Bento XVI reza diante da imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira do México, no Colégio de Miraflores, em León
Local onde de quando em vez, qual confessionário, deixarei algumas pegadas dos meus pensamentos Cristãos
29 março 2012
28 março 2012
Da quaresma à pascoa
Monge cartuxo do Mosteiro Scala Coeli, Évora, revela espiritualidade da Quaresma no site do secretariado nacional da pastoral da cultura
Excelentes passagens para leitura e meditação, com o titulo da Quaresma à Páscoa
Vale a pena "perder tempo" para ganhar um pouco da Vida eterna
15 março 2012
Os "excluidos" também vão à missa
Segunda-feira dia 5 de março de 2012.
Era sensivelmente oito da noite. Foi a última reunião preparatória da romaria. Estavam presentes cerca de 20 irmãos, sendo que quatro tinham vindo da Graciosa, para além do Padre, seu pároco.
Estávamos a aguardar que o Padre se paramentasse para celebrar a sagrada eucaristia, quando entrou um homem, não muito velho mas, gasto pelo aparente uso em demasia de bebidas alcoólicas. Entrou um pouco a cambalear em direção à sacristia, no intuito, julgo eu, de pedir algum apoio ao Padre que ali é responsável e foi-lhe dito que não estava.
Saiu em direção à porta.
O Padre entretanto dirigiu-se à capela do sacrário para ali celebrar o santo ofício com os irmãos presentes, como é habitual, quando pode estar presente.
Começou a celebração e com eles, “esse homem, não muito velho mas, gasto pelo aparente uso em demasia de bebidas alcoólicas” acompanho-os na cerimónia. Mesmo na aparente falta de alguma lucidez, esteve ali, quieto, calado e com atenção, se calhar até com mais atenção do que muitos quando “vão” à missa.
Quando chegou o momento de comungar, ordeiramente, também comungou. A celebração continuou. Chegou ao fim e, também ele fez o sinal da cruz e aí, dirigiu-se para a saída da igreja.
Pobre homem, pensei eu, mas lá no fundo, fez mais do que muitos de nós, seguramente. Lá no fundo, seguramente a fé dele, apesar de debilitada pelos caminhos que tem vindo a percorrer nesta vida, algo ou Alguém o chamou para ali estar, assistir e sobretudo participar, coisa que muitos de nós, possivelmente não o fazemos, muitas vezes.
Peço a Deus que, esse homem, não muito velho, mas gasto pelo aparente uso em demasia de bebidas alcoólicas, tenha visto, ainda que debilmente, a Luz que Deus emanou e o iluminou naquele dia, tenha sentido o calor do Amor de Jesus e o sopro do Espirito Santo na sua alma.
No dia seguinte estava lá novamente, no entanto, talvez por ter mais pessoas, não passou da porta. Talvez porque esse homem, não muito velho, mas gasto pelo aparente uso em demasia de bebidas alcoólicas, mas com sentimentos, iria sentir-se marginalizado (duplamente) com os eventuais olhares reprovadores de algumas dessas pessoas, excluído como os demais semelhantes a ele.
06 março 2012
Romaria
Desta madrugada que se aproxima e até ao próximo domingo dia 11, irei estar (juntamente com os restantes irmâos) em "retiro ao ar livre" pelos caminhos desta ilha "apenas" orando. Como diria Gaspar Frutuoso "saudades do céu"
01 março 2012
Jesus de Nazaré e as mulheres
Hoje um colega de serviço, sabendo que eu estava interessado (mas não por agora) ofereceu-me este livro. Sobre o mesmo poderá ser lido aqui. Agora é colocá-lo na mesa de cabeceira para ir lendo nestas noites frias.
29 fevereiro 2012
Duas meras anedotas ou dois ensinamentos cristãos?
Num cursilho de homens dos Açores, ocorrido há algum tempo atrás, um dos novos cursilhistas contou 2 anedotas, as quais, na altura e no meu modesto entender beiravam o ridículo/cúmulo, mas que tinham alguma graça, bem lá no fundo.
