16 dezembro 2010

O ROSARIO - 6

O «BILHETE-SOCORRO» DE DOMINGOS DE PRÚSSIA



Na Primavera de 1409, os Cartuxos de Tréveris elegeram como prior Adolfo de Esser, embora fosse o mais jovem entre eles. No mesmo ano, nos fins do Outono, um estudante pediu para ser admitido no convento. Fisicamente e psiquicamente ele estava sem forças, embora a morte lhe parecesse próxima. O Prior, a quem ele agradava apesar de tudo, enviou Domingos (1384-1460) a um piedoso Padre Carmelita, seu amigo, o bispo auxiliar de Tréveris, Comado de Altendorf (†1416). Este, depois de o ter ouvido em confissão - uma confissão geral de toda a sua vida - recomendou o vagabundo ao Prior: o que levou o Padre Adolfo a intervir em seu favor junto da comunidade. Foi assim que Domingos entrou no noviciado.
Anos antes, os seus condiscípulos de Cracóvia tinham formulado sobre Domingos um juízo muito apropriado: se as mulheres e a paixão do jogo não o destroem, ele dará um excelente clérigo - bem entendido na medida em que isso é possível na nossa universidade. De fato, por toda a parte onde a juventude se reúne, ele - o filho de um pescador - tornou-se depressa o «mestre de prazer».
Ele ocupou vários cargos bem retribuídos, como preceptor, notário e mestre de escola. Mas após um certo tempo, desaparecia de novo, para fugir às suas dívidas de jogo. Entretanto fez um pedido para entrar nos cartuxos de Praga. Foi recusado por causa da sua inconstância... Ora agora, dois anos depois, na altura em que ele está muito fatigado, muito deprimido, encontra-se com o Prior para o aceitar; um Prior que lhe assegura que comprometia a sua alma para o salvar, com duas condições: se ele aguenta e se ele aceita fazer o que a Ordem lhe imporá. Adolfo confiou o noviço aos cuidados do P. Pedro Eselweg.
É nesta situação, que acabamos de descrever, que o P. Adolfo pôs o seu aluno ao corrente da sua nova maneira de rezar, que ele chamava «Rosário»; isso soou como um cântico de amor. Inesquecíveis permaneceram estas palavras que ele acrescentou em seguida: «Não é possível que exista um homem tão corrompido que não consiga uma séria emenda da sua conduta, se recita esse Rosário durante um ano!»
A partir desse momento, Domingos entregou-se de todo o coração a essa oração, mas sem sucesso. Em vão recomeçou. Não conseguia concentrar-se; de tal modo estava enfraquecido.
Então teve uma idéia - era durante o advento de 1409 - a idéia de resumir numa folha «a vida de Jesus» em 50 pequenas frases, que serviriam cada uma, por seu turno, para a meditação durante a recitação das 50 Ave. Graças a «esta invenção» conseguiu enfim meditar.
Na sua alegria, revelou imediatamente aos seus companheiros, os outros noviços, «a astúcia», que lhe abriu os caminhos da oração. E bem depressa o Prior aprendeu-o também ele. Domingos admirou-se que o P. Adolfo pudesse considerar com tanta seriedade «esta futilidade».
Este último, com efeito, tinha compreendido imediatamente que ajuda preciosa o método podia trazer às pessoas incapazes de rezar à maneira atual da duquesa e da sua. E para que a vantagem não se perdesse, pediu uma cópia do bilhete. Quando mais tarde, Domingos não cedia, então muito simplesmente Adolfo obrigou-o a transcrever outros bilhetes.

Divulgado por mais de mil exemplares através do mundo

Nunca Domingos duvidou que 50 anos mais tarde, ao recordar, escreveria semelhante verificação. Para já estava contente por ter descoberto uma maneira de rezar o Rosário. Mas o seu caráter instável incitou-o depressa a tomar a procurar outras formas de oração, que poderiam por acaso - como ele pensava - ser mais dignas da «Rainha dos Céus». Ainda noviço, Domingos pôs-se a compor como jogo de criança, com e sob forma de orações, uma espécie de «cerimonial de corte» para corte principesca, em honra da Mãe de Deus. Algum tempo depois, pôs-se com ela a querer «educar e cuidar do Menino Jesus». Enfim, compôs - em paralelo com o «demasiado humilde Rosário» - uma oração que, sem comentário, se tornou inacessível aos seus amigos, que não conheciam a sua mania dos anos vagabundos: a Alquimia. A redação desse comentário tomou-lhe sete anos (1432-1439). Tornou-se a sua obra mestra e estranha: «A coroa de pedras preciosas para a Virgem Maria».
Tudo isso revela que Domingos não teve, sem dúvida nunca, uma visão de conjunto do Rosário. Começou somente a duvidar de qualquer coisa, quando, após a morte de Adolfo, vítima da peste, selecionou os seus papéis. Antes estava admirado, até mesmo irritado algumas vezes, quando Adolfo e um número crescente de confrades e de estrangeiros o solicitavam para outras cópias. Ele passou anos de solidão e de fraqueza. Quando verdadeiramente não é capaz de satisfazer os pedidos, os seus confrades ajudaram-no. Embora cada exemplar fosse submetido a uma censura rigorosa, antes de deixar a cartuxa, o texto, já em vida de Domingos, sofreu variantes.

Mas de que provinha este pedido?

 O Rosário no contexto da reforma religiosa do século XV

O Concílio de Constança (1414-1418), com a eleição de Martinho V (1417-1431), restabeleceu a unidade da Igreja e favoreceu a reforma beneditina. Na mesma época por três vezes, Adolfo de Esser era eleito abade de importantes abadias. Mas ele recusou sempre, apesar da intervenção insistente do Arcebispo de Tréveris, Otto de Ziegenhair (14181430). Mas quando o seu irmão em religião, João Rode foi designado para o cargo de abade de S. Matias em Tréveris (1421-1439) e este lhe pediu para o acompanhar nas suas viagens e para o apoiar discretamente nas suas reformas, então Adolfo aceitou. É a esta atividade oculta que é preciso atribuir o fato que no princípio - além dos Cartuxos - foram os Beneditinos os mais importantes propagandistas e intérpretes das 50 pequenas frases do Rosário de Domingos de Prússia.
Numerosos códices, por exemplo, os da Abadia de Tegernsee, mostram como esta maneira bíblica de rezar foi usada para renovação espiritual. De lá, ela estendeu-se a outras abadias da Alemanha do Sul.
Até então o Rosário era uma oração altamente pessoal e individual.
Alguns 25 anos após a morte de Adolfo, começou-se a recitá-Io em comunidade, no Norte da França, sem se duvidar que a oração de massas possa sujeitar-se a outras leis psicológicas diferentes das da oração individual. A massa nivela e aplana. Isto devia verificar-se, agora que o Rosário de Domingos é retomado pela Confraria do Rosário.
Eis como isso se passou: logicamente, em três etapas.

15 dezembro 2010

O ROSARIO - 5

Adolfo de Esser, o primeiro devoto do Rosário


Os registros da cartuxa da época chamam-no: "Adolphus de Assindia" (cerca 1375-1439). Assim é designado o seu nome de batismo - os nomes em religião não existem ainda - e o seu lugar de origem. Ele é oriundo do Principado das Nobres Senhoras Cônegas isentas de Esserl Ruhr. Da sua vida anterior e sobre a sua família não fez - como bom cartuxo - nenhuma revelação, o que não facilita as investigações.
Não se deve atribuir a sua profunda devoção para com a Santíssima Virgem à influência da sua mãe; o único episódio conhecido da sua juventude no-lo prova. E se ele teve uma entrada tão rápida na corte de Lorraine, não é porque estivesse habituado a mover-se em meio nobre e fosse, apesar da sua juventude, uma personalidade particularmente madura.
Todos os fatos concordam e provam que Adolfo pertencia a uma família da velha nobreza, da região de Colônia, que exercia desde há séculos a função de magistrado, isto é, o mais alto cargo do Principado de Esser.
Na corte ducal de Guilherme Von Berg (†1408) Adolfo gozava da consideração e da confiança do Duque e da sua esposa, que era Ana de Baviera, e que fundou em 1407 em Dusseldorf «a Fraternidade das Alegrias de Nossa Senhora para as Irmãs e Irmãos do Rosário».
Além disso, Adolfo fez provavelmente estudos de direito na jovem universidade de Colônia. Quando entrou em região, ele tinha pelo menos o titulo universitário de «Bacharel em Artes». O seu estilo oratório revela como está próximo do povo, apesar da sua formação universitária. Muito cedo ele poderia ter adotado de um convento de devotas de Esser, sem dúvida pelos bons cuidados dum cônego, a sua maneira popular de recitar as 50 Ave. .
E se ele pôde tão facilmente socorrer a duquesa de Lorraine na sua aflição, é porque ele antes, numa situação trágica, teve de recorrer a esta forma de piedade bíblica, que não abandonará jamais até à sua morte.
Uma confidência durante o último ano de vida revela ao mesmo tempo quais foram as necessidades e a graça desta hora: «Eu não podia de maneira nenhuma ser ajudado, se Deus não se tivesse feito homem! Eu não teria sabido onde e como encontrar Deus. É por isso que eu tenho tanta consideração pela natureza humana e a vida terrestre de Cristo».
Isso aconteceu quando? Segundo Modesto Leydecker, historiador da cartuxa de Tréveris em 1765, a causa imediata da entrada de Adolfo na Ordem teria sido provocada por uma repentina epidemia de morte massiva.
A decisão, portanto, tinha amadurecido lentamente, com as preocupações que lhe causava a sua mãe e também por causa dos acontecimentos vividos na corte do Duque de Berg. Talvez isso se situe à volta de 1396, na altura dos seus estudos em Calória.
A mesma época terá sido a hora do nascimento do Rosário. Enquanto Adolfo recitava as 50 Ave-Marias, esta humilde oração, ele apercebeu repentinamente desenhado num imenso fresco o curso do mundo englobando o seu próprio destino banhado no amor condescendente de Deus. Desta maneira, Adolfo de Esser foi o primeiro devoto do Rosário. Porquê?
Precisamente porque foi o primeiro a unir a contemplação - da - vida - de Jesus à recitação vocal das 50 Ave-Marias. Desta união nasceu o nosso Rosário hoje em uso.

