22 setembro 2011

Provisoriamente

No entanto, noutro contexto, angulos e pontos de vista, mas com o mesmo espírito de Fé e Esperança, continuo aqui

17 setembro 2011

Nossa Senhora de Lourdes

Na igreja de Santa Maria Madalena, Ilha do Pico - Açores. Não é um milagre, mas sim a luz que ao entrar por detrás do resplendor, numa pequena janela, criou a "ilusão" disso mesmo...ou talvez não...

12 julho 2011

As bem-aventuranças

Cristo diz-nos que "felizes..." nas bem-aventuranças...mas, como vivermos felizes numa sociedade que cada vez mais põe Deus no lixo (qual Moody`s)...

07 junho 2011

Artigo sobre os Cartuxos de Évora

Artigo Jornal Expresso Dia 3 de Junho 2011

Um artigo com algum interesse para quem se interessa por esta Ordem Monástica. Gostei particularmente da parte final onde o seu autor (possivelmente sem se aperceber do que escreveu - em termos de fé) refere que "enquanto estamos aqui, eles estão lá, a fazerem-nos saber que "lá" é um lugar que existe."
Que soberbo final de artigo.

26 maio 2011

São Bruno em oração

Pintura da autoria de Domingos António Sequeira patente no Museu Nacional de Arte Antiga.

19 maio 2011

Veio-me à ideia


“Ninguém fica para semente.”, alguém comentou ontem num velório onde estive.

No entanto, muitos deixam a sua semente e todos são a semente de alguém.

19 abril 2011

Dá que pensar...

"Curioso é que nos últimos anos, o número de Peregrinos pelas estradas tem vindo a aumentar, numa relação inversamente proporcional à presença das pessoas nas missas. É crucial entender a razão que leva muitos jovens estarem perto de Deus e mais longe da Igreja Católica!?"

Excerto de um artigo de opinião sobre as Romarias Quaresmais.

14 março 2011

Quadragésima.com 2011

O tempo da Quaresma é um tempo de descoberta da nossa identidade como cristãos. É um tempo de encontro connosco próprios e com Deus. É um tempo especial de introspecção e reflexão. Porque não havemos de o fazer aqui, na net, e de uma forma mais comunitária, ajudando-nos uns aos outros?! Deste objectivo nasceu em 2008 esta proposta, a “quadragésima.com” no Confessionário.


Regras da quadragésima.com:

1. Ao receber a “quadragésima.com” o blogger deve reflectir na sua relação com Deus e descobrir uma frase bíblica que a defina
1.1- só se admitem frases retiradas, com citação, da Bíblia;
1.2- as frases devem ser o mais curtas possíveis;
2. Depois de o fazer deve re-escrever num post estas regras, as frases já assinaladas pelos anteriores bloggers (com o respectivo link), e escrever a sua;
3. No post deve incluir quem deseja convidar (pode e deve manifestá-lo no blog da pessoa convidada);
4. Não é permitido fazer mais que um convite ao mesmo tempo;
5. O blogger que, recebendo a “quadragésima.com”, não estiver interessado em aceitá-la, deve indicá-lo ao seu emissário para que este lhe dê seguimento através de outro blogger;
6. Não podem aceitar mais que uma vez a “quadragésima.com”; se o convite aparecer, mesmo vindo de outra “frente”, devem igualmente informar o emissário do segundo convite;
7. Baseada nalgumas das principais figuras da liturgia da Quaresma, a “quadragésima.com” realiza-se em 3 frentes: frente “Adão” (I Domingo); frente “Abraão” (II Domingo); frente “David” (IV Domingo); estas frentes funcionarão quase como equipas, para tentar chegar ao maior número de bloggers possível (não se trata de encontrar vencedores, mas empenhados)
8. A “quadragésima.com” será encerrada na Sexta-feira Santa, dia 22 de Abril, pelas 12.00 horas, hora em que o último blogger receptor deve endereçá-la, já com a sua frase, a este endereço, para publicitarmos todas as frases que definem a nossa relação com Deus nesta Quaresma de 2011.
9. Os “anónimos” interessados em participar nesta “quadragésima.com”, podem escrever as suas frases no sítio do Confessionário dum Padre, aqui, identificando-se.

Assim, a Fa do Partilhas em Fá Menor convidou Deus em tudo e sempre e esta convidou-me para a frente “Adão”, e eu convido a Mari a dar-lhe continuidade.

Obrigado por aceitares a "quadragésima.com". As frases:

“E tu, quem dizes que Eu sou?” Mc 8, 28 - Confessionário dum padre

Frente Adão

"Olhai como crescem os lírios do campo! Não trabalham nem fiam. Pois eu vos digo: nem Salomão, em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles.” Mt 6, 28-29 – Partilhas em Fa Menor

Frente Adão

"Senhor, a quem iremos? Tu tens palavras de vida eterna." Jo 6, 68 Deus em Tudo e Sempre

Frente Adão

“Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo.” S. Mateus 6,6
Confessioxxi

10 março 2011

+ 1 Pensamento que me ocorreu


"Ainda que a Mulher tenha sido criada da costela do Homem, Deus deu-lhe uma particularidade especial e única, a graça da possibilidade de gerar Vida dentro de si, quase equiparável a Ele, que criou primeiramente o Homem."