Uma delas contava “a história sobre um sonho que uma criança tinha tido e que pela manhã ao pequeno-almoço resolveu partilhar com os pais. Dizia ele aos pais, muito pausadamente e com uma dicção digna de registo, que no seu sonho era proprietário de uma prancha de surf amarela. Assim, pedia encarecidamente ao pai que lhe concretizasse o sonho com a compra da dita prancha amarela. Após um curto silêncio, ainda que para a criança possa ter sido uma eternidade, o pai respondeu-lhe:
- Vou-te oferecer um pente.”
A outra anedota, por sinal mais curta e concisa, “tinha a ver com 2 grãos de areia que estavam a apanhar sol numa praia deserta. Passado algum tempo repararam numa nuvem de grãos de areia que se aproximava a alta velocidade e resolveram fugir.”
Após pensar um pouco sobre elas, dei-me conta que o Espírito Santo sopra onde quer, ou seja, para além de terem sido contadas como anedotas, ambas traziam uma mensagem/ensinamento cristão. Ambas, ainda que aparentemente ridículas, ao entrarmos no fundo das mesmas, ambas têm muito sumo para se espremer e beber, senão vejamos:
- Quanto à primeira, quantas vezes não somos aquela criança que tem sonhos destes, isto é, “sonharmos acordados”, com desejos supérfluos e banais, quando o essencial Deus já nos deu.
- Quantas vezes pedimos-Lhe uma prancha de surf amarela e nem sequer sabemos nadar ou pôr-nos em pé na mesma.
- Quantas vezes Deus dá-nos “apenas” um pente, mas no entanto, é o que realmente precisamos é o que realmente nos faz falta já que, sem nos apercebermos, temos o cabelo todo despenteado e somente Ele se apercebe disso.
São inúmeras as alturas em que Lhe pedimos “mundos e fundos” e a resposta parece tardar em chegar, como se a distância entre nós e Ele fosse imensamente longa. A distância é imensamente pequena, diria sem exagero algum, quase microscópica porque, o tempo de Deus, ao contrário do que possamos pensar, não é igual ao nosso e, anos para nós poderão ser uma mera fracção de segundo para Ele.
Deus dá-nos sempre à medida das nossas necessidades, “nunca mais do que” ou “menos do que”, apenas o quando baste, e é nesse “quanto baste” que por vezes discordamos com Ele, ainda que pesamos pausadamente e com a tal dicção digna de registo.
Quanto à segunda, dois grãos de areia numa praia deserta, seria um contra censo já que uma praia, ainda que deserta, tem milhões de grãos de areia e não apenas dois, no entanto, após alguma reflexão, julgo perceber que os “dois grãos de areia no meio de uma praia deserta” somos todos nós, aqueles que remamos contra a maré. Somos todos nós, aqueles que em nome de Cristo apregoamos a boa nova, e ainda que sejamos poucos (quais 2 grãos de areia) e estejamos a apanhar sol (estar na graça de Deus), não devemos, nem podemos fugir ao primeiro momento que vejamos uma nuvem a chegar (contradições e opiniões duvidosas referentes ao Evangelho). Afinal de contas Cristo, Aquele que seguimos, não arredou pé à maior nuvem de grãos de areia de todos os tempos e esteve sempre a “apanhar sol numa praia deserta” até ao derradeiro momento, ainda que por breves momentos, tenha-se sentido abandonado pelo Pai. Nessa altura, nesse momento e nesse instante, a praia estava quase deserta, apenas alguns grãos de areia permaneciam ao pé, aqueles poucos grãos que Lhe eram mais próximos, no entanto, tudo começou com esses poucos grãos.
Quanto à segunda, dois grãos de areia numa praia deserta, seria um contra censo já que uma praia, ainda que deserta, tem milhões de grãos de areia e não apenas dois, no entanto, após alguma reflexão, julgo perceber que os “dois grãos de areia no meio de uma praia deserta” somos todos nós, aqueles que remamos contra a maré. Somos todos nós, aqueles que em nome de Cristo apregoamos a boa nova, e ainda que sejamos poucos (quais 2 grãos de areia) e estejamos a apanhar sol (estar na graça de Deus), não devemos, nem podemos fugir ao primeiro momento que vejamos uma nuvem a chegar (contradições e opiniões duvidosas referentes ao Evangelho). Afinal de contas Cristo, Aquele que seguimos, não arredou pé à maior nuvem de grãos de areia de todos os tempos e esteve sempre a “apanhar sol numa praia deserta” até ao derradeiro momento, ainda que por breves momentos, tenha-se sentido abandonado pelo Pai. Nessa altura, nesse momento e nesse instante, a praia estava quase deserta, apenas alguns grãos de areia permaneciam ao pé, aqueles poucos grãos que Lhe eram mais próximos, no entanto, tudo começou com esses poucos grãos.