As 50 Ave-Marias das Devotas de Esser

Na Baixa - Renânia, existiam até ao século XVII várias maneiras diferentes de recitar - com sentido - 50 Ave-Marias consecutivas. Dois livros de orações das Devotas de Esser contêm a maneira mais bela e a mais próxima do nosso Rosário. Encontram-se nos arquivos da catedral.
Eliminando toda a sobrecarga ulterior, obtemos o texto seguinte, que Adolfo de Esser certamente conheceu: No dia que comemora a Encanação do Filho de Deus no seio da Virgem Maria, reza assim:
«Ó Mãe de Deus, eu ofereço-te estas 50 Ave para te louvar e te honrar em reconhecimento do dia em que o Anjo Gabriel te anunciou que ias conceber o Filho de Deus pela ação do Espírito Santo. Como tu própria te doaste, também eu te entrego o meu corpo e a minha alma, a minha honra e todo o meu bem, os meus cinco sentidos e tudo aquilo de que posso dispor. Da tua parte, obtém para mim da parte do Senhor Onipotente tudo o que me é útil e bom para o Seu serviço, e para a minha alma a felicidade; e se um dia a minha alma e o meu corpo devem separar-se, então reclama, como sendo teu bem pessoal, a minha pobre alma e conduze-la à alegria e à felicidade da vida eterna. Amén».
A partir desse dia durante um ano e todos os dias, recita 3 Ave como prova da tua consagração a Maria e acrescenta a oração seguinte:
«Ó Mãe de Deus, eu ofereço-te essas 3 Ave para te provar que no dia em que concebeste o Filho de Deus pela ação do Espírito Santo, eu dei-te o meu corpo e a minha alma, etc. (como referido acima) ».
Um ano depois, na festa de Maria, recita, em primeiro lugar de pé, o salmo «Miserere» e continua de joelhos:
«O Anjo do Senhor entrou e disse a Maria: Eu te saúdo, Maria, cheia de graça. O senhor é contigo, tu és bendita entre todas as mulheres e Jesus, o fruto do teu ventre, é bendito».
Levanta-te agora, e diz com fervor: Amén. Eis o dia que o Senhor fez! Hoje Deus teve pena do seu povo! Hoje livrou-o da morte, que uma mulher nos deu e que uma virgem agora suprimiu!»

Agora lança-te três vezes por terra e diz:

«Hoje Deus fez-se homem! O que Ele era, permaneceu o mesmo; e o que não era, adquiriu-o: Hoje Deus fez-se Homem!» De novo de pé, para venerar e festejar jubilosamente o começo da nossa salvação, diz: «Glória a ti, Senhor! Porque por esta obra, que é a maior do teu amor salvador, Tu nos concedeste, a nós, pobres pecadores, a Redenção total e a ajuda que conduz à vida nova».
Enfim, de joelhos, termina a tua oração por estas palavras:

«Ora por nós, Santa Mãe de Deus. Para que nos tomemos dignos das promessas de Jesus Cristo.

Ó Deus, Tu que quiseste que o Teu Filho, depois do anúncio do anjo, tomasse carne no seio da Virgem Maria, concede a teus Filhos que a reconheçam verdadeiramente como Mãe de Deus. Por J.C.N.S. que vive e reina contigo na unidade do Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amén».

O ROSARIO - 4

OS DOIS MAIS ANTIGOS ESCRITOS DO ROSÁRIO


Aí por 1398, Adolfo de Esser entrou para a Cartuxa de Saint-Alban de Tréveris. Pouco tempo depois, redigiu, com a licença do seu Prior, o P. Bernard (†1430 em Colônia), dois opúsculos em língua alemã dirigidos à Duquesa de Lorraine, Margarida de Baviera. Remeteu-lhos aí por 1400, provavelmente no seu castelo de Sierck, a montante de La Moselle em relação a Tréveris.
O primeiro escrito era uma «Vida de Jesus», que até hoje não foi identificado. O segundo, intitulado «Pequeno Jardim de rosas de Nossa Senhora», foi descoberto em dois exemplares. As duas obras completam-se e deviam introduzir a duquesa numa nova maneira de meditar:
Durante a recitação das 50 Ave, aquele que medita faz mentalmente desfilar diante de si o nascimento e a vida de Jesus. Ele toma a sério o amor ao mesmo tempo universal e muito pessoal de Deus. Por esta benevolência agradece-lhe com alegria; está persuadido de encontrar em cada particularidade da vida de Jesus uma resposta aos seus próprios problemas.
Alguns 20 anos mais tarde, nas introduções de que Adolfo fez preceder os textos do Rosário, é precisado que esta oração vocal das 50 Ave não obtinha a sua verdadeira beleza - aquela que agrada a Nosso Senhor e sua Mãe - que graças à meditação da vida de Jesus. É recomendado que ao longo desta meditação sejam evitados cuidadosamente toda a fantasia e embelezamento arbitrário, que afastam do Evangelho. Adolfo insiste muito para que aquele que reza o terço se esforce por transformar a sua vida em consequência.
Em conclusão: o Rosário na origem não era um piedoso exercício ao lado de outros exercícios. Era uma conduta global - fundada sobre a Bíblia e a Teologia - em vista da reforma da sua vida individual e da vida eclesial no estado presente.


A duquesa Margarida de Baviera (1376-1434)


A 6 de Fevereiro de 1393, a filha de Roberto do Palatinat - que devia tornar-se Rei da Alemanha (1400-1410) - desposou Carlos lI, duque de Lorraine (1364-1431).
O duque era grande capitão, homem político de primeiro plano, mas débil sobre o plano moral. Quando o seu sogro se tomou Rei da Alemanha, ele bateu-se por ele. Mas voltou-se cada vez mais pata o oeste a partir de 1412, se bem que o Parlamento francês lhe concedeu em 1418 o título de «Connétable», isto é, nomeou-o general-chefe das forças armadas. É verdade que ele exerceu esta função durante apenas um ano.
Apesar do amor sincero e da consideração que ele sentia pela sua esposa Margarida, não chegou a permanecer-lhe fiel, tanto mais que ela não lhe deu - após vários partos prematuros - senão duas filhas. Com a idade, ligava-se sempre mais à sua amante, Alizon du May, uma antiga regateira de Narcy. Ela deu-lhe vários filhos e filhas, que ele dotou num primeiro testamento em 1408, depois num segundo em 1424.
Margarida viveu o seu casamento no meio dum mundo caótico. Porque a política entrava na Igreja, tinha-se chegado à eleição de dois Papas. O sínodo de Pisa em 1409 agravou a situação votando um terceiro Papa. A Inglaterra estava em guerra - uma guerra que devia durar cem anos (1339-1453) - com a França, cujo Rei Carlos VI (1380-1422) se afundava cada vez mais na loucura.
A situação não era melhor na Alemanha onde o Rei Venceslau levava uma vida vistosa em Praga e descurava o governo do seu país. Exagerou ao ponto de os príncipes-eleitores o demitirem das suas funções - aliás em vão - e elegeram para o seu lugar o pai de Margarida como rei. A certa altura três candidatos disputaram a coroa imperial. Ao mesmo tempo este Ocidente tão dilacerado estava ameaçado na sua própria existência. Os Soldados do Crescente, fortemente instalados na Península Ibérica e ameaçando todas as costas do Mediterrâneo, deslocaram-se desde os Balcãs sobre a Hungria.
Tudo isso pesava fortemente na consciência de Margarida, que para mais tinha uma saúde frágil e devia tomar sozinha e sem as trair as decisões no lugar do Duque Carlos, quando este estava ausente durante as suas numerosas campanhas.
É para una mulher numa tão trágica situação que os dois escritos do Rosário foram compostos. Eles levaram a duquesa a procurar em Jesus Cristo - pela oração - o equilíbrio interior.
E de fato, Margarida encontrou esse equilíbrio. Carlos II estimava Adolfo. E conseguiu que a sua Ordem o designasse como primeiro superior da sua nova cartuxa, perto de Sierck (1415-1421).
O Duque tinha verificado que a sua esposa começava desde 1400 a adquirir «uma tal prática espontânea, viva e perseverante do Rosário, que ela parecia como q e transformada, e em posse sempre mais perfeita das virtudes da «Vida de Jesus».
O que ela experimentava como uma ajuda eficaz, esta mulher assim dotada comunicava-o aos nobres da sua corte e ao pessoal ao seu serviço. Mas antes de mais, desta oração ela fez uma prática pessoal, ovação que viveu intensamente na sua própria vida, de maneira que à sua morte, em 1434, a sua santidade foi reconhecida por todos.
O seu processo de canonização não chegou a bom termo. Mas ela é a avó de Bernardo de Baden (1429-1458) e a bisavó da Beata Margarida de Lorraine (†1521).
Ela é a primeira a propagar o Rosário. Provavelmente devemos à sua influência a maneira original de o rezar nos países latinos.

14 dezembro 2010

O ROSARIO - 3

A Ave do «Cântico de amor marial»

Esse nobre conhecia a fundo a literatura da corte, a piedade das gentes simples e o pensamento de Santa Matilde de Hackeborn (1241-1299).

Desta maneira, os escritos baixo-renanos e os mais antigos documentos sobre o Rosário citam sem cessar um extrato do seu livro «Liber spiritualis gratiae», que mostra em que sentido a saudação do anjo é dirigida à Mãe de Deus. Eis a tradução literal:

«Um sábado, durante o canto da Salve Regina, ela (Santa Matilde) diz à Santíssima Virgem: Ah! se eu pudesse, Rainha do Céu, saudar-te com a saudação mais querida que um coração humano possa inventar, eu o faria com grande alegria!