04 março 2011

Pensamento

Um pensamento que me ocorreu esta madrugada e agora "consegui" passar a palavras:

"Que segredo fabuloso nos esconde Deus ao dar-nos “o outro” (o cônjuge), amá-lo tanto, ou mais, que a nós mesmos e no entanto, após a dádiva do nascimento da carne da nossa carne e sangue do nosso sangue, só por este estamos dispostos a dar a Vida."

03 março 2011

"Procuro" este Élixir


Já varias pessoas me têm perguntado onde comprar este fabuloso élixir que a Grande Chartreuse fabrica, no entanto, para além do site francês, não sei onde esteja à venda em Portugal. Dizem que é medicinal. Se alguém souber onde se poderá comprar (em Portugal) agradeço.

25 fevereiro 2011

Cartuxos (um oásis no meio do deserto) II

É um filme sem actores, falas, luzes, efeitos especiais ou banda sonora, no entanto, com tudo para ser um dos melhores que vi até hoje. Refiro-me ao filme que dá pelo nome de “O Grande Silêncio”, da autoria do alemão Philip Groning sobre o quotidiano dos monges de um mosteiro Cartusiano, mais precisamente da casa-mãe, a Grande Chartreuse, nos Alpes franceses, fundada por São Bruno de Colónia (103-1101), em 1084 (séc. XI). Apesar do seu nome “sugestivo” é um filme com quase 3 horas, mas com um silêncio que nos fala ao coração. São quase 3 horas absorventes e emocionantes onde, sem nos apercebermos, mergulhamos num mundo tão misterioso e frequentemente tão silencioso como o lado não visível da Lua. Contudo, para entrarmos neste filme devemos agir como quem se recolhe em oração. As imagens, essas conduzem-nos a uma misteriosa mas profícua peregrinação interior.

Tal como o tempo de Deus é diferente do nosso, também a autorização para a realização deste filme demorou cerca de 17 anos a ser concedida, pelo prior-geral da Ordem, aliás, estes monges também não vivem de acordo com o nosso senso de tempo. Atrevo-me a dizer que a paciência de Groning em relação a este projecto teve algo de divino, como se o tempo certo para o realizar tenha sido “aquele” e não “antes”.

“Susto. Surpresa. Choque.” Foi assim que o Pe. Antão López, da Cartuxa de Évora, começou por falar deste filme, adiantando que “o filme retrata com fidelidade a existência cartusiana, na sua liberdade de mil coisas supérfluas, para vivermos o essencial que é Deus.”

Trata-se de um filme sobre a presença do absoluto e a vida de homens que dedicam a sua existência a Deus.

O silêncio, ali, não é um silêncio absoluto. A bem da verdade, o filme está cheio de sons. O som de uma gaveta que é aberta, uma tesoura que rasga um tecido de pano, um sino que toca, das orações, do vento, da lenha a crepitar ou dos risos em momentos de brincadeira. Então, se não há silêncio, por que se chama “O Grande Silêncio”? Penso que será porque há uma absoluta surdez relativamente a tudo o que são os “nossos” sons ou melhor dizendo, os “nossos” ruídos.

Termino com uma passagem, das poucas onde “O Grande Silêncio” é interrompido por algumas palavras (por sinal de uma profundidade inalcançável) e que ficaram-me gravadas com uma dos maiores louvores que se podem fazer a Deus Nosso Senhor, um amor incondicional ao Pai. Refiro-me a uma passagem, na qual um monge mais idoso quebra o silêncio para Lhe agradecer por tê-lo tornado cego. Depois termina dizendo: “ Tenho a certeza que Deus o fez para o bem da minha alma”.

Este filme ganhou os Prémios de Melhor Documentário no Festival de Sundance e nos Prémios Europeus do Cinema.
(publicado no Jornal "A União" de 26/02/2011)

23 fevereiro 2011

Transferências de Amor

"A Cartuxa é um modo de o ser, Ser.



O Ser é silêncio em movimento,
Movimento de Amor.


Seu Iniciante está: deslumbrado,
Pela Paixão
De um Primeiro Olhar.


Não sabe ainda, (mas o irá saber),
do aprofundamento deste Amor,
Que ela própria, a Cartuxa, guarda, no íntimo de seu
Silêncio Recôndito,
Um Beijo Obscuro,
com Sabor de Abismo.


Isto vai re-velando-se (no tempo certo!),
ao Apaixonado,
Após deixar-se desve-lar.
E neste exato momento de Alma,
vai-se desconstruíndo,
“Um saber montado sobre o espiritual”, pretenso conquistado,
que o Apaixonado, em seus devaneios,
que a solidão propicia,
havía, no orgulho, da primeira conquista,
ter adquirido.


Esquece-se o Apaixonado, a dedicação
ao serviço do Cuidado do Mistério,
preso foi à soberba e à sensualidade espirituais.


Sente, então, o Apaixonado,
A aridez em seu peito,
e o real peso na sua Alma, do Mistério.
Quer fugir:
- Não é nada disto que imaginei ?


Que peso tem tudo Isso ?
Da “justa medida” do Peso da Leveza.
Sentimento este próximo
de estar à beira de um Abismo,
sentindo o corpo fixar-se à terra, na sua borda,
e a Alma, joga-se numa empreitada...
para que venha a sentir este peso, justo
da sua leveza.


