira diversa. Graças a esta diversidade, a família cartusiana pode cumprir mais perfeitamente sua missão na Igreja.

Os monges do claustro, de quem tratamos até agora, vivem no retiro de suas celas e são sacerdotes ou chamados a sê-lo. Os monges leigos, dos quais vamos tratar agora com a ajuda de Deus consagram sua vida ao serviço do Senhor não só pela solidão senão também por uma maior dedicação ao trabalho manual. Aos primeiros irmãos, chamados conversos, se lhes uniram no correr do tempo outra classe de irmãos, os doados, que, sem fazer votos, oferecem-se por amor de Cristo à Ordem mediante um contrato recíproco. Já que levam vida monástica, chamamo-los também monges.

Bem como os primeiros Padres de nossa Ordem seguiram as impressões daqueles antigos monges que levaram uma vida de solidão e pobreza de espírito, igualmente nossos primeiros irmãos,Andrés e Guerín, decidiram-se a abraçar uma vocação parecida. É necessário, pois, que os conversos e doados não saiam dos termos do ermo senão rara vez e obrigados pela necessidade cuidando diligentemente de manter-se alheios aos rumores do século.

Finalmente, suas celas de tal maneira estejam isoladas que, entrando em seu interior, fechada a porta e deixando afora todos os cuidados e preocupações, possam orar ao Pai em escondido repouso.

Os irmãos, imitando a vida escondida de Jesus em Nazaré, enquanto realizam os trabalhos diários da Casa, louvam ao Senhor em suas obras, consagrando o mundo à glória do Criador e ordenando as ocupações naturais ao serviço da vida contemplativa; mas nas horas consagradas à oração solitária, e quando assistem aos Ofícios divinos, dedicam-se a Deus por inteiro. Assim, pois, os lugares onde trabalham e vivem devem estar acondicionados de tal sorte que facilitem o recolhimento e, ainda providos de tudo o necessário e útil, deem a impressão de ser verdadeira mansão de Deus, não um edifício profano.

Unidos no amor do Senhor, na oração, no zelo pela solidão e no ministério do trabalho, os irmãos vivem juntos sob a direcção do Procurador. Mostrem-se, pois, verdadeiros discípulos de Cristo, não tanto de palavra quanto de obra, fomentem a caridade fraterna, tendo uns mesmos sentimentos, suportando-se mutuamente e perdoando-se se algum tem queixa contra outro, a fim de ser um só coração e uma só alma.

Dentro de seu próprio marco de solidão, os irmãos trabalham para providenciar às necessidades materiais da Casa, que lhes estão especialmente confiadas. Assim permitem aos monges do claustro consagrar-se mais livremente ao silêncio da cela.

Padres e irmãos, discípulos daquele que não veio ser servido senão a servir manifestam de forma diversa as riquezas de nossa vida, consagrada totalmente a Deus na solidão.

Estas duas formas de vida, na unidade de um mesmo corpo, têm graças diferentes, mas complementares a uma da outra e com mútua comunicação de bens espirituais. Tal harmonia permite ao carisma confiado pelo Espírito Santo a nosso Pai São Bruno atingir sua plenitude.

Entendam os padres que pelas sagradas Ordens, com as que foram marcados, receberam não tanto uma dignidade como um serviço. Ademais, o sacerdócio ministerial e o sacerdócio batismal dos leigos estão relacionados entre si, já que ambos participam do único sacerdócio de Cristo. Que cada qual, pois, correndo pelo caminho reto para a única meta de nossa vocação, persevere no estado ao que foi chamado.

O Prior há-de ser para todos os seus filhos, monges do claustro e leigos, um signo vivo do amor do Pai celestial, unindo-os em Cristo de tal maneira que formem uma família e que, segundo a expressão de Guigo, cada uma de nossas Casas seja realmente, uma igreja cartusiana.

A qual tem sua raiz e fundamento na celebração do Sacrifício Eucarístico, que é signo eficaz de unidade. É também o centro ecume de nossa vida, e ademais viático espiritual de nosso Êxodo, por onde na solidão retornamos por Cristo ao Pai. Assim mesmo, em todo o curso da Liturgia, Cristo como nosso Sacerdote ora por nós, e como Cabeça nossa ora em nós.