Termino citando um pensamento de Madre Teresa de Calcutá, adaptado para a situação: “Podemos ser poucos grãos de areia, mas sem eles, a praia seria mais pequena”.
28 fevereiro 2012
27 janeiro 2012
20 janeiro 2012
17 janeiro 2012
Eu, pecador me confesso! (Inúmeras vezes como cristão farisaico)
«Eu creio! Ajuda a minha pouca fé!»
Por vezes sentimos a necessidade de, por palavras semelhantes, recitar esta oração, qual pai à beira do filho doente. A fé que tanto cremos e apregoamos imensas vezes (talvez em demasia) é tremendamente leve e suave que, uma ligeira brisa é o suficiente para a levar para longe, como se fosse uma folha ou uma pena.
Quantos de nós, que batemos fortemente no peito “Por minha culpa, minha tão grande culpa (…) e a vós irmãos que rogueis por mim a Deus nosso senhor” e no entanto, nunca rogamos pelos nossos irmãos, mas ansiamos que eles roguem por nós?
Inúmeras são as vezes que os sacerdotes falam dos fariseus relatados na bíblia e nós, olhamos para o lado, como cristãos íntegros e puros, no entanto, se a nossa santidade não for maior que a dos escribas e fariseus, não entraremos no reino dos céus. Quando Cristo disse isto, possivelmente temia pela degradação das almas dos seus apóstolos, religiosas certamente mas eventualmente doentes na fé. Estas almas religiosas mas doentes na fé são a principal característica do fariseu. Hoje, muitos homens têm uma espécie de fé sem religião, mas ao mesmo tempo, entre nós cristãos, encontramos com frequência, uma religião sem fé. É por isso que o cristão fariseu não compreende que a santidade exija o penetrar nas camadas mais profundas da vida de oração, sem se ficar no limiar dela, satisfeito com meia dúzia de orações mais ou menos bem alinhadas, somente eficazes em momentos de urgência.
Por vezes, durante esta passagem não passamos disso, por vezes a nossa pureza aparente consegue ser suplantada pela nossa sujidade real, seja através de pensamentos e palavras, atos e omissões mas, por nossa culpa, nossa tão grande culpa.
Eu, pecador me confesso!
Então qual é a definição de fariseu?
Segundo a Enciclopédia Católica Popular, os fariseus foram uma “Seita religiosa surgida no Judaísmo por volta do séc. II a.C., constituída por leigos versados nas Escrituras e na Lei de Moisés, interpretando-as à letra e impondo o seu rigoroso cumprimento.(…) O orgulho, a hipocrisia e a estreiteza de vistas dos fariseus mereceram as censuras de J. C. e levaram-nos a exigir de Pilatos que O crucificasse. (…) No entanto, houve fariseus amigos de J. C., entre os quais Nicodemos, Gamaliel e, depois de convertido, S. Paulo.”
Desta explicação retenho “O orgulho, a hipocrisia e a estreiteza de vistas”. Tantas vezes que agimos assim, e no nosso íntimo, muitas vezes conseguimos ouvi-Lo censurar-nos e outras tantas, interpretamos à letra as Escrituras, quando a sua interpretação deve ser feita de outras maneiras, menos à letra.
Tudo isto leva-me a pensar na parábola do fariseu e o cobrador de impostos que se encontravam no templo , onde o primeiro, estando de pé dava graças por não ser como os demais homens, em particular ao publicano que ali também se encontrava, e o segundo, sem levantar os olhos e batendo no peito, assumia que era pecador.
Quantas vezes não somos o primeiro e quantas vezes seremos realmente o segundo?
Eu, pecador me confesso!