Nesse momento a Virgem apareceu-lhe em Glória. Sobre o seu peito um grande laço tinha gravada em letras de ouro a saudação do anjo: Eu te saúdo, Maria, cheia de graça... A Virgem lhe respondeu:

Ninguém ainda ultrapassou essa saudação e nunca ninguém poderá melhor saudar-me do que dirigindo-me com muito respeito a saudação que Deus Pai me fez transmitir pela palavra «Ave». Por essa saudação, Ele o Onipotente tomou-me tão forte e tão corajosa, que eu fui poupada de toda a mácula de pecado. Também, Deus Filho esclareceu-me tanto com a sua sabedoria que me tomei uma estrela cintilante que ilumina o céu e a terra: é o que exprime o nome «Maria», que significa «estrela do mar». Enfim o Espírito Santo me impregou com a sua divina doçura, que me encheu de tantas graças, que agora quem procura graça junto de mim encontra-a. E o sentido das palavras «cheio de graça».

Com as palavras «O senhor está contigo» recorda-se como duma maneira indizível toda a Santíssima Trindade me une a Ela e realiza a Sua obra em mim, tomando da minha substância carnal e unindo esse qualquer coisa à natureza divina para não fazer senão uma só pessoa, de maneira que Deus se tomou homem e que o homem se tomou Deus. A alegria e a felicidade que eu senti nesse momento, ninguém poderá nunca concebê-lo perfeitamente.

Por «bendita entre todas as mulheres», cada criatura reconhece e testemunha que eu fui bendita e elevada acima de todas as outras criaturas, no céu e na terra.

Por «bendito é o fruto do teu ventre», é anunciado como uma bênção e festejado com júbilo o fruto salvador do meu corpo. Ele vivifica e santifica todas as criaturas e enche-as de bênçãos para a eternidade. »

No tempo de Santa Matilde de Hacheborn, a Ave terminava com as palavras de Santa Isabel «bendito é o fruto do vosso ventre». E somente durante o século XIV que se lhe acrescentou o nome de «Jesus», e mais ainda muitas vezes «Jesus Cristo».

Na Europa de Leste, como por exemplo, na Polônia, ignora-se o nome até cerca de 1400.

O acréscimo «Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pobres pecadores...» vem mais tarde; foi introduzido na Ave pelas Confrarias do Rosário, isso duma maneira definitiva no princípio do século XVIII somente.

Quando o Rosário nasceu cerca de 1400, a Ave não era ainda senão uma saudação muito pessoal à Mãe de Nosso Senhor.

O ROSARIO - 2

A denominação «Rosário» é ambígua.

O seu primeiro sentido é profano.

O termo latino «rosarium» ou ainda «rosarius» não foi usado com a mesma significação nos diferentes períodos do passado. Numa mais antiga série de manuscritos, podia ser a forma latinizada do termo alemão “Rols (cavalo)”. Ele foi usado nesse sentido para designar coleções e obras de consulta, como por exemplo uma nomenclatura de decisões jurídicas ou um código de conveniências da época.

E num período mais recente que se faz derivar o nome do termo latino «rosa». «Rosarium» toma então a sua verdadeira significação de: roseiral, roseira ou coroa de rosas. Será preciso ainda esperar um bom momento, antes que o termo designe a cadeia de pérolas que nós denominamos hoje «rosário» ou «terço» (O primeiro nome do terço foi «Pater noster»). Isso não acontecerá senão no fim do século XV.

A rosa simbolizou em todas as civilizações que a conheceram o amor humano. Após as cruzadas, um conto persa, «Goulistan», introduziu-se no Ocidente e fez a conquista, no meio do século XIII, de todas as cortes das nobres européias, sob a sua versão francesa do «Romance da Rosa». O amor é descrito com realismo como uma incursão num jardim de rosas. As mulheres nobres da Idade Média trocam com os seus cavaleiros «coroas de rosas», como prova de amor. Por um desenvolvimento ulterior, crescente nos meios nobres, as canções de amor são em breve chamadas «rosarium». Não é preciso mais que um pequeno passo para designar igualmente com o nome de «rosarium» as canções de amor e de louvor dirigidas à Mãe de Deus.

Visto sob este ângulo, não é fácil compreender como a maneira simples e despojada de rezar das pessoas humildes, que consiste em repetir 50 vezes a saudação angélica, tal como os Cartuxos de Tréveris o tinham ensinado desde o princípio do século XV: Como esta maneira humilde pôde herdar o belo nome de Rosário, que os nobres reservaram à sua obra-prima?

Esse único fato atesta que o Rosário nasceu sob a influência dum nobre, familiar da oração popular, em uso nas regiões da Baixa Renãnia. Como é que isso aconteceu?"

13 dezembro 2010

O ROSARIO - 1

Começo mais um artigo, desta feita sobre a história do Rosário.

o Terço

A sua origem

e a sua intenção primordial


por

Karl Jos. KLinhhammer S.J .


E is aqui em alguns traços concisos a história da origem do Rosário. Ela pode ajudar aqueles que o rezam a melhorar a sua maneira de o rezar, e levar aqueles que dizem não o poder rezar a rezá-Io. O Rosário tem particularmente a mesma origem que a devoção medieval do Sagrado Coração. Nasceu no tempo do Grande Cisma do Ocidente (1370-1417), num momento de infortúnio imenso, como amor restituído a Cristo, amor de inspiração e de expressão bíblica de que a Virgem Maria, sua Mãe, pode tornar-se o intérprete junto de nós.

I

A LENDA DO ROSÁRIO NÃO É ASSIM TÃO ANTIGA

Uma nota preliminar impõe-se: nós não devemos permitir-nos divulgar as lendas, quando há séculos sabemos que elas são falsas. Senão, aumentamos as dificuldades de crer naqueles que procuram a verdadeira fé.

Ora uma lenda, que resiste obstinadamente, pretende que o Rosário foi entregue durante uma aparição da Virgem a S. Domingos como proteção na sua luta contra os Albigenses. Esta lenda é falsa, embora seja mencionada em certos documentos eclesiásticos.

Já em 1743, quando aparecia o primeiro volume das «Acta Sanctorum» tratando dos Santos do mês de Agosto, o Bolardista Willem Kuypers S.J. prova que as biografias de S. Domingos não mencionam esta lenda ao longo dos dois primeiros séculos que seguiram a sua morte. Ele acrescenta que esta lenda não aparece senão em 1460 nas obras de Alam de Ia Roche O.P. (†1475). Ela é o fruto da sua imaginação excessiva devido (segundo Heribert Thurston S.J.) a uma confusão de nomes, pela qual ele confere a maneira de rezar do Cartuxo de Tréveris, Domingos de Prússia (†1460), ao fundador da sua Ordem. Depois de circunstâncias favoráveis e sobretudo graças à tipografia nascente, os trabalhos de Alam espalharam-se por toda a parte, dando crédito à lenda. Deus permite muito, certamente, em matéria de crença nos domínios próximos da fé; mas não é para que concentremos mais a nossa atenção sobre o conteúdo principal da nossa fé, em que Ele empenha a sua infalibilidade?

Tomás Esser O.P. editou em 1889 um manual para uso da confraria dominicana do Rosário no sentido da lenda. Mas nessa altura da redação teve dúvidas a esse respeito. Ele tem o mérito de ser o primeiro a explicar, aí por fins do século XIX, após um estudo aprofundado das fontes, que «a introdução progressiva dos pontos de meditação na oração do Rosário» remonta aos Cartuxos de Saint-Alban de Tréveris na metade do século XV. Ele podia ainda citar os nomes de Domingos de Prússia e de Adolfo de Esser.

Infelizmente não conseguiu reencontrar e explorara as obras originais dos Cartuxos de Tréveris.

Esse trabalho foi somente realizado durante estes doze últimos anos.

Teve como resultado esclarecer-nos definitivamente sobre a formação primeira do Rosário e sobre a sua intenção primordial.

Pela mesma ocasião, desmoronaram-se, como sem fundamento, todas as outras suposições ou teorias daqueles que - em comparação de Tomás Esser O.P. - se aventuraram bem imprudentemente. Entre estes últimos, citemos sobretudo as Irmãs Dominicanas de Toss, que estão próximas do místico Henrique Suso O.P. (†1366) e também de Henrique de Calcar O. Cart. (†1408).

03 dezembro 2010

Cartuxos (um oásis no meio do deserto)




“A vós, estimados filhos e queridas filhas da Cartuxa, que sois os herdeiros do carisma de São Bruno, compete conservar em toda a sua autenticidade e profundidade a especificidade do caminho espiritual que ele vos mostrou com a sua palavra e o seu exemplo. O vosso apreciado conhecimento de Deus, alimentado na oração e na meditação da sua Palavra, convida o povo de Deus a alargar o próprio olhar até aos horizontes de uma humanidade nova e rica da plenitude do seu sentido e unidade. A vossa pobreza oferecida para a glória de Deus e a salvação do mundo é uma eloquente contestação das lógicas de rendimento e de eficácia que, muitas vezes, fecham o coração dos homens e das nações às verdadeiras necessidades dos seus irmãos. A vossa vida escondida com Cristo, como a Cruz silenciosa plantada no coração da humanidade redimida, permanece de facto para a Igreja e para o mundo o sinal eloquente e a chamada permanente do facto que cada ser, hoje como ontem, se pode deixar prender por Aquele que é amor.” – Excerto da mensagem do Santo Padre aos membros da família dos cartuxos do IX centenário da morte de São Bruno.

Poderia começar este artigo de opinião de inúmeras maneiras, mas este excerto espelha aquilo que os Monges e Monjas Cartuxos vivem na liberdade plena da clausura de uma cela que acolhem por amor. Estes homens e mulheres trocaram a vida (como a maioria de nós a conhecemos) por uma outra vida, onde rezam pelo mundo e pelas suas necessidades, com aqueles que rezam e pelos que não rezam, com aqueles que têm fé e pelos que a não têm ou a perderam. Ninguém os vê, (atrevo-me a dizer que é quase um apostolado invisível), mas sente-se a sua presença.

“- Mas quem são estes monges Cartuxos e o que fazem concretamente?” Impõe-se a pergunta!