O olhar do corpo,
ainda preso está.


Neste instante,
Sente-se Ausentado,
Para que o Iniciante Apaixonado,
Seja Encaminhado ao
ao Dignissímo Merecedor e Retribuidor deste Amor,
O Cristo, Amado.


Ele,
Deixa-Ser o Único Necessário."

Dr. Alessandro Zardo
alessandrozardo@terra.com.br



22 fevereiro 2011

Pensamento para hoje

Ocorreu-me ontem...

"Deus, na sua infinita misericórdia, deixa que as crianças puras de coração vejam com a alma, “aquilo” que nós adultos pecadores não sentimos com os olhos."

21 fevereiro 2011

"O QUE APRENDI NA GRANDE CARTUXA"

Artigo publicado na revista "Selecções do Reader's Digest", Abril de 1953, n.º 135 – Edição brasileira, da autoria de A. J. Cronin.


"Ao brilho intenso do sol dos Alpes da Sabóia francesa, depois de uma subida extenuante, normalizei a respiração e puxei a corda da campainha. Aberto o postigo da pesada porta, após um momento de exame, um irmão leigo de capuz pardo introduziu-me, silenciosamente, num pátio murado, onde, entre canteiros de flores a zumbir de abelhas, uma fonte cantava. Adiante, de cada lado da vetusta igreja, corriam dois compridos claustros arqueados, dos quais saíam fileiras de curiosas moradas de íngremes telhados vermelhos. Percebi logo que se tratava dos eremitérios individuais onde habitam, na solidão e no silêncio, os monges da Ordem.

Sabendo que quase nenhum estranho tinha entrado naquele remoto santuário, experimentei profunda palpitação de expectativa. Depois de uma velocíssima viagem de 6.500 quilómetros, e sentindo ainda nos ouvidos o burburinho de Nova York, eu me encontrava no pátio do famoso mosteiro da Grande Cartuxa.

Mas eis que se aproxima de mim, com passos rápidos e com um sorriso tímido mas amistoso, um vulto franzino de hábito branco. Era o Prior, homem dos seus 50 anos, de face corada e de olhos de um azul muito escuro. Deu-me as boas-vindas com simplicidade e dignidade, e ouviu, cortesmente, a explicação dos motivos da minha visita. Depois levou-me a um eremitério desocupado e disse que o Padre Arquivista iria acompanhar-me numa visita geral. E retirou-se.

O eremitério era de pedra e tinha no andar térreo uma pequena oficina com ferramentas, um banco de carpinteiro e um depósito de madeira; no andar superior ficavam o oratório singelo e o quarto de dormir. Nesta, o que vi foi uma mesa simples de carvalho, um pequeno aquecedor de ferro, uma estante de livros, um modesto genuflexório e a cama com um tosco colchão de palha.

Um sino tocou suavemente, ecoando entre os cumes banhados de sol. Lá no alto, o céu era de um azul ofuscante. Tomado pelo sentimento da solidão que me cercava, sentei-me. Era ali, naquela prisão voluntária, que um homem tinha decidido passar toda a sua vida. Era ali, que ele trabalhava e orava, cultivava o seu pequeno jardim e se entregava àquela intensa contemplação que é o fim e o propósito do monge cartuxo.

Nessa altura ouvi uma leve pancada na porta. Era Dom Arthaud, o padre Arquivista, homem idoso mas de porte viril, rosto largo e simpático, olhos castanhos inteligentes piscando brejeiramente atrás dos óculos, para surpresa minha.

- Às suas ordens, senhor. Que deseja saber? – perguntou-me ele depois de me cumprimentar.

- Tudo. Diga-me antes de mais nada: guarda-se aqui silêncio absoluto?

- Exactamente. Excepto, é claro – acrescentou, fazendo uma delicada vénia – quando recebemos a honra de receber alguém como o senhor.

- Quando começa o dia para os monges?

- Às 5 e 45 levantamo-nos com o sino e nos ocupamos com orações até às 7 e 15.

- E em seguida fazem a primeira refeição?

- Não. A nossa primeira e única refeição completa é feita ao meio-dia.

- Somente ao meio-dia?! – Exclamei. – Em que consiste?

- Em geral, consta de verduras da nossa horta.

- Comem carne de vez em quando?

- Nunca. (O meu espanto pareceu diverti-lo.) E uma vez por semana, bem como em muitos dias especial, o nosso único sustento é pão seco e água.

Os meus olhos viraram-se para a dura cama de madeira.

- Deitam-se cedo? – perguntei.

- Sim. Às seis e meia da tarde.

- Pelo menos têm um bom descanso à noite.

- Só até às 10 horas – disse o monge com um sorriso suave. – Então o sino toca, nós nos erguemos para o Ofício nocturno, e depois, acendendo nossas lanternas, vamos para as devoções em comum na igreja.

- Mas então quando é que se deitam?

- Cerca das 3 da manhã.

- E tornam-se a levantar às 5 e 45!

- Exactamente… E garanto-lhe que é descanso mais do que suficiente. – O monge apertou-me o braço, como que para abafar em mim qualquer expressão de dó.

- Venha comigo. Vamos dar uma volta pelo mosteiro.