Sem querer ser mais que os outros (muito pelo contrário), por vezes sinto-me como Zaqueu, procuro ver Jesus mas não consigo por causa da multidão à minha volta. Não a multidão mencionada na passagem bíblica, mas sim a multidão de tudo aquilo que há nossa volta nos distrai do essencial e nos abafa do principal. A minha estatura também é pequena, não a física, mas sim as minhas limitações pessoais. Olhando deste ponto de vista, a minha estatura seguramente é mais pequena ainda porque, ele procurava ver Jesus, ao ponto de ter subido a uma árvore, quanto a mim, algumas vezes deixo-me ficar no meio da multidão. Todos nós ansiamos que Ele entre nas nossas casas e nos diga: «Hoje veio a salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão; pois, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido» . Todos nós queremos ser salvos mas, quantos de nós realmente queremos que Ele entre em nossas casas?
Eu, pecador me confesso!
Com a minha humildade possível gostaria de, ao menos ser o pobre citado em “Um minuto com Maria” , que estava a rezar, consciente da sua pobreza. Dizia ele a Deus: "eu não sou digno de entrar no teu Reino, mas, por tua Misericórdia, sei que tu não podes fechar-me a porta. Eu só te peço o último lugar na tua casa", ao qual Jesus respondeu-lhe: "concedo-te o último lugar. Assim, tu estarás ao lado de Minha Mãe".
«Eu creio! Ajuda a minha pouca fé!»
11 janeiro 2012
14 dezembro 2011
O caminho faz-se Caminhando
“Coincidência é a maneira que Deus usa para permanecer anónimo” Albert Einstein
Começo este modesto artigo com o curto pensamento acima citado, mas ao mesmo tempo de uma enorme profundidade na sua essência.
Há dias atrás, quando estava a criar o presépio lá de casa com a família, entre outras coisas acabámos por fazer um pequeno caminho de farelo, no qual nada chegamos a pôr. Não foi propositado, mas sim porque não tínhamos mais peças. Ficou assim um caminho isolado, solitário e despido.
Por mera coincidência veio-me à ideia de ali recriar a passagem bíblica narrada em São Lucas 24 “O caminho de Emaús”. Para isso bastaria adquirir três peças alusivas, o que por aqui não é muito fácil, atendendo ao facto de que quase só se venderem as peças tradicionais. Por mais outra coincidência, uma tabacaria local tinha à venda peças de presépios diferentes das tradicionais, provenientes de sobras de outros anos ou, eventualmente, de revistas de coleção. Coincidência ou não, tinha apenas duas figuras diferentes que se adequavam ao papel de discípulos, ficando assim a faltar a figura de Cristo que, numa outra rua, e dentro de uma cestinha de peças de todos os tipos, lá estava Ele sozinho, como que à minha espera.
À noite, o caminho isolado, solitário e despido, ficou cheio de luz, cor e alegria, apenas com aquelas três peças. Fiquei com um ligeiro sorriso nos lábios a admirar o resultado e sentia-me bem por ter conseguido encontrar tão facilmente as peças que precisava.
Ali fiquei algum tempo a imaginar a passagem bíblica narrada em São Lucas . O que Jesus disse ou terá dito aos discípulos e aquilo que eles ouviram e sentiram com a Sua presença e as Suas palavras.
Novamente veio-me à ideia o que significaria realmente o Caminho de Emaús, para além do que está escrito.
A primeira ideia que me ocorreu foi a de que não é somente uma passagem bíblica em que quase sempre dizemos “naquele tempo”, mas sim, que este caminho foi, é e será sempre atual. Basta nós abrirmos os olhos para Ele, aliás, em Cristo todas as coisas são novas, basta querermos ouvi-lO no caminho da vida, no nosso caminho de Emaús. Depois, e por acréscimo comecei a pensar no resto desta fabulosa passagem.
“Nesse mesmo dia, dois dos discípulos iam a caminho de uma aldeia chamada Emaús, que ficava a cerca de duas léguas de Jerusalém; e conversavam entre si sobre tudo o que acontecera.”
Caminhar foi a palavra que retive. O que muitas vezes nos custa, é levantarmo-nos do conforto aparente e virtual desta vida e começar a trilhar esse caminho verdadeiro e real. Caminhar com Ele, lado a lado. Que alegria seria se o fizéssemos constantemente.
“Enquanto conversavam e discutiam, aproximou-se deles o próprio Jesus e pôs-se com eles a caminho; os seus olhos, porém, estavam impedidos de o reconhecer.