E como o caminho mais seguro para ir a Deus é seguir de perto as impressões de nossos Fundadores, os irmãos devem propor-se como modelos aos primeiros conversos da Grande Cartuxa, que, sem contar ainda com uma regra escrita, deram forma e espírito a seu gênero de vida.

Sua recordação inundava de gozo o coração de São Bruno, e o movia a escrever: De vocês, amaríssimos irmãos leigos, digo : Minha alma glorifica ao Senhor ao ver a grandeza de sua misericórdia sobre vocês. Alegro-me também de que, ainda sem ser letrados, Deus todo-poderoso grava com seu dedo em vossos corações não só o amor, senão também o conhecimento de sua santa lei. Com vossas obras, efetivamente, demonstrais o que amais e conheceis. Porque praticais com todo o cuidado e zelo possíveis a verdadeira obediência, que é o cumprimento da vontade de Deus e a clave e o selo de toda vida espiritual. Obediência que não existe nunca sem muita humildade e grande paciência, e que sempre vai acompanhada do casto amor do Senhor e da verdadeira caridade. O qual põe de manifesto que recolheis sabiamente o fruto muito suave e vivificador da Escritura divina. Permanecei, pois, irmãos meus, no estado ao que chegastes."

12 outubro 2010

10 -A Profissão

"Morto ao pecado e consagrado a Deus pelo batismo, o monge pela Profissão se consagra mais plenamente ao Pai e se desembaraça do mundo, para poder tender mais retamente para a perfeita caridade. Unido ao Senhor mediante um compromisso firme e estável, participa dom mistério da Igreja unida a Cristo com vínculo indissolúvel, e dá depoimento ante o mundo da nova vida adquirida pela Redenção de Cristo.

Quando se acerca o fim do segundo ano de noviciado, se o novicio parece digno de ser admitido, se o apresentará à Comunidade que, depois de alguns dias, bem pensado o assunto, dará seu parecer sobre a admissão do novicio. Este, por sua vez, não faça os votos senão com plena liberdade e maturidade de juízo.

Esta primeira Profissão se emite por três anos. Passado este prazo, corresponde ao Prior, depois do voto da Comunidade, admitir ao jovem professo a passar dois anos com os professos de votos solenes. Em tal caso, o monge renovará por um biênio a Profissão temporária. Durante um destes dois anos – normalmente o segundo –, o futuro professo estará livre de estudos canônicos, a fim de se preparar com mais reflexão para os votos solenes.

Porque o discípulo que segue a Cristo deve renunciar a tudo e a si mesmo, o futuro professo, antes da Profissão solene, renuncie a todos os bens que tem em ato; pode também, se quer, dispor dos bens aos que tenha direito. Nenhuma pessoa da Ordem peça nada em absoluto de suas coisas ao professo temporária, nem sequer com fins piedosos, nem para dar esmola a quem seja, senão que ele deve dispor livremente de seus bens segundo lhe ele decida.

O que vai professar escreva por si mesmo a Profissão na forma e com as palavras: Eu, frei N., prometo… estabilidade, obediência e conversão de meus costumes, diante de Deus e dos seus Santos, e das relíquias deste ermo, que está construído em honra de Deus e da bem-aventurada sempre Virgem Maria e de São João Batista, na presença de Dom N., Prior..

Depois da palavra “prometo”, se se trata da primeira Profissão temporária, adiciona-se “por três anos”, e quando esta Profissão se prorrogue, especifique-se o tempo da prorrogação; mas se se trata da Profissão solene, diga-se “perpétua”.

É de saber que todos nossos ermos estão dedicados em primeiro lugar à Santíssima Virgem Maria e a São João Batista, nossos principais patronos no céu.

A cédula de toda Profissão deve ser assinada pelo professo e pelo Prior que recebeu os votos, e levar consignada a data; se a conserva no arquivo da Casa.