Enquanto me conduzia pela belíssima igreja, com magníficos assentos e coro lavrados, o Padre Arquivista informou-me a fundação se devia a S. Bruno, com mais seis companheiros em 1084. Mas o que me interessava mais era o lado humano do que o histórico. Enquanto caminhávamos por um corredor de lajes, húmido mesmo naquele dia de Verão com o calafrio da antiguidade, perguntei:

- Vocês não sentem frio aqui no Inverno?

- Oh não. – Ele bateu familiarmente a pedra nua como quem tocasse o ombro de um velho amigo. – As paredes são espessas. E nós temos os nossos pequenos aquecedores.

- Mas parece que não aquecem grande coisa…

- Talvez não. – O piscar dos seus olhos acentuou-se. – Mas rachar lenha nos aquece.

Pensei nos longos meses de neve, nas procissões nocturnas através da escuridão gelada, no serviço religioso à meia-noite naquela igreja imponente e tenebrosa, e não pude reprimir um arrepio. Ao dobrar uma esquina, vimos um jovem leigo empurrando um carrinho cheio de fatias de pão, parando para deixar uma fatia na janelinha de cada eremitério.

Dom Arthaud explicou que aquele brave garçon voltara à pouco do serviço militar, tendo-se distinguido na campanha da Indochina.

- Cada qual toma a sua refeição sozinho?

- Sim… sempre na solidão.

- E é essa a sua ração de hoje?

O Padre Arquivista fez que sim com a cabeça. Com adorável simplicidade, dobrou o possante bíceps e disse:

- O pão é bom. Eu deixo um pedaço de pão sobre o meu banco de carpinteiro quando trabalho… como e trabalho… como e trabalho… trabalho e como… Ninguém pensa em comida quando está deveras ocupado.

- Ocupado?

- Fique certo, meu amigo, que o tempo não dá para o que desejamos fazer. Os bancos esculpidos à mão que o senhor tanto admirou na igreja são todos trabalho dos nossos monges. O mesmo se dá com estes painéis – e mostrou uns lindos trabalhos de linho lavrado ao longo do vestíbulo interno. – Também os móveis do nosso mosteiro, os armários do vestiário e inúmeras outras coisas… Como vê, até no sentido mais material não somos totalmente ociosos.

Prosseguimos a visita pelo claustro. O Padre Arquivista indicou um ermitério próximo e explicou:

- Ali mora um americano… Temos aqui dois americanos. E um padre mexicano. Outro da Áustria. Até um do Japão temos aqui.

- Então vêm gente de toda a parte?

- Sim, meu amigo. Mas temos todos um destino comum.

Com um gesto expressivo ele conduziu-me por uma arcada gótica a um pátio relvado coberto de flores e de flores silvestres. Ali, em filas bem ordenadas, via-se uma série de singelas cruzes de madeira preta, sem nomes, nem inscrição.

Fiquei calado por algum tempo.

- São muitas juntas umas das outras… aquelas cruzes – disse eu por fim.

- Nós não ocupamos muito espaço. Isto porque não precisamos de caixões. Como em vida, basta-nos uma tábua para deitar-nos em cima.

De volta ao eremitério e novamente só, tratei de por em ordem as minhas ideias. O modo de vida naquela prisão voluntária era muito mais severo do que eu havia imaginado. E no entanto, em vez de tristeza peculiar à penitência, em vez da melancolia do ascetismo que eu esperava, o que parecia impregnado na própria substância daquelas antigas pedras cinzentas era uma alegria despreocupada.

O sino soou mais uma vez. O sol escondera-se atrás dos pícaros da montanha. E com a passagem silenciosa das horas naquela estranha existência, que vista de fora, parecia falsa e contrária ao bom senso, assumiu um tranquilo ar de sanidade, enquanto o mundo hostil e absurdo lá de baixo se apresentava perdido no caos e na confusão.

Lá em todos os continentes, os homens disputavam desvairadamente o lucro, e em momentos de lazer só se preocupavam com divertimentos que lhes deleitassem os sentidos. A televisão lampejava, o rádio papagueava, os aviões roncavam fendendo as nuvens com maior rapidez que o som, grandes navios atravessavam velozes os sete mares transportando cargas humanas para aqui e para ali, em busca de riqueza ou de prazer. Ao mesmo tempo, porém, a atormentada e perplexa, vítima de um profundo desassossego, a Humanidade não conhecia a verdadeira felicidade. Em cada terra, ganhando malignidade cada dia, acumulavam-se os apetrechos feitos pelo Homem para a destruição de seu semelhante.

A ciência era agora a senhora, a pobre Humanidade a escrava, e o Homem, esquecido da simplicidade dos seus antepassados, atolado num imenso lamaçal de interesses individuais e de ideais falsos, extenuava-se e suava para fazer girar o moinho sem fim da sua própria desagregação. Essa, debaixo do seu verniz de civilização, era a triste epopeia da Terra, um mundo de trágicos desatinos girando pelo espaço, tendo apenas alguns poucos a erguerem o espírito, o coração e a voz para o Criador.

Não seriam, pois, mais sábios aqueles que tinham resolvido passar os seus dias neste retiro monástico, longe do barulho e da fúria mundana, perto da abóbada celeste, de maneira a poderem fixar permanentemente a vista nas verdades eternas e oferecer talvez, por suas humildes preces, uma reparação pela culpa dos outros?