Disse-lhes Ele: «Que palavras são essas que trocais entre vós, enquanto caminhais?» Pararam entristecidos. E um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único forasteiro em Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias!» Perguntou-lhes Ele: «Que foi?» Responderam-lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; como os sumos-sacerdotes e os nossos chefes o entregaram, para ser condenado à morte e crucificado. Nós esperávamos que fosse Ele o que viria redimir Israel, mas, com tudo isto, já lá vai o terceiro dia desde que se deram estas coisas. É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deixaram perturbados, porque foram ao sepulcro de madrugada e, não achando o seu corpo, vieram dizer que lhes apareceram uns anjos, que afirmavam que Ele vivia. Então, alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas, a Ele, não o viram.”
Que bom seria se O ouvíssemos verdadeiramente. Se realmente quiséssemos conhece-lO, escutar a Sua história e compreender o que nos quer transmitir. Ontem, como hoje e amanhã, sermos permanentemente estas duas personagens desse caminho, no nosso modo de estar e ser. Na verdade, inúmeras vezes somos nós os únicos forasteiros a ignorar o que realmente se passou ou a querermos ignorar.
“Jesus disse-lhes, então: «Ó homens sem inteligência e lentos de espírito para crer em tudo quanto os profetas anunciaram! Não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na sua glória?» E, começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que lhe dizia respeito.
Ao chegarem perto da aldeia para onde iam, fez menção de seguir para diante. Os outros, porém, insistiam com Ele, dizendo: «Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso. Entrou para ficar com eles.”
Muitas vezes sentimo-nos lentos de espírito porque achamos que Cristo não está connosco, quase como se fosse uma ausência de Deus nas nossas vidas, no entanto, tudo muda quando O (re) descobrimos no irmão ao nosso lado, na simplicidade perfeita da natureza ou no silêncio com Deus. Quando isso acontece, quando sentimos novamente Cristo em nós, sentimo-nos felizes e com vontade de mudar o Mundo. Sinto que Cristo em nós faz-nos mudar de atitudes, mais atentos aos que nos rodeiam, a quem atendemos (no serviço por exemplo) e mais disponíveis para amar o próximo…começando nos nossos. Julgo e sinto que, de nada valerá “amar o próximo”, se o primeiro próximo, não for aquele ou aquela que é sangue do nosso sangue, descendente ou ascendente, direto ou indireto, ou que, não sendo nada disto, está mais próximo de nós. De que valerá amar o próximo, por vezes um estranho quem nem conhecemos, se dentro das quatro paredes das nossas casas, alguém passa fome ou sofre de solidão?
“Levantando-se, voltaram imediatamente para Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os seus companheiros, que lhes disseram: «Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!» E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão.”
Quantas vezes, não nos sentimos impelidos pelo Espírito Santo, a ter vontade e a necessidade primária de voltar a Jerusalém e contar a todos que Cristo está vivo e vive em nós? Tantas, mas tão poucas ainda para as que devia ser.
“E, quando se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho. Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no; mas Ele desapareceu da sua presença. Disseram, então, um ao outro: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?”
O nosso olhar (tantas vezes que é assim), cego com as luzes do mundo, do barulho ensurdecedor do ruído que fazemos para não ouvir a voz de Deus, no entanto é, quando a cegueira passa, que descobrimos Cristo e o Seu modo de nos fazer ver e sentir as coisas à nossa volta, que nos faz continuar a caminhar escutando a Sua palavra e tornando-nos assim, quase como aqueles dois apóstolos…um ardor no coração enquanto o Ouvimos.
Coincidência ou não, desejo que este pequeno caminho de farelo aqui exposto, possa ser para todos o princípio de uma outra maneira de caminhar nesta vida, caminhando lado a lado com Cristo. “Um caminho que poderá ser duro mas, tirai a santidade à cruz e ter-lhe-eis tirado a sua força avassaladora. Ter a coragem de proclamar a dificuldade do caminho é, simplesmente, pôr em evidência a altura do cume que se pretende atingir: alvorada para os homens generosos, incitamento para os humildes, coroa para os que têm esperança.” …um caminho de Emaús.