Não sendo um entendido na matéria, mas apenas um Cristão que nutre uma grande empatia por esta Ordem monástica, assim denominada (Cartuxa) por ter nascido nas montanhas de Chartreuse, impõe-se um pouco de história destes homens e mulheres que há mais de 900 anos continuam fiéis aos princípios do seu fundador São Bruno e quase nada foi alterado, fazendo jus ao lema inscrito no seu brasão “Stat Crux Dum Volvitur Orbis” que traduzido do latim para português quer dizer “Enquanto o mundo gira, a Cruz permanece firme”. A propósito disto, o Prelado eborense, no cinquentenário do restauro do Convento da Cartuxa de Santa Maria Scala Coeli, recordou os princípios que estão na base desta ordem e explanou uma tradução mais livre e mais enriquecedora para todos os Cristãos “O mundo gira, evolui e transforma-se mas a cruz permanece sempre com o mesmo significado espiritual, o mesmo valor redentor e o mesmo poder de atracção. (…)”
Esta Ordem, em inúmeros locais na net é referida como sendo a mais austera, pelo silêncio e solidão vividas. Em tudo são o “contrário” daquilo que é a vida dos nossos dias. A grande maioria de nós não suporta o silêncio, daí possuirmos rádios, televisões e outros objectos semelhantes, “só para preencher esse silêncio”, e vemos a solidão como uma doença terrível. No entanto, para os Cartuxos, silêncio e solidão é tudo menos isso. Eles optaram pela austeridade, optaram por uma vida de silêncio e pela solidão. Como se vivessem no deserto, têm como ícone São João Baptista. Para eles Deus fala no deserto, pois só com o silêncio se pode ouvir Deus e só com a solidão se poderá desfrutar da sua presença. O silêncio destes homens, imposto por regra mas acolhido por vocação, é diferente dos nossos silêncios. Os nossos são, às vezes, sinal de angústia, de debilidade, de medo, de orgulho e até de ódio poderão ser. Já o verdadeiro silêncio cristão é um silêncio positivo, de humildade, de contemplação, de alegria e de amor.
São pouco conhecidos. Não fazem grandes propagandas nem vocacionais nem existenciais. Mas eles lá estão, rezando pelo mundo e suas necessidades, com os que rezam e pelos que não rezam, com os que têm fé e pelos que a não têm ou a perderam.
Ainda que timidamente e com a humildade de um aprendiz de Cristão que O segue, como a Virgem Santíssima O seguia, defendo-os contra aqueles que apregoam que são pessoas 'inúteis' ou que fariam melhor trabalho pelo reino de Deus se andassem pelo mundo a pregar o Evangelho. Só quem não compreende a mística do silêncio e o valor da oração é que pode dizer uma barbaridade tamanha. Sentir que enquanto nós trabalhamos, discutimos ou outra situação similar, nos esquecemos de Deus, enquanto eles ali estão, no silêncio e na solidão, com Deus, suprindo de algum modo esse nosso esquecimento.
São Bruno, numa carta que dirigiu a um seu amigo de nome Raul, explicava-lhe o que era a Cartuxa, escrevendo:
"Que utilidade e gozo divinos trazem consigo a solidão e o silêncio do deserto a quem os ama; só o sabem quem os experimentou. Aqui podem os homens esforçados recolher-se em si quanto queiram, e morar consigo, cultivar com afã as sementes das virtudes, e alimentarem-se felizes dos frutos do paraíso. Aqui se adquire aquele olho cujo olhar fere de amor ao Esposo, olhar limpo e o puro vê a Deus. Aqui pratica-se um ócio laborioso, e repousa-se numa sossegada actividade. Aqui, com o esforço do combate, Deus premeia os seus atletas com a sua benevolência, a saber, 'a paz que o mundo ignora e o gozo no Espírito Santo'". Traduzindo por “miúdos” diria que os Cartuxos são uma “fonte misteriosa e inesgotável de energia espiritual”.
Depois de algum fervor nas minhas palavras sobre esta Ordem, devo também, dentro dos meus parcos conhecimentos, explicar o seu modo organizativo.
Em termos de efectivos, não chegam a 400, repartidos por 25 mosteiros ou cartuxas, ressalvando em especial a existência de uma em Portugal, mais propriamente em Évora. Cada uma é dirigida por um Prior eleito em escrutínio secreto. É ele que nomeia, depois, o conselheiro (mas que tem o titulo de vigário porque faz as suas vezes), o mestre de noviços e o procurador. O governo da Ordem da Cartuxa, em geral, pertence ao Capítulo dos Priores que se reúne de dois em dois anos na Grande-Chartreuse, a casa-mãe. O Prior da Grande-Chartreuse é, ao mesmo tempo, o Prior Geral da ordem.
Quanto à formação de um monge Cartuxo, segue os seguintes moldes:
- Após um tempo de discernimento, que poderá durar vários anos, e um longo retiro, o aspirante é introduzido no coro dos Monges. Segue-se o período de postulado que pode ir de três meses a um ano, após o qual os monges em escrutínio secreto votam o acesso do candidato ao noviciado.
O noviciado dura cerca de dois anos junto ao mestre de noviços para permitir uma familiarização com a espiritualidade, a liturgia, a Regra e os Estatutos da Cartuxa. Após o primeiro ano inicia-se a formação doutrinal, a saber: Padres do deserto, História da Igreja, Sagrada Escritura e demais doutrina, no fim do qual o noviço é admitido à profissão temporária pela Comunidade.
Após cinco anos dos votos temporários, e de contínua formação, o candidato é admitido à “grande profissão” e faz promessa de “estabilidade”, “obediência” e “conversão total”.
No que toca a hábitos e ao regime alimentar, a única refeição quente do dia é tomada ao meio-dia. Cela a cela é deixado pelos irmãos da cozinha o prato contendo peixe (nunca carne), legumes, compota. À tarde são dois ovos e fruta. Esta última refeição é suprimida durante a Quaresma. Têm sempre o cabelo curto, (cabeça mesmo quase rapada), usando alguns a barba. O seu hábito é constituído por uma grande túnica branca apertada na cintura por um cinto branco também. Por cima da túnica um grande escapulário, branco também, cujos panos da frente e detrás são ligados por duas tiras de lã.
O que poderá ser mais “difícil de compreensão” para o comum dos mortais é o dia do Cartuxo, que é regido pelo seguinte horário :

23h45 - Levantar
24h00 - Matinas do pequeno Ofício de Nª Senhora
24h15 - Laudes (na Igreja)
02h45 - Laudes de Nossa Senhora (na Cela)
06h45 - Levantar
07h00 - Angelus. Hora Prima da Nossa Senhora e do dia.
07h30 - Exercícios espirituais (na Cela)
08h00 - Hora Tércia
08h15 - Missa Conventual
10h00 - Exercícios espirituais (na Cela)
11h15 - Hora Sexta
11h30 - Refeição (na Cela)
12h30 - Tempo livre. Arranjo da Cela e outros trabalhos (na Cela)
13h15 - Hora Nona
13h30 - Exercícios espirituais (na Cela). Algumas vezes pequenos trabalhos de jardinagem
15h30 - Vésperas de Nª Senhora (na Cela)
15h45 - Vésperas do dia (na Igreja)
16h15 - Exercícios espirituais (na Cela)
17h15 - Pequena refeição
18h45 - Angelus. Exercícios espirituais (na Cela)
19h15 - Completas do dia e de Nossa Senhora (na Cela)
20h00 - Descanso

Apesar do muito que disse ou possa pensar que foi dito, não passou de um grão de areia na realidade vivida e sentida do Cartuxo, ao contrário de mim, que apenas me baseei em livros já lidos e o sitio da casa-mãe na net , isto é, muita teoria e prática zero.
Termino este artigo com o pensamento abaixo, que entretanto me ocorreu:
Cartuxos - Homens de Deus e Homens de Oração que no silêncio e na solidão conversam com Deus.”

30 de Novembro de 2010"

30 novembro 2010

Desabafos

Há dias atrás inseri um vídeo “peculiar". Chamo-lhe peculiar porque insere duas das minhas “paixões/devoções”. Ao fundo a Virgem de Guadalupe e a ser entrevistado, um homem que irá entrar na Cartuxa em Espanha (nesta data já deve estar há alguns meses).

Como é do conhecimento de quem por aqui passa, a Virgem de Guadalupe entrou em mim, aliás, são muitas as situações/momentos em que essa imagem aparece, seja na net ou na televisão, e isto sem estar a pensar nela. Por vezes penso que será uma chamada de atenção da sua parte ou que está a dizer-me que não se esquece me mim. No fundo, quando essas situações de “mera coincidência” acontecem sinto-me cheio de tudo, especialmente de uma felicidade impar, ainda que não dure “para sempre”. Como eu desejo um dia poder ir ao México agradecer na sua casa tudo o que tem feito a este pecador constante e consciente, mesmo sem merecer, mesmo aquilo que nem sonho que ela intercedeu por mim, mesmo os mistérios mais insondáveis que possa possuir e que só Ele sabe. Quem sabe um dia este desejo se torne realidade.

Quanto à Cartuxa não sei como começou a minha enorme empatia/simpatia, apenas sei que dia a dia nutro mais esse sentimento. Diria que é uma paixão onírica, já que torná-la realidade, para além de eventuais impedimentos na Ordem, teria que não ter família como tenho, ou seja, mulher e filho. A ter que optar, sem duvida alguma opto pela família com todas as imperfeições inerentes. Quando a eles, Homens de Deus e Homens de Oração, de quando em vez oro por eles timidamente, já que eles, oram por todos nós com mais convicção. Para mim, todas as vidas consagradas na Liberdade inimaginável da cela, são como um pulmão que respira por nós, cheios de tanta sujidade perante Deus. Tal como no caso anterior, desejo um dia poder passar, um dia que seja, dentro das paredes de um mosteiro cartuxo e, ainda que sabendo que são de “poucas” palavras, se puder, desabafar/divagar sobre todos os meus podres, duvidas e anseios, mas também as minhas certezas sem certeza alguma, depois sair, como que baptizado novamente e tentar ser mais recto, mais convicto e mais cheio de fé…como um grão de mostarda. Um irmão romeiro um dia comentou “a fé é leve” e essa pequena frase por vezes vem ao de cima, por vezes faz-me pensar o “homem de pouca fé” que muitas vezes me sinto. Realmente a fé é muito leve.