Poucos, sem dúvida, são capazes de tal retraimento. A convicção deste facto enraizou-se em mim à medida que os dias passavam e eu conheci privações insólitas, o tormento das noites sem dormir e da alimentação espartana, a angústia da solidão nova.

Mas da experiência foi nascendo pouco a pouco uma verdade fulgurante. No supremo isolamento da Grande Cartuxa, inatingível embora para a maioria de nós, encontra-se uma salutar advertência – a necessidade imprescindível que todo o homem tem de se separar dos outros de quando em quando e fazer uma peregrinação interior ao seu próprio coração. Colhidos no vórtice da vida moderna, enredados nas suas complicações, adquirimos o medo de ficar sozinhos e preferimos procurar qualquer distracção do que permanecer na sempre difícil companhia dos nossos próprios pensamentos.

A minha estada ali tinha, forçosamente de chegar a um termo. Quando me despedi dos bons monges e desci à planície lá baixo, senti uma estranha tristeza no coração. Mas, percebi, claramente, que a minha subida ao convento não tinha sido em vão e aprendi a lição da Grande Cartuxa. A sua mensagem era, manifestamente esta: que de vez em quando devemos tomar um pouco de tempo às múltiplas preocupações do nosso trabalho e das nossas distracções para reajustar o nosso senso de valores, para relegar ao seu lugar próprio os nossos desejos materiais. Banindo da nossa boca a inevitável desculpa: Eu bem desejava, mas não disponho de tempo", devemos arranjar um tempo – cinco, dez, vinte minutos ao fim do dia, uma hora em cada tarde de domingo consagrado a um passeio de meditação, um fim-de-semana, de tempos a tempos, inteiramente dedicado a recolhimento. Então veremos como são de pouca importância as coisas que perseguimos com tanto afã; então, talvez, pudéssemos descobrir não só a consciência de nós mesmos, mas o que é muito mais importante – a existência da nossaprópria consciência."

Ontem como Hoje, esta Vocação, tem muito a dar ao Mundo.

18 fevereiro 2011

Saudade

(Imagem retirada da net)

Acabei de ler o fabuloso texto do irmão em Cristo Victor Henriques que dá pelo título “A minha visita à Cartuxa”. Admito que beirou uma lágrima no canto do olho ao sentir o Amor que é demonstrado nas suas palavras.
São 6 páginas de uma enorme Paixão pelos Cartuxos…como eu também os admiro…
Quando os “conheci” e não me lembro como os conheci, nem como quando me apaixonei por esta vocação, sentia…”inveja”. Não no sentido pejorativo da palavra, mas sim, por Deus não mos ter apresentado antes…mas Ele lá sabe o que faz.
Ultimamente e, cada vez que leio algo sobre eles, escrito não por críticos mas por pessoas apaixonadas por Cristo e por este pedaço de Paraíso na Terra, começo a sentir saudade…
Não me perguntem o porquê desta saudade. Não é saudade por achar o “que quer que seja”, mas sim algo mais do que isso. Talvez seja (penso eu) saudade de Deus, saudade de onde parti, não sei. Sei e sinto apenas isso, nas palavras sentidas que vou lendo sobre esta vocação especial. Aliás, sem querer ser mais do que aquilo que sou, sinto um calor no meu coração e uma leveza enorme na minha alma, cada vez que os leio aqui, ali ou acolá.
Mas saudade, ainda que não saiba como nem porquê, é isso que sinto…uma enorme Saudade deste pedaço de Paraíso e da maneira destes Anjos de Deus viverem por nós, no silêncio e na oração constante. “Que trabalho mais escravizante”, poderão dizer algumas pessoas, no entanto, esta saudade leva-me ao ponto de dizer na minha alma: “ Como eu também gostava de ter a graça de ser “escravo” de Deus assim.”

Tenho fé e esperança em Deus, que um dia Ele me agraciará com a possibilidade de os conhecer e, nem que seja apenas por um dia, saborear no âmago da minha alma, a leveza que é trabalhar para Deus e o silêncio divino que ali se respira.

14 fevereiro 2011

Iniciação à Vida Cartusiana

O presente trabalho foi traduzido e adaptado do original francês, dum monge da Grande Chartreuse, feita na Cartuxa de Ivorá, e está acessivel no blog de Juan Mayo, no link dos trabalhos Cartusianos.
Para os devidos efeitos e, atendendo a que, para além de ter pedido autorização (à qual ainda aguardo resposta), é do dominio público, tomei a liberdade de aqui publicar uma pequena passagem deste excelente trabalho faseadamente, o resto é só fazerem o download...
Por Deus...Tudo!

A - A VIDA CARTUSIANA

Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento... e amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas (Mt 22, 37- 40).

O fim

O fim da vida cartusiana é a união com Deus no amor (Estatutos Cartusianos 1, 4). A união mais profunda e contínua que seja possível nesta vida. Amor gratuito e íntimo de Deus, por Ele mesmo. Ele tem seu fruto em
Deus, que é o primeiro a nos chamar a sua amizade: Nele ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor (Ef 1, 4). É Deus quem se está doando, é o Espírito Santo em nós.