Feita a Profissão, o que foi recebido de tal maneira se considere alheio a tudo o do mundo, que não tenha potestade sobre coisa alguma, nem sequer sobre si mesmo, sem licença de seu Prior. Dado que todos os que determinaram viver regularmente têm de praticar com grande zelo a obediência, nós o faremos com tanta maior entrega e fervor, quanto mais estrita e austera é a vocação que abraçamos; pois se, o que Deus não permita, esta obediência faltar, tantos trabalhos careceriam de prémio De aqui que Samuel diga: Melhor é obedecer do que sacrificar, e melhor a docilidade do que a gordura dos carneiros.

A exemplo de Jesus Cristo, que veio cumprir a vontade de seu Pai e, tomando a forma de servo, aprendeu por seus padecimentos a obediência, o monge se submete pela Profissão ao Prior, que faz as vezes de Deus, e se esforça por chegar à medida da plenitude de Cristo. "

11 outubro 2010

9 -O Mestre de noviços

"A formação dos noviços se tem de encomendar a um Mestre que se distinga por sua prudência, caridade e observância regular, que esteja dotado da devida maturidade e experiência das coisas da Ordem que senta um gosto especial à quietude e à cela que irradie amor por nossa vocação, que entenda a diversidade de espíritos e tenha uma mentalidade aberta às necessidades dos jovens. Ao ocupar-se com todo coração da perfeição espiritual de seus alunos, saiba também escusar os defeitos alheios.

O Mestre mostre-se solícito e vigilante com respeito à recepção dos noviços, antepondo o mérito ao número. Para que um seja cartuxo não de puro nome, senão real e verdadeiramente, não basta querer; requer-se ademais, junto com o amor à solidão e a nossa vida, certa aptidão especial de alma e corpo, por onde se conheça a vocação divina. Tudo isto o tenha em conta o Mestre, a quem principalmente pertence o examinar e provar aos calouros. Não esqueça que certos defeitos, que num princípio pareciam quiçá de pouca monta, frequentemente costumam crescer e arraigasse mais depois da Profissão. É assunto grave o recusar ou despedir a alguém, e só se tem de decidir depois de madura deliberação. No entanto, receber a algum ou retê-lo longo tempo, quando consta que lhe faltam as dotes necessárias, é uma falsa e quase cruel compaixão. Esteja muito em guarda o Mestre para que o novicio se decida em sua vocação com plena liberdade, e não o compila em modo algum para que faça a Profissão.

O Mestre visitará ao novicio em momentos oportunos e ensinar-lhe-á as observâncias da Ordem que um novicio não deve ignorar.

Cuidará, ademais, especialmente de que o novicio estude com interesse os Estatutos da Ordem. Ao Mestre toca também formar os hábitos do novicio, dirigi-lo em seus exercícios espirituais e pôr remédios oportunos a suas tentações. Esteja atencioso a que, de dia em dia, aumente o amor dos alunos para Cristo e a Igreja. Ainda que, a exemplo de nosso Pai São Bruno, deve ter entranhas de mãe, é preciso também que mostre uma energia de pai, para que a formação do calouro seja monástica e varonil. Deixe, sobretudo, que os noviços experimentem a vida solitária na cela e sua austeridade, e ensine-os a prestar-se mutuamente auxílio espiritual com caridade sincera e singela.

É muito proveitoso, certamente, que o novicio se dedique ao estudo e ao trabalho manual; mas não basta que o solitário esteja ocupado em sua cela e persevere laudavelmente assim até a morte; precisa, ademais, outra coisa: o espírito de oração e prece. Faltando o viver com Cristo e a íntima união do alma com Deus, de pouco servirá a fidelidade nas cerimônias e a mesma observância regular, e nossa vida se poderia justamente comparar a um corpo sem alma.

Portanto, nada tenha mais no coração o Mestre do que inculcar este espírito e acrescentá-lo com discrição, para que os noviços depois de sua Profissão se acerquem cada dia mais a Deus e consigam o fim de sua vocação.

Cuide muito o Mestre de ir sempre às fontes de toda vida cristã, aos documentos da tradição monástica e à primitiva inspiração de nossa Ordem. Exponha compridamente o espírito de nosso Pai São Bruno e vele pelas sãs tradições, recopiladas principalmente por Guigo e guardadas fielmente desde o nascimento da Ordem.