26 novembro 2010

Farsa versus autenticidade

"Vivemos numa época em que a farsa reina sobre a autenticidade. Farsa em todos os sentidos e em quase todas as situações do dia-a-dia.Longe vai o tempo em que a palavra acordada entre duas pessoas valia mais do que algo passado a escrito e assinado. Mais longe vai o tempo em que as pessoas defendiam causas nobres em prol de todos sem excepção, ao invés de hoje, em que uma grande maioria de pessoas defende o seu umbigo e os umbigos dos mais chegados.
A Europa apelidada de “Mundo Velho” e infelizmente em concordância com o “Mundo Novo” vai a reboque desta última, em prol da Republica e da Democracia, no entanto, de republicanos e democratas, pouco tempos. Temos cada vez mais, isso sim, autoritarismos absolutos, cegos e surdos.
À frente de muitas instituições políticas, humanitárias e sociais (entre outras) estão pessoas que, apregoando a democracia, a humanidade e a solidariedade, fazem tudo menos isso. São pessoas que se aproveitam desses cargos para favorecerem-se a si e aos seus. São pessoas que discursam horas a fio “bons costumes”, mas no entanto, pecam pelo vazio das suas obras e acções, ou seja, agem em contradição com aquilo que dizem. Fazem-me lembrar a parábola descrita em Lucas 18.9-14, onde encontramos um fariseu e um publicano a orarem. O primeiro orgulha-se de ser um fiel cumpridor da Lei e de fazer mais do que o pedido, em suma ser um “exemplo” para os demais. O segundo nem sequer levanta o seu olhar, parece ter vergonha de olhar para Deus e bate no peito, mostrando que está arrependido, aliás, bater no peito não terá sido uma atitude de oração mas sim de desespero. Desespera-se porque Deus não tem lugar na sua vida, no entanto, Deus perdoa-o.
O fariseu, apesar de tudo o que disse e fez, não foi simples, sincero e autêntico como o publicano. Ao fim e ao cabo este homem vivia uma farsa camuflada na Lei.
Os tempos de hoje não são como os de outrora, no entanto, a autenticidade das palavras e actos do Homem, deveria permanecer imutável, como imutável é a palavra de Deus.
Ontem, hoje e muito possivelmente amanhã, a Farsa é Rainha e Senhora neste mundo dito democrata.

E nós, quem realmente somos e como agimos?

Somos mais um fariseu ou mais um publicano?"

25 novembro 2010

Algo que se passou no tempo


"“Poderá não fazer sentido ou nexo;

Poderá ter erros gramaticais ou textuais mas, foi assim no calor da “emoção” que pretendi transmitir-vos. E assim na noite que me ajuda que pretendo escrever. Pela manhã, metade já me teria esquecido e a outra metade mais elaborada.

Será assim, por tópicos:

1 – Na sala que usámos existe um poster com uma peça de barro representativa de Nossa Senhora com o menino nas mãos, como que a “entregar-nos”;

2 – Este ano fiz parte dos Dirigentes que iriam ministra um cursilho de Cristandade. Não se conhecem o movimento em questão mas também não vou entrar em pormenores;

3 – Durante a partilha de testemunhos sobre a leitura do dia em que só ficaram os 12, referi que, também eu, por vezes digo “que palavras atrozes e difíceis, não as compreendo?”. No entanto que o continuo a segui-Lo timidamente, há distância possível MAS sempre de mão dada com Nossa Senhora. Disse-o apesar de ser O Movimento dos Cursos de Cristandade (Cristo);

4 – Na hora de comungar o “corpo e sangue de Cristo”, ao contrário do habitual (O padre lê uma breve passagem) um dos irmãos pediu se podia cantar baixinho um cântico;

5 – Cantou um que “usamos” nos Romeiros. Antigo segundo o sacerdote mas muito recente para mim. Dei por mim também a acompanhá-lo e a Viver a Fé que sinto nas Romarias (ardor no coração e a alma em brasa);

6 – Dentro do milésimo de grão de mostarda que possuo de humildade, “senti” como um “mino” de Nossa Senhora, ouvir este cântico;

7 – Na verdade, desde que me consagrei, vou ao sacrário falar com Cristo mas, depois dou uma palavrinha a Nossa Senhora. Por vezes sinto que não o devia fazer mas, não sabia fazer de outra maneira esta minha devoção…até hoje, e ainda por cima que uso um fio com ela ao peito.

8 – Que parvo que me senti na altura. Afinal, posso ser devoto de Nossa Senhora sem ferir Jesus Cristo. Tal como a sua humildade de mãe, as palavras que disse “sem saber” fizeram eco. Afinal posso ir ao sacrário falar com Cristo sem o ofender ou magoa-la…basta ir de mão dada com ela. Tão simples e só agora “percebi”."

22 novembro 2010

Um pensamento pela manhã


"Perdoai-me Senhor, não pelas tentações a que estou sujeito,
mas sim por aquelas a que sucumbi."

12 novembro 2010

Um nome sem importância

"UM NOME SEM IMPORTÂNCIA

Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada

Voz da Verdade, 2010.11.14


Se há alguma importância em se chamar Ernesto[1], não há nenhuma em chamar-se Dora. Com efeito, a mulher que teve este nome não foi vedeta, nem actriz, não foi famosa, nem rica, não escreveu livros, nem foi conhecida pela sua beleza ou por outro atributo. Aliás, passou desapercebida, viveu e morreu discretamente, depois de uma vida de trabalho silencioso, sem mais história do que a história de uma vulgar empregada doméstica, que mais não foi do que isso mesmo, toda a sua vida.

Dora del Hoyo nasceu em 1914 em Espanha, mas em 1946 mudou-se para a capital italiana, onde viveu e trabalhou para a sua família: o Opus Dei. Como profissional, entregou-se de alma e coração às tarefas domésticas na sede da prelatura. Lavou pratos e tachos, limpou o pó, cozinhou, tratou das roupas, como qualquer dona de casa, até à data da sua morte, a 10 de Janeiro de 2004, em Roma. Aí repousa agora, ao lado da campa onde esteve sepultado o fundador, S. Josemaria Escrivá, e onde está agora o corpo de D. Álvaro del Portillo, primeiro prelado do Opus Dei. Os corpos deste bispo e desta empregada doméstica são os únicos que, de momento, se encontram na cripta da igreja prelatícia de Santa Maria da Paz, onde antes estiveram os restos mortais de S. Josemaria, até à sua trasladação para o respectivo altar, por ocasião da sua beatificação e posterior canonização.

Quem imaginaria uma simples mulher-a-dias na necrópole dos Papas?! Ou uma pobre e desconhecida operária no mausoléu do Kremlin?! Ou uma velha criada enterrada entre os túmulos dos reis, em São Vicente de Fora?! Ou ainda uma cozinheira no panteão nacional de Santa Engrácia?! Contudo, a poucos centímetros de onde jazeu o fundador do Opus Dei e agora repousam os restos do seu sucessor, um só corpo recebeu sepultura: o de Dora del Hoyo, empregada doméstica.

No Opus Dei há alguns cardeais, bastantes bispos, milhares de sacerdotes, muitos já falecidos, alguns com fama de santidade mas, até à data, mais nenhum, salvo o primeiro sucessor do fundador, mereceu o privilégio outorgado a esta simples operária do lar. Muitos são os fiéis leigos defuntos do Opus Dei que, nestes quase noventa anos de serviço à Igreja e ao mundo, se notabilizaram pelo seu trabalho: catedráticos, generais, políticos, artistas, embaixadores, literatos, cientistas, almirantes, jornalistas, etc. No entanto, é uma empregada doméstica que ocupa aquela tão especial sepultura. Uma mulher a que não se ficou a dever nenhuma invenção, nenhuma novidade, nem sequer nenhuma receita memorável. Apenas serviu, serviu a Deus e aos homens, serviu a Igreja, servindo os seus irmãos e irmãs da prelatura e muitas outras almas. Com alegria, com devoção, com profissionalismo, com amor, com perseverança, com simplicidade e, sobretudo, sem se dar nenhuma importância, porque a não tinha.

Há uma meia dúzia de anos que Dora descansa no subsolo da igreja de Santa Maria da Paz. E, apesar de muitos fiéis visitarem a cripta, onde é bem visível o nicho com o seu nome, ninguém sabe, nem tem por que saber, a grandeza da sua vida prosaica, tão mariana. A sua singela presença naquele lugar, onde aguarda a ressurreição dos mortos, é tão apagada quanto foi a sua vida: não se deve a nenhum principesco favor, nem é demagogia barata, mas a genuína expressão de uma revolucionária verdade – a igual nobreza de todas as profissões humanas e a comum dignidade eclesial de todos os filhos de Deus.

P. Gonçalo Portocarrero de Almada
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[1] A Importância de se chamar Ernesto [The Importance of Being Earnest] comédia escrita por Oscar Wilde, em 1895. "

11 novembro 2010

Partiu para o Pai o "Senhor do Adeus"

"Eu sou o Senhor do Olá"

"Chamam-me o Senhor do Adeus, mas eu sou o Senhor do Olá. Aquele que acena no Saldanha, a partir da meia-noite. Tudo isto é solidão? Essa senhora é uma malvada, que me persegue por entre as paredes vazias de casa. Para lhe escapar, venho para aqui. Acenar é a minha forma de comunicar, de sentir gente", escrevia, em Março de 2008, o Expresso sobre João Manuel Serra, salientando: "São quase duas da manhã e os carros não param de lhe apitar. Nem eu de lhes acenar. Só fico triste quando o movimento acaba."
"Venho para a Praça Duque de Saldanha, desde que fiquei nas mãos de não ter ninguém. Nasci aqui perto, na casa da minha avó. Um palacete tão bonito, que o Calouste Gulbenkian quis comprá-lo. Vê-se que foi um menino rico. Sou filho de gente abastada, nunca trabalhei nem entrei numa cozinha", acrescentava o semanário, citando o "Senhor do Adeus".