O caminho

A nossa vida, o nosso amor, é resposta ao amor. Ela está fundada sobre a fé no amor do Pai invisível feito palpável em Cristo e dado a nós pelo seu Espírito.
Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim (Jo 14, 6).
Aquele que permanece em mim e eu nele produz muito fruto; porque, sem mim, nada podeis fazer (Jo 15, 5).
Filhos no Filho, nós entramos, participamos na vida íntima de Deus. Nascidos do Pai aspiram ao Espírito de amor que cria e regenera toda a humanidade, e todo o universo, eternamente. Já aqui neste mundo unidos a
Cristo, nós vamos ao Pai, no Amor: Pois, por meio dele, nós, judeus e gentios, num só Espírito, temos acesso junto ao Pai (Ef 2, 18) Um manancial se tem alumiado em mim e sussurra; diz no meu íntimo: vem em
direção ao Pai (Ignácio de Antioquia).
Os meios

Para abrir o nosso coração a este caminho de Amor e lhe purificar (porque só os corações puros verão a Deus: Mt 5, 8), nós praticamos a solidão, o silêncio, a pobreza, a castidade, a obediência, a caridade fraterna, a Lectio Divina, o estudo, o trabalho. Mas, sobretudo, nos damos à oração tão contínua quanto nos seja possível, que suba como incenso do altar do nosso coração. Oração de adoração, de louvor e de intercessão no Ofício Divino, onde a Igreja reza pelas nossas vozes. Oração de Cristo. Oração de íntima comunhão com Deus, dentro de nosso coração. Gemidos inefáveis do Espírito, que dão expressão ao desejo profundo e aos sofrimentos do homem e da Criação inteira: Assim também o Espírito socorre a nossa fraqueza. Pois não sabemos o que pedir nem orar como convém; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis (Rom 8, 26). Oração da noite e do abandono. Oração de luz e de alegria. Silêncio de um coração que ama. Dilatação de nosso coração à medida do Seu. Presença. Pobreza. Amor. Simplicidade onde tudo se funda na unidade: Eu lhes dei a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um (Jo 17, 22).

O Postulantado

O Postulantado é uma primeira aprendizagem da vida cartusiana. Este livro contém os ensinamentos necessários e os conselhos que nos ajudarão a adaptar a um estilo de vida solitário, silencioso e, contudo, fraternal. Toda ela ordenada à união com Deus no amor: Nele ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor (Ef 1, 4). Tendes a simplicidade e a humildade de vos deixar formar pelo ritmo da vida, dia a dia e pouco ao pouco aprendereis no interior pelo coração, os costumes de uma intimidade com Cristo. Vida de paz e de alegria, escola de caridade.

10 fevereiro 2011

5ª feira de Amigos


Vivemos numa sociedade e num ambiente onde temos tudo e mais alguma coisa para sermos, realmente felizes, no entanto, apesar disso, falta à maioria de nós o essencial. Falta à maioria de nós o sentimento de Amizade, no seu real valor.

Hoje pela manhã, como aqui comemoramos a 5ª feira dos Amigos, mandei uma mensagem para os meus sinceros amigos, poucos mas bons. No retorno, tive mensagens de profundo agradecimento e telefonemas sentidos das poucas palavras que redigi (mas sentidas).

Temos tudo e mais alguma coisa mas, o essencial e fundamental, cada vez, é mais procurado. Cada vez mais tentam impingir coisas supérfluas, banais e sem valor algum. Temos tudo e mais alguma coisa, mas na realidade nada temos.
Cultivemos o mais importante, cultivemos a Amizade.

27 janeiro 2011

Uma imagem

As palavras podem ser interpretadas consuante o espirito de cada um, no momento e na altura. As "imagens", para além de intemporais mexem sempre com a alma de cada um ou com os olhos de quem as vê.

20 janeiro 2011

Príncipes do Nada


Não é meu costume falar aqui de programas de televisão, mas desta vez vou fazer uma excepção.
Faço-o porque o programa da RTP com o título do assunto, apresentado pela Catarina Furtado, excelente comunicadora, é muito bom e cheio de Amor.
Neste programa são apresentadas situações concretas de países em vias de desenvolvimento, na sua maioria com o apoio de ONG`s, mas todas em “regime de voluntariado”.
Poderia divagar mais sobre o que vejo de bom nestes programas mas, o que “mais me fascina e me dá alguma inveja” é o facto de todas estas vidas, apesar de quase nada terem (ao contrário da maioria de nós) vivem Felizes. Não que eu não me sinta feliz, mas a maioria de nós, com quase tudo, queremos sempre mais e mais. A felicidade aparente de muitos de nós, torna-se tristeza quando, numa sociedade moderna, desenvolvida e acima de tudo consumista, não temos “a última moda”.
Olhando para os olhos daquelas pessoas que são entrevistadas, ainda que quase “nada tenham”, brilham de alegria e felicidade (não só por sonharem com uma vida melhor, uma vida mais desenvolvida e infelizmente mais consumista) pela simplicidade da sua existência, pela vida humilde que levam, mas pelo amor e paixão que vivem em família. Família, instituição que neste país cada vez é menos tida e achada, instituição que o poder político tende a querer eliminar aos poucos.

Graças a Deus sinto-me feliz com a minha família, mas aquele brilho nos olhos de quem "pouco tem"    fascina-me.