A partir do segundo ano, os noviços começarão seus estudos, que serão prudentemente orientados para uma formação ao mesmo tempo monástica e sacerdotal, segundo as normas da Ratio Studiorum. Os monges não sejam promovidos ao sacerdócio até que estejam dotados de suficiente maturidade humana e espiritual, a fim de que possam participar mais plenamente deste dom de Deus."

10 outubro 2010

8 -O novicio

"Quem, ardendo em amor divino, desejam abandonar o mundo e captar as coisas eternas, quando chegam a nós recebamo-los com o mesmo espírito. É, pois, muito conveniente que os noviços encontrem nas Casas onde têm de ser formados, um verdadeiro exemplo de observância regular e de piedade, de guarda da cela e do silêncio, e também de caridade fraterna. Se chegasse a faltar isto, mal se poderá esperar que perseverem em nosso modo de vida.

Aos que se apresentem como candidatos, se os tem de examinar atenciosa e prudentemente, segundo o aviso do Apóstolo São João: Examinai se os espíritos vêm de Deus. Porque é realmente verdadeiro que da boa ou má admissão e formação dos noviços depende principalmente a prosperidade ou a decadência da Ordem, tanto na qualidade como no número das pessoas.

Por isso, os Priores devem informar-se com prudência sobre sua família, sua vida passada e suas qualidades de alma e corpo; pela mesma razão, convirá conferir a médicos prudentes que conheçam bem nosso gênero de vida. Efetivamente, entre as dotes pelas que os candidatos à vida solitária devem ser estimados, tem de contar-se, sobretudo, um juízo equilibrado e são.

Não acostumamos receber noviços antes que tenham começado os vinte anos; inclusive entre os que peça ser recebidos, recebam-se tão só aqueles que, a juízo do Prior e da maioria da Comunidade, tenham suficiente doutrina, piedade, maturidade e forças corporais para levar os ônus da Ordem; e que sejam o bastante aptos, sem dúvida para a solidão, mas também para a vida comum.

Mas convém que sejamos mais circunspetos na recepção das pessoas de idade madura, já que se adaptam mais dificilmente às observâncias e nossa forma de vida; por isso não queremos que alguém seja recebido depois dos quarenta e cinco anos, sem licença expressa do Capítulo Geral ou do Reverendo Pai. Tal licença se requer também para admitir ao noviciado a um religioso paquerado o vínculo da Profissão em outro Instituto, e se se trata de um professo de votos perpétuos, o Reverendo Pai precisa o consentimento do Conselho Geral. Para admitir a alguém unido anteriormente com votos a um Instituto religioso, se nos aconselha ouvir antes ao Reverendo Pai.

Quando se nos apresenta algum com desejos de ser monge do claustro, primeiro se lhe pergunta em particular que motivo e daí intenção o movem a isso. E se realmente se vê que só procura a Deus, se o examina sobre alguns pontos que então é preciso conhecer : se tem a devida formação cultural para um monge que tem de ser promovido ao sacerdócio, se pode cantar e se tem algum impedimento canônico. No entanto, o postulante não poderá iniciar o noviciado até que tenha os suficientes conhecimentos de língua latina.

Cumprido isto, expõe-se ao candidato o fim de nossa vida, a glória que esperamos dar a Deus por nossa união com sua obra redentora, e que bom e gozoso é deixá-lo tudo para aderir-se a Cristo. Também se lhe propõe o duro e áspero, fazendo-lhe ver, quanto seja possível, todo o modo de vida que deseja abraçar. Se ante isto segue decidido, oferecendo-se com sumo gosto a seguir um caminho duro, fiado nas palavras do Senhor, e desejando morrer com Cristo para viver com Ele, por fim se lhe aconselha que, conforme ao Evangelho, se reconcilie com aqueles que tiverem alguma coisa contra ele.

Depois de uma provação de três meses, ao menos, e não mais de um ano, o postulante, numa data determinada, apresenta-se à Comunidade, que dará outro dia seu voto a respeito da admissão.

O novicio, já que vai seguir a Cristo deixando todas suas coisas, entregue ao Prior integralmente o dinheiro e o demais que talvez trouxe consigo, a fim de que não seja ele mesmo senão o Prior, ou o que o Prior disponha, quem o guarde a modo de depósito. Por nossa parte, não exigimos nem pedimos absolutamente nada aos noviços nem aos que querem entrar em nossa Ordem.