12 dezembro 2011
06 dezembro 2011
29 novembro 2011
A inclinação do rosto de Cristo crucificado
Confesso que nunca me tinha apercebido, conscientemente, do facto do Cristo crucificado ter o rosto virado para o lado direito, até ao dia em que vi O da fotografia.
Foi durante uma cerimónia ocorrida na Igreja da Vila de São Sebastião, pelos bodos deste ano, que me apercebi do Cristo da foto acima e, com as luzes a incidirem n`Ele, a estrondosa “revelação” que me transmitia. Ainda que inclinado para a direita, as sombras originadas pelas luzes, mostram-me que Ele, tanto virou o rosto para a direita como para a esquerda, tendo entregue o espírito quando estava virado para a direita.
Esta imagem transportou-me à 11ª estação da Via-sacra e à sua mensagem:
(Jesus é pregado na cruz) – “Com Ele foram também crucificados dois ladrões. Um insultava-o dizendo-lhe “Não és Tu o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós também.” Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo que as nossas ações mereciam, mas Ele nada praticou de condenável.”
Parei um pouco para pensar e meditar nesta passagem bíblica, na qual nos é narrado que Cristo foi crucificado juntamente com dois ladrões, um à direita e outro à esquerda . Um insultando-O, o outro aceitando o castigo. No entanto este último continua dizendo-Lhe:
“- Jesus, lembra-te de mim, quando estiveres no teu Reino. Ele respondeu-lhe: - Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.”
A simplicidade, a verdade e o sentir que Cristo era realmente o Messias, de um, contrasta com a arrogância e o desprezo do outro, quase como (diria eu) um “confronto” entre o bem e o mal. Assim cumpria-se o que estava escrito.
Voltando ao início deste devaneio exacerbado, e perante a “revelação” ali exposta, a mim e a todos aqueles que se aperceberam, veio-me ao pensamento a seguinte passagem:
“ E inclinando a cabeça, entregou o espírito.”
Como mero leigo entre os demais, e após ter contactado com 2 ou 3 sacerdotes, nada em concreto me foi dito do porquê da inclinação para a direita e, em certa medida, essa falta de explicação bíblica sobre a inclinação da Sua cabeça, leva-me novamente ao encontro revelante da sombra projetada pelas luzes. Um Cristo que se inclinou para os dois lados, para os dois ladrões. Um Cristo que, tendo sentido que um deles acreditava n `Ele, perdoou-Lhe todas as suas ações e prometeu-Lhe a entrada no Paraíso nesse mesmo dia. Quanto ao outro, não acreditou que estava perante o Messias, o Redentor. Para este, Cristo era apenas mais um criminoso, mais um que recebia o seu castigo na Cruz.
Sinto que no momento derradeiro, quando exclamou: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.” (mesmo antes disso seguramente), deve ter olhado constantemente para o ladrão que não acreditava N`Ele, esperando que, mesmo no seu derradeiro suspiro, O aceitasse como sendo O Filho daquele que é . Esse ladrão era o que estava pregado ao seu lado direito. “Dito isto, expirou”.
Ontem como hoje, continua com o rosto inclinado para a direita, inclinado para aqueles que não crêem n`Ele, esperando pacientemente que, antes do derradeiro momento, essas pessoas apenas lhe digam:
“ – Jesus, lembra-te de mim…”
25 novembro 2011
24 novembro 2011
Somente...79
A separação aconteceu
Sem dor ou aviso prévio
Sem dor ou aviso prévio
E partiste para donde vieste
Com um sorriso no coração
Aqueles que sempre te amaram
Uma lágrima presa nas almas ficou
Memórias boas perdurarão
Até ao reencontro por Ele prometido
Família, berço de tudo e de todos
Em união saberão ultrapassar
A partida física do seu ente querido
Permanente nos olhos chorosos
A vida é uma experiência terrena
No relacionamento com os outros
Que crescerá onde existir Amor
Qual minúsculo grão de mostarda
A essência aprisionada
Libertou-se e partiu
Atrás ficou o seu perfume
Nos familiares, impregnado.
Palavras simples aos familiares de uma colega de serviço.