22 dezembro 2010

Aniversário

Faz HOJE alguns (longos) anos que partiste.
Não cheguei a conhecer-te como merecia e tu quererias.
Não é um trauma o que sinto, é apenas a sensação de pena e tristeza de não me ter despedido de ti.

20 dezembro 2010

Um pensamento que me ocorreu para hoje


O Criador do Tudo visível reduziu-Se ao invisível para, através do seu Filho, nos mostrar a glória da Vida Eterna.

16 dezembro 2010

O ROSARIO - 9 e última parte

O Rosário dos princípios e do futuro

A história da sua origem mostra claramente isto: antes de estar ao uso da comunidade, o Rosário era uma oração estritamente pessoal.
Se hoje cristãos, e mais particularmente os jovens, são alérgicos ao terço comunitário, não é talvez porque os adultos não o rezam com bastante silêncio.
Ou então, porque estes últimos, em contradição com a sua idade real, falharam em maturidade e abertura na sua maneira de o rezar?
Ou enfim, porque talvez ninguém nunca lhe dissesse que uma boa recitação do Rosário exige conhecimento acrescentado do Evangelho e de fidelidade a Cristo?
Não esqueçamos: três jovens estão na origem do Rosário!
Adolfo de Esser tinha apenas 23 anos quando o rezou pela primeira vez à sua maneira, em 1396.
A duquesa Margarida de Baviera tinha 24 anos quando Adolfo lhe entregou os seus dois escritos cerca do ano de 1400.
E Domingos de Prússia contava 25 anos quando acrescentou, para seu uso pessoal, o «bilhete-socorro» ao terço de Adolfo, em 1409.
O que nasceu de uma necessidade pessoal urgente, numa época muito perturbada, contém o essencial:
O nome «Rosário», tomado do Amor cortês, mostra bem que «Deus é Amor» (1 Jo. 4, 8) e reclama o nosso amor.
Fé cristã é mais do que ideologia de intelectual. Ela é essencialmente e concretamente: troca de amor, partido de Deus, o Mistério em Pessoa do mundo, e atingindo cada membro da humanidade. Deveria acontecer-me um dia ser escandalizado pelo lado demasiado humano da Sua Igreja (à qual Ele me reenvia sem cessar), então é na Sagrada Escritura que eu devo procurar o Seu Rosto e o Seu Coração. Para lá chegar, é indispensável que eu comece pelo princípio e que eu procure - se é preciso, com a ajuda dos melhores comentários - uma inteligência mais profunda e mais ampla de cada passagem do Evangelho.
Mas em última instância lá onde nenhum comentário pode substituir-me, eu devo, na fé, tomar a sério a sua Pessoa e o seu Coração e realizar no quotidiano da minha vida os seus desejos e ensinamentos. Eu consegui-Io-ei somente, se renuncio a ler o Evangelho apenas e começo a meditá-Io em «Comunhão dos Santos», e mais particularmente com os olhos e o Coração de Maria. A vocação particular e a maior alegria da Santíssima Virgem é conduzir-nos a «um melhor conhecimento de Jesus».
Tomemos sem escrúpulos à liberdade de dizer - na recitação privada do terço e durante um certo tempo - a Ave na sua fórmula breve como uma saudação pessoal à Mãe de Deus, com a qual passamos em revista toda a história da nossa salvação por Jesus.
Mas seja qual for a maneira de rezar o terço - se ele é rezado «honestamente» - contém uma abundância de graças para as dificuldades presentes e as necessidades futuras .
O Papa Paulo VI na Encíclica «Marialis Cultus» propôs as «fórmulas» como um dos meios de renovar a recitação do Terço.
O sistema mais fácil é dizer uma fórmula em cada dezena de Ave-Marias. Dizem-se pois cinco fórmulas, dez vezes cada uma, por Terço. De um dia para o outro pode-se pois seguir a lista das fórmulas ou escolher dentre elas.

É o terço cartusiano. É talvez o terço do futuro.


NOTA POSTERIOR: Como o fato de reter na memória ditas cláusulas pode ser um inconivente para algumas pessoas, é bom lembrar que não há nenhum problema de poder-se ajustar aos Mistérios comuns do Terço - que todos sabemos de cor - utilizando como cláusula única, para cada dezena de Ave-Marias, um dos mistérios da vida de Cristo e nossa Senhora. Enquanto assim se faz, podemos permanecer unidos a Maria num sereno gozo (nos mistérios gozosos), ou com um ânimo de compaixão (nos dolorosos), ou com uma alegria compartida com Jesus, com Ela (nos gloriosos), ou, por fim, sob os raios da suave luz divina (nos luminosos).
Ainda que no tempo do Terço de Domingos de Tréveris não existisse a segunda parte da Ave-Maria, tampouco há problema para que nós, depois do “Amén” da cláusula, seguido este de um instante de silêncio meditativo, possamos acrescentar essa segunda parte da atual Ave-Maria: Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte. Como assinalava o Pe. Jean Lafrance no seu livro O Terço, esta fórmula tem grande semelhança com a da Oração de Jesus de nossos irmãos orientais.
A recitação do Rosário pode propiciar assim uma atitude muito simples, que faz que, ao mesmo tempo que pronunciamos com os lábios as Ave-Marias, o fundo de nosso coração fica unido ao Senhor. Deus pode chamar-nos desse modo a rezar esta oração vocal mantendo o coração numa simples atenção amorosa para com Ele, em Jesus, com Maria.
Esta atitude simples e indefinível, como dizia o famoso monge trapista, Eugene Boylan, nos coloca perante uma verdadeira oração contemplativa, da qual o Terço converte-se em suporte. Eis suas palavras: “De fato, parece que para certas almas, uma destas ocupações (o Terço ou o uso de jaculatórias, p.e.) para as faculdades inferiores é uma condição necessária para o exercício da oração de fé. Por esta oração é que uma alma que parece estar absorvida na oração vocal e na meditação, é realmente elevada a este grau de oração (contemplativa). (“A dificuldade de orar”. Pág.66. Ed. Áster. Lisboa, 1957).