O noviciado se prolonga durante dois anos; tempo que o Prior poderá prorrogar, mas não mais de seis meses.

Não se deixe aplanar o novicio pelas tentações que costumam espreitar aos seguidores de Cristo no deserto, nem confie em suas próprias forças, senão mais bem espere no Senhor que deu a vocação e levará a termo a obra começada. "

09 outubro 2010

7 -A abstinência e o jejum

"Cristo sofreu por nós, dando-nos exemplo para que sigamos suas impressões. O que praticamos já aceitando as penalidades e angústias desta vida, já abraçando a pobreza com a liberdade de filhos de Deus e renunciando à própria vontade. Também, segundo a tradição monástica, corresponde-nos seguir a Cristo quando jejua no deserto, castigando nosso corpo e reduzindo-o a servidão, para que nossa alma brilhe com o desejo de Deus.

Os monges do claustro fazem uma abstinência semanal, geralmente a sexta-feira. Esse dia se contentam com pão e água. Em certos tempos e dias fazem jejum de Ordem, no que têm uma só comida.

A penitência corporal não devemos abraçá-la só por obedecer aos Estatutos; está destinada principalmente a aliviar-nos do peso da carne para que possamos seguir com mais presteza ao Senhor.

Mas se em algum caso, ou durante uma temporada, sentisse um que alguma de nossas observâncias supera suas forças, e que mais bem o entorpece do que o impulsiona ao seguimento de Cristo, decida, em filial acordo com o Prior, a mitigação que lhe convém, ao menos temporariamente. Mas, tendo sempre presente o telefonema de Cristo, indague o que está ainda dentro de suas possibilidades, e o que não pode dar ao Senhor pela observância comum, supra-o de outro modo, negando-se a si mesmo e levando sua cruz cada dia. Convém que os noviços se acostumem pouco a pouco às abstinências e jejuns da Ordem, a fim de que tendam ao rigor da observância com prudência e segurança, sob a direção do Mestre. Este os ensinará particularmente a vigiar-se para não faltar à sobriedade à hora da refeição, sô pretexto dos jejuns que têm de observar. Assim aprenderão a reprimir com o espírito as obras da carne, e a levar em seu corpo a mortificação de Jesus, a fim de que também a vida de Jesus se manifeste em seus corpos.

Segundo uma observância introduzida por nossos primeiros Padres e guardada sempre com um zelo especial, renunciamos em nosso propósito ao uso da carne. Observe-se dita abstinência como algo próprio da Ordem e signo do rigor eremítico no qual, com a ajuda de Deus, queremos perseverar.

Nenhum de nós se dê a exercícios de penitência fora dos indicados nestes Estatutos, a não ser com o conhecimento e aprovação do Prior. Mas se o Prior quisesse dar a algum de nós uma mitigação na comida, o sonho ou em alguma outra coisa, ou impor-lhe algo duro e grave, não podemos opor-nos, não seja que ao resisti-lo, resistamos não a ele, senão ao Senhor, cujas vezes faz para com nós. Pois ainda que sejam muitas e diversas as coisas que observamos, não esperamos que nenhuma delas nos aproveite sem o bem da obediência. "

08 outubro 2010

6 -A guarda da clausura

"Desde os princípios de nossa Ordem se pensou que, mediante o estrito rigor da clausura, se expressaria e afirmaria nossa total consagração a Deus. Que grande necessidade devesse mediar para sair fora, aparece suficientemente claro pelo fato de que o Prior de Cartuxa não sai nunca dos termos de seu ermo. Agora bem, como numa mesma Ordem suas observâncias devem guardar-se de um modo uniforme e similar por seus professos, nós, que abraçamos o propósito cartusiano, de onde nos vem o nome de Cartuxos, não admitimos facilmente exceções; mas se alguma necessidade o exigisse, sempre se tem de pedir permissão ao Reverendo Pai, salvo em algum caso urgente e nos demais previstos pelos Estatutos.