Não o conheci mas, pelo que li, apesar de tudo o resto foi um Cristão exemplar. Com este seu gesto, de certeza que muitas almas deve ter salvo de tanta coisa menos boa...apenas com um gesto, um Adeus ou um Olá, como queiram dizer.

02 novembro 2010

65 -Sufrágios

"Já que somos membros os uns dos outros, convém que na oração levemos os fardos dos homens, nossos irmãos, e primeiro que tudo intercedamos:

Resumo das pessoas pelas que oferecemos sufrágios:

Por nossos Superiores

Pelo Papa.

Pelo Reverendo Pai, Prior da Cartuxa, como Ministro Geral de nossa Ordem e Pastor de todos nós.

Pelo Procurador geral.

Pelos Visitadores.

Pelo Prior.

Pelos parentes e benfeitores recém falecidos.

Pela Igreja universal e pela Ordem.

Por nosso Santo Pai em Cristo, o Papa reinante.

Pela conservação da unidade da Ordem.

Para impetrar o auxílio celestial a fim de que todos se congreguem na única Igreja de Cristo.

Pela paz e tranquilidade de todas as nações, e pelos que as governam.

Pelas autoridades da nação de cada Casa da Ordem.

Pelo próprio Bispo de cada Casa.

Pelas pessoas da Ordem que estão em perigo de alma e corpo, e para consolação das mesmas.

Por todos nossos benfeitores, pelos parentes, encomendados e amigos de todas as pessoas da Ordem, e pelos que temos obrigação.

Outros sufrágios pelos defuntos

Depois da solenidade de Pentecostes, em todas as Casas da Ordem se celebram duas Trintários gerais:

um por todos os fiéis defuntos detentos no Purgatório;

o segundo, pelos parentes, benfeitores, encomendados e amigos de todas as pessoas da Ordem, pelos que têm participação na Ordem, e pelos que temos obrigação.

Ainda que são muitos os sufrágios que aplicamos por determinadas pessoas, confiamos em que, pela Misericórdia divina, todas nossas orações têm de aproveitar antes de nada à Igreja universal, para louvor da glória de Deus. "

Termino aqui os Estatutos desta Ordem. Pela numeração faltam alguns capitulos mas foi assim que me chegou este livro.

62 -Sacramentos

"A Penitência

No sacramento da Penitência o Pai das misericórdias, pelo Mistério Pascal de seu Filho, nos reconcilia no Espírito consigo, com a Igreja e conosco mesmos. Recomendamos, pois, a todos que frequentem este sacramento pelo qual a conversão do coração, fim próprio do monge, insere-se no mistério da morte e ressurreição de Cristo.

O Prior tem o dever de designar alguns monges, entre os de maior discrição, para ouvir as confissões dos demais.

Ademais, qualquer pessoa da Ordem, para tranqüilidade de sua consciência, pode válida e licitamente confessar-se com qualquer confessor que tenha faculdade para isso.

A respeito da confissão de pessoas estranhas à Ordem, que se tem de evitar quanto seja possível, e das mulheres, que não se as deve confessar de nenhum modo. "

01 novembro 2010

54 -Cerimônias do Ofício na cela

"O Ofício canônico.

Se alguma vez a evidente debilidade ou a excessiva fadiga nos obriga a sentar-nos durante o Ofício divino, ou se estamos em cama por razão de doença, rezemos, não obstante, com a reverência possível.

Porque no Ofício divino, onde quer que se reze, tem-se de guardar cuidadosamente reverência e dignidade, por ser em todo lugar uma mesma a Majestade e Divindade daquele em cuja presença falamos, e que nos olha e atende. "

53 -Cerimônias conventuais no Ofício

"Reunião na igreja

Logo que ouvimos o sinal para cantar conventualmente na igreja as Horas do Ofício divino, deixando todas as outras ocupações, devemos encaminhar-nos com prontidão a ela, guardando o maior recolhimento e gravidade. Porque nada é lícito antepor à “obra de Deus”.

Ao entrar na igreja, benzemo-nos com água bendita, e vamos a nossas cadeiras; antes de entrar nas formas fazemos inclinação profunda ao Santíssimo Sacramento. Fazemos também dita inclinação nas arquibancadas do presbitério, sempre que a ele subimos ou dele baixamos, ou quando passamos ante o Santíssimo.

Ao chegar às cadeiras ficamos de pé, voltados para o altar e talheres, preparando-nos em silêncio para o Ofício; dada o sinal pelo Presidente, inclinamo-nos ou nos ajoelhamos para a oração, segundo o peça o tempo.

Enquanto se faz oração em silêncio antes uma Hora, não entramos à igreja.

Pelos intervalos de silêncio, nossa oração pessoal se une mais intimamente à Palavra de Deus e à voz pública da Igreja.

Na igreja evitamos todo ruído por reverência à divina Majestade; estamos com o devida compostura; temos as mãos fora da cogula. Sempre e em todas as partes temos de ter a vista recolhida, mas principalmente na igreja e o refeitório.

Cantadas as Horas ou finda a Missa ou outro Ofício, o Prior sai o primeiro da igreja, depois o Vigário e, seguidamente, os demais. Ninguém deve deter-se então na igreja ou outra parte, a não ser que uma evidente necessidade o justifique. "

31 outubro 2010

52 -O canto litúrgico

"Modo de cantar e salmodiar

Nossa Ordem reconhece como próprio de sua Liturgia o canto gregoriano.

Devemos participar nos divinos louvores com atendimento e fervor de espírito e estar ante o Senhor não só com reverência, senão também com alegria, não com frouxidão nem sonolência, nem poupando a voz, nem mutilando os vocábulos, senão pronunciando com tom e afeto varonil, como é devido, as palavras do Espírito Santo.

Guardem-se a simplicidade e cadência no canto, para que esteja impregnado de gravidade, e fomente a devoção; já que devemos cantar e salmodiar ao Senhor tanto com o coração como com os lábios. Será ótima nossa salmodia se nos apropriamos o mesmo afeto íntimo com que foram escritos os salmos e cânticos.

Evitem-se na salmodia a lentidão e a precipitação. Cante-se com voz plena, viva e ágil, de sorte que todos possam salmodiar devotamente e cantar com atendimento, sem dissonâncias, com afeto e perfeição.

Na mediante fazemos uma boa pausa. Comecemos e concluamos todos a um tempo o princípio, a divisão e o fim do versículo. Ninguém se permita adiantar-se aos demais nem apressar-se; cantemos todos a uma, todos a uma façamos as pausas, escutando sempre aos outros.

Em toda leitura, salmodia ou canto, não descuidemos acentuar e concertar bem os vocábulos, quanto seja possível, porque o entendimento capta e saboreia ao máximo o sentido, quando se pronuncia com propriedade.

É sumamente conveniente que se forme bem aos noviços no canto e são dignos de louvor os que, depois de sair do noviciado, nunca descuidam tal estudo.

Nas Casas da Ordem celebre-se cantado tanto o Ofício do dia como o da noite, sempre que assistam ao coro ao menos seis padres hábeis.

Os chantres, que estão à frente de cada coro devem ser peritos para poder dirigir bem e oportunamente aos demais na salmodia e canto na forma dita, mas sob a direção e autoridade do Prior. É ademais dever seu corrigir com modéstia os que cantam demasiado lenta ou apressadamente, ou de modo diferente a como está prescrito, mas é melhor do que o façam fora do coro.

Os chantres, em seu coro, sobem ou baixam o tom dos salmos e de todo o canto do Ofício divino, quando pareça conveniente, com o fim de que todos possam cantar comodamente.

Nenhum outro, estando eles presentes, pode corrigir o canto do coro, exceto o Prior ou, em sua ausência, o Vigário.

Perseveremos, pois, nesta maneira de salmodiar, cantando em presença da Santíssima Trinidade dos santos Anjos, inflamados em divino temor e íntimos anseios de Deus. Que o canto eleve nosso espírito à contemplação das realidades eternas, e que a harmonia de nossas vozes aclame jubilosa a Deus nosso Criador. "

41 -A Liturgia em nossa Ordem

"Cume e fonte.

A Liturgia é a cume à qual tende a atividade da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde mana toda sua força. Nós, que o deixamos tudo para procurar a só Deus e possuí-lo mais plenamente, devemos celebrar o culto litúrgico com especial fervor. Pois enquanto realizamos os ritos sagrados, especialmente a Eucaristia, ao ter acesso a Deus Pai por meio de seu Filho, o Verbo encarnado, que padeceu e foi glorificado, na efusão do Espírito Santo, conseguimos a comunhão com a Santíssima Trindade.

Signo de contemplação

Quando celebramos no coro o culto divino ou recitamos na cela o Ofício, nossos lábios pronunciam a prece da Igreja universal, pois a oração de Cristo é única, e por meio da sagrada Liturgia se faz extensiva a cada um de seus membros. Ademais, entre os monges solitários os atos litúrgicos manifestam de um modo peculiar a índole da Igreja, na qual o humano está ordenado e subordinado ao divino, o visível ao invisível, a ação à contemplação.

Complemento da oração solitária.

Nossos Padres, ao correr dos séculos, tentaram que nosso rito se conservasse adaptado a nossa vocação eremítica e ao reduzido de nossas Comunidades; por isso é singelo, sóbrio e ordenado antes de mais nada à união da alma com Deus. Nossa Mãe a Igreja, como sabemos, aprovou sempre a diversidade de ritos litúrgicos, que manifesta melhor sua catolicidade e unidade. E assim, por meio dos ritos sagrados podemos expressar as mais profundas aspirações do Espírito, e a oração que brota do íntimo do coração adquire uma nova perfeição ao reconhecer-se a si mesma nas palavras sagradas.

A Liturgia se completa com a oração solitária.