18 novembro 2011
17 novembro 2011
Carta a um amigo preso numa cela que está dentro dele
"Os comboios têm uma característica que nenhum outro meio de transporte tem. Podem andar para trás. Ou melhor, têm bancos que permitem ao passageiro viajar de costas para o sentido da viagem. Como eles, talvez só os barcos, na altura em que desembarcam de qualquer porto, e os passageiros se debruçam no convés, à ré, a contemplar o percurso da ausência.
Mas os comboios são especiais. Naquelas cadeiras, a paisagem vira-se ao contrário. Eu nunca estou a chegar, estou sempre a partir; nada se aproxima de mim, todas as coisas fogem, as paisagens, os postes, as pessoas. Todas as coisas começam, de repente, grandes, e acabam por diminuir, tornar-se minúsculas, irreconhecíveis, ínfimas, nada.
Não te consegui ajudar. Não quiseste ensinar-me a ajudar-te. Ainda não sei porque é que, quando atravesso a tua cidade, perto da tua casa está sempre a chover. Na tua cidade, nos meandros da estação, há sempre um rapaz gordo, de passos lentos e pés solenes, agarrado a um guarda-chuva que nunca condiz com a roupa, sempre à espera. Se calhar à espera de uma rapariga, que se calhar gosta dele só como amiga, e se calhar nunca lhe apareceu, nem lhe aparecerá, e ele vai ficar ali, sempre à espera, a acreditar. É também na tua cidade que há um mendigo sentado num degrau sujo da rua mais deserta, e ele acredita, acredita, acredita, que lhe hão-de encher o copo de esmolas, apesar de estar na rua mais vazia, na noite mais escura, sob a espessa chuva.
Acho que tu vives numa das «Cidades Invisíveis» de Italo Calvino. Aquela que está dividida em duas partes: metade é a cidade monumental, cheia de indústria, comércio, serviços e ruas calcetadas. A outra metade é um imenso parque de diversões. Quando os habitantes se cansam das diversões desmontam metade da cidade: os monumentos, as indústrias, o comércio, os serviços, as ruas calcetadas, e vão construí-la noutro lugar. Se calhar perto de um outro enorme parque de diversões.
E tu tens pesadelos, acordas, de noite, a suar, porque aqueles que construíram a tua casa a desmontaram agora, pedra a pedra. Querias que tudo mudasse menos os teus alicerces, os teus pilares, o quarto onde descansas.
É por isso que costumas chorar, mas de uma forma que ninguém nota, tão delicadamente que as pessoas pensam que estás a sorrir, ou até a contar uma anedota brejeira. Mas eu dei por isso que choravas para dentro e sou mais culpado do que todos os outros porque soube, dei por isso, e ri com as tuas anedotas e o teu sorriso. Mesmo que te zangues com alguém, ninguém dá por isso, porque sorris. E até acho que morres de saudades de alguém só quando ele está perto de ti. Que mundo é o teu? Construímos pontes para serem belas e nunca atravessadas? Porque é que te foram roubar os alicerces da tua casa, pedra a pedra, até que ela foi desmoronando aos poucos, quase sem dares por isso?
Quando comprei o bilhete de partida, na estação onde está o rapaz gordo, de pés solenes, longe do mendigo que ainda acredita com o copo vazio, quando comprei o bilhete para sair da tua cidade invisível, pedi um lugar daqueles que andam ao contrário. O bilheteiro olhou para mim com ar de quem olha para um coala e perguntou se eu tinha a certeza. Eu disse que não, mas queria por força um desses lugares.
A única certeza que eu tinha é que, durante aquela viagem, eu não te voltaria as costas. Estou agora sentado no comboio. Vi-te, nitidamente, no apeadeiro da cidade ausente. Vi-te ficares para trás, mais pequeno, minúsculo, ínfimo. Sempre com a certeza de que eras tu. Porque, se à chegada se começa a ver um ponto irreconhecível e se o vai conhecendo à medida que se aproxima, à partida, mesmo que se não veja, sabe-se quem lá está sempre. À chegada há a esperançosa dúvida. À partida, a amarga certeza. A curva tirou-te da vista, a distância pôs-te longe demais, até a curva da terra quase nos colocou em hemisférios diferentes. E tu podes ter ficado a pensar que eu parti para outra. Mas eu juro que não te voltei as costas."
Artigo publicado no jornal de hoje "A União"
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