O rigor da clausura se converteria numa observância farisaica, se não fora um signo daquela pureza de coração à que unicamente se promete a visão de Deus. Para consegui-la, requer-se uma grande abnegação, sobretudo da natural curiosidade que o homem sente por tudo o humano. Não devemos deixar que nosso espírito se derrame pelo mundo, andando à busca de notícias e rumores. Pelo contrário, nossa parte é permanecer ocultos no segredo do rosto de Deus.

Temos de evitar os livros profanos ou revistas que possam turvar nosso silêncio interior. Particularmente seria contrário ao espírito da Ordem introduzir de qualquer modo no claustro jornais que tratem de política. Ainda mais, os Priores exortem a seus monges que sejam muito parcos nas leituras profanas. Mas esta advertência requer uma maturidade de espírito e um domínio de si mesmo que saiba aceitar sinceramente todas as conseqüências dessa melhor parte do que elegeu, a saber: sentar-se aos pés do Senhor e escutar sua palavra.

Não obstante, a familiaridade com Deus não estreita o coração senão que o dilata e o capacita para abarcar nele os afãs e problemas do mundo, junto com os grandes interesses da Igreja de tudo o qual convém que o monge tenha algum conhecimento. No entanto, a verdadeira solicitação pelos homens deve nascer, não da curiosidade senão da íntima comunhão com Cristo. Cada qual, escutando interiormente ao Espírito, veja que é o que pode admitir em sua mente sem que sofra menoscabo seu diálogo com Deus.

Se chegasse até nós alguma notícia do que ocorre pelo mundo, guardemo-nos de comunicá-la aos demais; deixemos mais bem os rumores do século ali onde os ouvimos. Toca ao Prior informar a seus monges sobre os temas que não convém ignorar, em especial sobre a vida da Igreja e suas necessidades.

Sem verdadeira necessidade, não procuremos ocasião de falar com as pessoas da Ordem e com os demais que as vezes chegam a nossa Casa. Porque não aproveita ao amigo da solidão, firme no silêncio e ansioso da quietude, fazer ou receber visitas sem motivo.

Como está escrito: Honra teu pai e tua mãe, mitigamos um pouco o rigor da clausura para receber a nossos pais e a outros parentes próximos, dois dias ao ano, seguidos ou separados. Pelo demais, a não ser que, por amor do Senhor, nos o imponha uma inevitável necessidade, evitamos a visita dos amigos e as palestras dos seculares. Sabemos que Deus é digno de que se lhe ofereça este sacrifício, que será para os homens mais proveitoso do que as nossas palavras.

Nas Casas da Ordem canonicamente constituídas se guarda estrita clausura segundo a tradição da Ordem. Não se pode admitir dentro da clausura a mulheres. Quando falamos com elas, observamos a modéstia própria de um monge.

Recordem os monges que a castidade pelo Reino dos Céus que professam, tem de estimar-se como dom exímio da graça, pois libera de modo singular seu coração para que mais facilmente possam unir-se a Deus com amor indiviso. Deste modo, evocam aquele maravilhoso conúbio, fundado por Deus e que tem de revelar-se plenamente no século futuro, pelo que a Igreja tem por Esposo único a Cristo. É, pois, mister que, empenhados em guardar fielmente sua vocação, acreditem em as palavras do Senhor e, confiados no auxílio de Deus, não presumam de suas próprias forças e pratiquem a mortificação e a guarda dos sentidos. Confiem também em Maria, quem por sua humildade e virgindade mereceu ser a Mãe de Deus.

Quanto proveito e alegria divina proporcionam a solidão e o silêncio do deserto a quem os ama, só o sabe quem o experimentou.

Aqui podem os homens esforçados recolher-se em seu interior quanto queiram, morar consigo, cultivar sem cessar os germes das virtudes e alimentar-se felizmente dos frutos do paraíso.

Aqui se adquire aquele olho limpo, cuja serena mirada fere de amores ao Esposo e cuja limpeza e pureza permite ver a Deus.

Aqui se vive um lazer ativo, repousa-se numa sossegada atividade.

Aqui concede Deus a seus atletas, pelo esforço do combate, a ansiada recompensa : a paz que o mundo ignora e o gozo no Espírito Santo. "