Por outra parte, a oração comunitária que fazemos nossa pela celebração litúrgica, prolonga-se na oração solitária com a que oferecemos a Deus um íntimo sacrifício de louvor que está acima de toda ponderação. A solidão da cela é, efetivamente, o lugar onde o alma, cativada pelo silêncio e esquecida de toda humana preocupação, participa da plenitude do Mistério pelo que Cristo, crucificado e ressuscitado, retorna ao seio do Pai. Assim o monge, ao tender incessantemente à união com Deus, realiza em si mesmo todo o significado da Liturgia. "

30 outubro 2010

38-Eleição do Prior

"Quando alguma Casa da Ordem fica sem Prior, o Vigário deve averiguar por votação secreta dos professos solenes que têm direito a eleger, se querem fazer a eleição do novo Prior. Se então se celebra o Capítulo Geral, a Casa comunicará quanto antes sua resposta ao Definitório. Se não quer eleger, ou se verificado um segundo escrutínio há ainda empate a votos, o Vigário peça ao Capítulo Geral ou, se então não se celebra, ao Reverendo Pai, que segundo sua prudência proveja à Casa em sua necessidade.

Se a Comunidade responde que quer eleger, o Vigário deverá admoestar seriamente no Senhor aos eleitores que a eleição de pastor de almas é assunto muito árduo e de suma importância, já que o bem ou o mal de toda a grei depende quase inteiramente de que o pastor seja bom ou mau; e que, por tanto devem proceder neste assunto com toda retidão, prudência e temor de Deus. Na eleição de Prior se deve atender antes de mais nada às dotes necessárias para o governo das almas. Também se requer alguma aptidão para a administração temporária, mas por si só não pode determinar a dar o voto; ademais, o cuidado do temporário se pode encomendar a outras pessoas.

Uma vez que o Vigário propôs tudo isto, prescreve-se a todos um jejum de três dias consecutivos, a não ser que se interponha uma Solenidade ou um Domingo.

Cada dia, até que tenha Prior, a Comunidade, depois de Laudes e de Vésperas canta com especial devoção o hino Veni, Creator Spiritus, como o traz o Ritual.

Todos podem licitamente, mais ainda devem, conferir aos membros da Ordem que conhecem melhor às pessoas. Mas guardem-se os religiosos assim conferidos de pressionar em modo algum aos eleitores.

Convocar-se-á o antes possível aos Confirmadores que devem presidir a eleição. Serão dois Priores, designados pelo Capítulo Geral ou o Reverendo Pai, ou se não podem achar-se facilmente dois Priores, um com um monge (que não seja da Casa eleitora). Se nada o impede, um dos dois Confirmadores deve ser um dos Visitadores da Província.

Os assim convocados para assistir à eleição, unam-se à Comunidade eleitora no silêncio e a oração, sem intrometer-se na futura eleição de nenhum modo. Sua missão não é designar pessoas, senão somente responder com toda verdade a quem lhes perguntem, e receber simplesmente os votos dos eleitores.

O dia em que se faz a eleição, celebra-se ou concelebra a Missa do Espírito Santo, com assistência de toda a Comunidade; preside um dos Confirmadores. Depois, o Vigário convoca no Capítulo aos Confirmadores e à Comunidade. Ali, estando todos de pé e descobertos, o Confirmador principal começa as preces que traz o Ritual. Depois, ele ou seu colega faz uma exortação. Terminada esta, ficam no Capítulo unicamente os eleitores com os confirmadores; os demais de retiram.

Então o Confirmador principal adverte a todos os eleitores que elejam a quem segundo Deus e sua consciência, julguem que é verdadeiramente apto e idôneo para o cargo de Prior naquela Casa.

Depois disto, o Confirmador principal manda que cada qual vá ao lugar destinado para escrever as papeletas, nas que só se põem o nome e sobrenome do proposto para Prior. Imediatamente se mete a papeleta num envelope, leva-se à mesa dos Confirmadores e se joga na urna ali preparada ao efeito.

Se algum dos que têm voto não pode assistir pessoalmente à eleição poderá escrever uma papeleta e metê-la num envelope, igual que os demais. E os mesmos Confirmadores irão a sua cela, se é necessário, para recolher o voto.

Feita a votação, o Confirmador principal conta as papeletas e asabre. É preciso que o futuro Prior obtenha mais da metade dos votos emitidos de fato, isto é, sem contar os votos nulos e as abstenções. Se nenhum os atinge, os Confirmadores darão os nomes dos que obtiveram votos e dirão quantos recaíram sobre cada um. Então se queimarão ali as papeletas e se voltarão a escrever outras novas.

Se depois da terceira votação ninguém fica eleito, pode-se fazer uma quarta e última votação o mesmo dia; antes da qual poderão sair os monges fora do Capítulo e trocar opiniões entre si, mas sem falar com outros. Se finalmente não sai nenhum eleito, terá que escrever todo o assunto ao Reverendo Pai, quem, depois de ouvir aos Visitadores da Província proverá à Casa privada de pastor.

Mas, se resulta eleito algum, o Confirmador principal dirá em alta voz: Temos Prior, e dirá seu nome, sua Casa de Profissão e a obediência que tem, se então tivesse alguma, indicando também o número de votos que obteve. Por último, queimam-se todas as papeletas.

Depois de publicar-se adiante de todos o nome do Prior, o Vigário, a não ser que tenha recaído sobre ele a eleição, roga aos Confirmadores que acedam a confirmar como Prior ao eleito. Os Confirmadores assinalarão um prazo, a saber, um ou dois dias, para objetar contra a forma da eleição e a pessoa do eleito.

Se os Confirmadores não encontram nenhum impedimento, congregados em Capítulo todos e só os eleitores, enquanto os demais se reúnem na igreja, confirmarão ao eleito dizendo o Confirmador principal: Nós, N. e N., humildes Priores das Casas N. e N., designados pelo Capítulo Geral (ou pelo Reverendo Pai) para presidir vossa eleição, com a autoridade de nossos Estatutos vos confirmamos como Prior desta Casa a Dom N., professo de tal Casa, no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. E a Comunidade responderá: Amém. Quando um dos Confirmadores está impedido ou é o eleito Prior, o outro fará por si só a confirmação. Depois, o segundo Confirmador lerá o processo verbal da eleição, que assinarão primeiro os Confirmadores e, depois deles, todos os eleitores.

O dia em que o Prior toma posse de seu cargo, à hora convinda, os Confirmadores (ou, em sua ausência, o Vigário e o Antiquior), tomando da cogula uno de cada lado ao novo Prior, conduzem-no à cadeira prioral na igreja, seguidos por toda a Comunidade. Feita ali uma breve oração ante as formas, de joelhos e descobertos, vão todos ao Capítulo, onde, depois de algumas palavras do Confirmador principal (ou do Vigário) ao novo Prior, este faz a profissão de fé segundo a norma canônica. A seguir se lhe acerca o Vigário e, de joelhos põe suas mãos juntas entre as do Prior. Ao perguntar-lhe este: “Prometes obediência?”, responde: “Prometo”, e, recebido o ósculo de paz levanta-se e se volta a seu lugar. O mesmo fazem depois do Vigário, o Antiquior e os demais por ordem.

Todo esse dia se celebra com gozo, come-se no refeitório e não se guarda jejum, a não ser que seja tal do que nem por uma Solenidade se quebrantaria. O Ofício que precede ao refeitório se canta na igreja. "

29 outubro 2010

36 -Ritos da vida cartusiana

"O que ingressa na família cartusiana, depois de uma primeira provação é recebido como novicio : pondo suas mãos entre as do Prior expressa sua sujeição e é sócio à Ordem; se o conduz por todos à cela ou, se é um novicio irmão, à igreja, para dar-lhe a entender que sua vida está principalmente consagrada à oração.

A Profissão, e também a sua maneira a Doação, consumam-se ao pronunciar a fórmula de Profissão ou Doação, já que é um compromisso pessoal e livre. Antes de emitir os primeiros votos, ao que vai professar se lhe veste a cogula própria dos professos, pela que se significa a conversão de costumes e a consagração a Deus; antes do ato irrevogável da Profissão solene, pede com particular interesse a ajuda da oração a seus irmãos.

Recepção de um novicio do claustro

O postulante, ao fim de seu provação, é apresentado num determinado dia à Comunidade. Adiante desta, se lhe pergunta antes de mais nada se professou em algum Instituto religioso, se está livre do vínculo matrimonial, se padece alguma doença incurável, se pode ser promovido às sagradas Ordens, se carece de dívidas; advertindo-se que se ocultasse algo a respeito do que se lhe pergunta, poderá ser expulsado ainda depois da Profissão.

Outro dia, reunidos todos no Capítulo, o postulante pede misericórdia prostrado. Depois, a uma indicação do Prior, levanta-se e diz: Suplico por amor de Deus ser admitido à provação em hábito monacal, como o mais humilde servidor de todos se a ti, Pai, e à Comunidade vos parecer bem.

Então o Prior lhe expõe o gênero de vida que deseja abraçar.

Se a tudo isso respondesse que, confiando unicamente na misericórdia de Deus e nas orações de seus irmãos, tudo cumprirá com a ajuda da clemência divina, o Prior adverte-o que antes da Profissão poderá ir-se livremente, e que nós também o poderemos despedir com toda liberdade se, considerando o caso ante Deus, não nos parecesse idôneo para nossa vida. Se o postulante dá sua conformidade, ajoelha-se aos pés do Prior, juntas suas mãos entre as do Prior, e este, em nome de Deus e da Ordem, no seu próprio e no de seus irmãos, associa-o à Ordem. A seguir, o novicio recebe o ósculo de paz, primeiro do Prior, e depois, de todos os demais.

O mesmo dia, se é possível, ao novicio, vestido em privado, se o conduz à igreja, e, prostrado, ora na arquibancada do presbitério. O Prior, revestido de cogula eclesiástica e estola branca, coloca-se na última cadeira do coro direito. Os monges, de joelhos, coro contra coro, cantam o versículo Veni, Sancte Spiritus. Uma vez findo, inclinados todos sobre as misericórdias, o Prior diz um versículo e adiciona uma oração.

Depois, o novicio é conduzido por todos à cela, talheres, cantando os salmos 83 (Que desejáveis...), 131 (Senhor, tem-lhe em conta...) e 50 (Misericórdia...). Se bastam um ou dois, não se dizem mais. Vai primeiro o Prior, segue o novicio, depois o Procurador ou outro levando o água bendita e, finalmente, a Comunidade por ordem de antigüidade. Ao chegar o Prior à porta da cela, asperge ao noviço e à cela mesma, dizendo: Paz a esta casa, e, tomando ao novicio pela mão, fá-lo entrar ao oratório, onde este ora ajoelhado. Terminado o salmo ou os salmos pela Comunidade seguem as preces indicadas no Ritual.

Uma vez concluídas as preces, o Prior impõe ao novicio a obrigação de guardar a cela e todas as demais observâncias e exercícios próprios de nossa Ordem, a fim de que em solidão e silêncio, e em assídua oração e generosa penitência, consagre-se a só Deus. E o encomenda ao Mestre de noviços.

Recepção de um noviço irmão

O postulante, ao final de seu provação, é apresentado num determinado dia à Comunidade. Antes de mais nada se lhe pergunta adiante dela se professou em algum Instituto religioso, se está livre do vínculo matrimonial, sem padece alguma doença incurável, se carece de dívidas; advertindo-se que se ocultasse algo a respeito do que se lhe pergunta, poderá ser expulsado ainda depois da Profissão.

O dia da recepção o postulante, prostrado no Capítulo adiante de toda a Comunidade, pede misericórdia. A uma indicação do Prior, revestido de cogula eclesiástica e estola branca, levanta-se e suplica por amor de Deus ser admitido à provação em hábito monacal como o mais humilde servidor de todos. O Prior, pronunciada uma exortação, adverte-lhe que durante o noviciado poderá ir-se livremente, e que também nós o poderemos despedir se, considerado o caso ante Deus, não nos parecesse idôneo para nossa vida. O postulante, depois de dar seu consentimento, ajoelhando-se aos pés do Prior, junta as mãos entre as mãos do Prior; este, em nome de Deus e da Ordem, no seu próprio e no de seus irmãos, associa-o à Ordem. Então se lhe veste a cogula de novicio e a capa, e é recebido com o ósculo de paz, primeiro pelo Prior e a seguir por todos os demais.

Ato seguido, o novicio é conduzido do Capítulo à igreja, cantando a Comunidade o salmo 83 (¡Que desejáveis...). Vai diante o Prior, segue o novicio, depois os padres e irmãos, por ordem de antiguidade. Ao chegar o Prior à igreja, tomada ao novicio da mão e o leva às arquibancadas do presbitério, onde se prostra em oração.

Entre tanto, a Comunidade, de joelhos, canta o verso Veni, Sancte Spiritus. Depois, o Prior, inclinado sobre as misericórdias ao mesmo tempo em que a Comunidade, diz o versículo e adiciona uma oração. Acabado tudo, o novicio se levanta, faz inclinação profunda, e vai a sua cadeira do coro.

Profissão de votos simples

O dia antes da Profissão, seja simples ou solene, o novicio, antes de Vésperas, ou também o mesmo dia da Profissão pela manhã no Capítulo, prostrado adiante da Comunidade, pede misericórdia; ao dizer-lhe o Prior Levanta-te, levanta-se e suplica ser admitido à Profissão como o mais humilde servidor de todos; e escuta de pé o sermão do Prior.

O dia da Profissão expõem-se no altar algumas Relíquias de Santos.

Quando se trata da Profissão temporária, ao começar o Kyrie eleison na Missa conventual, o Mestre de noviços ou outro se ele está impedido, deixa a nova cogula sobre as formas, adiante do que vai professar. Depois do Evangelho, ou o Credo, se se diz, omitida a Oração universal, o que vai professar se dirige à arquibancada do presbitério levando a nova cogula nas mãos, e ali, feita inclinação profunda, deixa-a e fica em pé. Então se lhe acerca o Prior e diz as preces contidas no Ritual. Depois abençoa, com a mão estendida, a cogula posta sobre a arquibancada ante o que vai professar, dizendo a oração adequada. Terminada a bênção, asperge com água bendita a cogula.

Ato seguido, de joelhos ante o Prior na primeira arquibancada do presbitério, o que vai professar recita com voz inteligível (e se são variados, recitam juntamente) o salmo 15 (Protege-me, Deus meu), até o versículo O Senhor é o lote, exclusive. Então o Prior, ajudado pelo Sacristão, tira ao novicio a capa e a cogula, dizendo: Que Deus te despoje do homem velho e de suas ações, e lhe põe a cogula longa, dizendo: e te revista do homem novo que foi criado por Deus em verdadeira justiça e santidade. Se forem variados, repete as mesmas palavras para cada um.

Seguidamente, o novicio lê a fórmula da Profissão, escrita numa folha de papel que sustenta na mão. Se forem variados, têm de lê-la um por um.

Emitidos os votos, o professo entrega a folha ao Prior, e continua a leitura do salmo antes começado, desde O Senhor é meu lote até Glória ao Pai... Amém. Terminado isto, faz inclinação profunda e volta a seu lugar.

Na Missa de Profissão, o mesmo temporal que solene, o novo Professo, ainda que seja sacerdote, comunga depois do diácono de mãos do Prior, e, pelo mesmo, não concelebra; mas pode celebrar Missa rezada no mesmo dia.

Profissão solene.

Sobre as cerimônias em Capítulo e a preparação do altar, veja-se o n. 8. Na Missa, que é do Prior, terminado o Evangelho, ou o Credo se se canta, omitida a Oração universal, o que vai professar (ou os que vão professar) acerca-se ao centro da arquibancada do presbitério, e ali, depois de ter feito uma inclinação profunda, canta o verso:

Acolhei-me, Senhor, com tua promessa, e viverei: que não fique frustrada minha esperança.. Ao qual responde a Comunidade, de cara ao altar, o mesmo e no mesmo tom. Repetido três vezes este verso por ambas as partes, a Comunidade, inclinada sobre as misericórdias, canta o Glória Pai..., Senhor, tem piedade..., e ora em segredo.

O que vai professar se incorpora ao começar o Como era no princípio, dirige-se pelo lado direito do coro até a cadeira primeira, e, de joelhos ante o monge, que está de pé, e depois ante os demais monges deste coro, diz com voz inteligível: irmão, roga por mim; passando, depois, aos monges do coro esquerdo, faz o mesmo. Depois do qual, a Comunidade se ergue e se volta para o altar; e o que vai professar, de pé ante o meio do altar e voltado para ele, lê, com voz clara e inteligível que todos a ouçam, sua Profissão escrita em pergaminho; uma vez lida, beija o altar e a oferece sobre o mesmo. Prostrado adiante da cátedra aos pés do celebrante, recebe a bênção; enquanto , a Comunidade se inclina sobre as misericórdias. O Prior canta a oração com a mão estendida sobre o professo, e se são variados a diz em plural. Depois o asperge com água bendita. O professo volta a seu lugar.

Na Prece eucarística se faz comemoração do novo professo solene, para que seu oblação fique mais intimamente incorporada ao sacrifício do divino Redentor.

Doação temporária

A Doação temporária se faz no Capítulo, antes de Vésperas, em presença da Comunidade. O novicio, prostrado, pede misericórdia. A uma indicação do Prior, vestido com cogula eclesiástica e estola branca e sentado ante o altar, levanta-se e diz: Suplico por amor de Deus ser admitido à Doação temporária como o mais humilde servidor de todos, se a ti Pai, e à Comunidade vos parecer bem.

Depois, tendo escutado a exortação do Prior, enquanto a Comunidade permanece sentada e coberta, o novicio se adianta e se ajoelha ante a arquibancada do altar. O Prior se levanta e, ajudado pelo Procurador e o Sacristão, tira-lhe a capa e a cogula pequena, dizendo: Que Deus te despoje do homem velho e de suas ações, e lhe põe a cogula longa sem bandas, dizendo: e te revista do homem novo que foi criado por Deus em verdadeira justiça e santidade. Se forem variados, repete o mesmo a cada um.

O novicio lê então a fórmula de Doação, escrita numa folha de papel que tem na mão, e a entrega ao Prior uma vez feita a Doação.

O Prior aceita a doação com estas palavras: E eu, caríssimo irmão, aceito tua Doação no nome de Deus e da Ordem; e, em meu nome e no dos meus sucessores, comprometo-me prover, com coração de pai, a todas tuas necessidades espirituais e corporais, desde que permaneças fiel a tuas promessas. E que a bênção de Deus todo-poderoso, Pai, + Filho e Espírito Santo, desça sobre ti e contigo permaneça para sempre. R/. Amém. Depois da palavra “prometo”, adiciona o tempo da Doação, se se trata da temporal; ou “durante toda tua vida”, se se trata da perpétua. Depois, todos vão ao coro para cantar as Vésperas.

Doação perpétua.

A Doação perpétua se faz em presença de toda a Comunidade, antes de Vésperas. Primeiro, reunida a Comunidade em Capítulo, o doado se prostra ante o Prior, que está sentado e revestido de cogula eclesiástica e estola branca, e pede misericórdia. Levanta-se a uma indicação do Prior, e diz: Suplico por amor de Deus ser admitido à Doação perpétua como o mais humilde servidor de todos, se a ti, Pai, e à Comunidade vos parecer bem.

Ouvida a exortação do Prior, dirigem-se todos à igreja, indo o doado por trás do Prior. O doado se ajoelha na arquibancada do presbitério, estando o Prior de pé adiante dele, e os demais monges em seus lugares de pé, voltados para o altar e talheres. Então o doado lê a fórmula de Doação, e o Prior a aceita e o abençoa.

Depois, enquanto o doado permanece ajoelhado no mesmo lugar, o Prior vai à última cadeira do coro direito e a Comunidade, de joelhos ante as formas, canta o Sub tuum præsidium. O cantor hebdomadario adiciona um versículo, e o Prior recita uma Oração.

Depois, este se deixa a cogula eclesiástica no vestuário e vai a sua cadeira; também o doado vai a sua cadeira, e começam as Vésperas. "