Este livro poderá ser baixar na integra directamente daqui

O ROSARIO - 7

Alain de Ia Roche O.P.

Alain de Ia Roche O.P., de que se falou mais acima, aprendeu a conhecer os escritos de Domingos de Prússia, pelos cartuxos belgas. Ele aderiu a um movimento de reforma muito particular: a «Congregatio Hollandica», que se estendeu de Lille a Colônia e ao longo das costas do Báltico. Alam rejeitou o nome «Rosário», que lhe parecia erótico e por conseguinte inconveniente, e adotou das Devotas de Gand o nome «Saltério», para um saltério de 150 Ave. No entanto conservou de Tréveris a «Meditação - da - vida - de Jesus».
A partir de 1463, propagou pela pregação e seus escritos a nova maneira de rezar, e acentuou o seu lado comunitário. E quanto mais avançou em idade, tanto mais mergulhou cabeça baixa na oração «confrarizada», embora esta se tornasse demasiado complicada e exageradamente pesada.
A reação foi que a confraria do Rosário - que os seus discípulos tinham fundado em Colônia em 1475 - abandonou completamente a meditação do Evangelho. O que arrastou a resistência dos membros alemães do Sul da Confraria. O resultado disso foi que em 1481, em Vim, por abreviação das «pequenas frases de Tréveris », viu-se aparecer pela primeira vez - quase na sua forma atual - os 15 Mistérios do Rosário.
Será preciso esperar ainda uns bons 200 anos, antes que o Rosário obtenha da Confraria a sua forma definitiva, aquela que nós lhe conhecemos hoje.

O mais antigo texto de Domingos de Prússia
há pouco descoberto

A «Vida de Jesus» recortada e resumida em 50 frases assemelha-se, em muitos lugares, textualmente, a passagens de Santa Matilde de Hackeborn de quem Domingos lia todos os dias um extrato da sua obra «Liber spiritualis gratiae».

Cada uma das frases deve ser precedida da Ave, da maneira seguinte:
«Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco; bendita sois Vós entre todas as mulheres, e bendito é o fruto de vosso ventre, Jesus»...

1. Que tu, Virgem pura, concebeste do Espírito Santo. Amén.

Cada Ave-Maria, com sua cláusula, vai concluía com um «Amén» e um breve momento de silêncio para meditar.
2. Que tu foste através da montanha ao encontro de Isabel.
3. Que tu, serva pura, concebeste com grande alegria.
4. Que tu envolveste em faixas e deitaste num presépio.
5. Que os Santos Anjos louvaram com cânticos celestes.
6. Que os pastores procuraram e encontraram em Belém.
7. Que foi circuncidado ao oitavo dia e chamado Jesus.
8. A quem os três Reis Magos ofereceram ouro, incenso e mirra.
9. Que tu apresentaste no Templo a Deus seu Pai.
10. Com quem tu fugiste para o Egito e donde regressaste sete anos depois.
11. Que tu perdeste em Jerusalém e reencontraste três dias depois.
12. Que crescia todos os dias em idade, em graça e em sabedoria.
13. Que São João batizou no Jordão.
14. Que Satanás tentou e não venceu.
15. Que anunciou ao povo o Reino dos Céus com os seus discípulos.
16. Que curou muitos doentes com o poder de Deus.
17. De quem Maria Madalena lavou os pés com as suas lágrimas, enxaguou-os com os cabelos e ungiu-os com perfume.
18. Que ressuscitou dos mortos Lázaro e outros.
19. Que foi transfigurado no Tabor diante dos seus discípulos.
20. Quem, no dia de Ramos, em Jerusalém, foi recebido com grande pompa.
21. Quem, na última ceia, deu o seu corpo aos discípulos.
22. Quem rezou no Jardim das Oliveiras e suou gotas de sangue.
23. Quem se deixou prender, amarrar e conduzir de um juiz ao outro.
24. Que muitas testemunhas acusaram falsamente.
25. De quem a santa face foi escarnecida, velada e impressionada.
26. Quem, despojado seus vestidos, atado a uma coluna, foi duramente golpeado.
27. Que foi cruelmente coroado de espinhos.
28. Diante de quem dobravam o joelho e adoravam com desprezo.
29. Que foi condenado injustamente a uma morte ignominiosa.
30. Que transportou a cruz sobre os seus santos ombros.
31. Quem, ao voltar-se, te dirigiu a palavra, a ti sua mãe, assim como a outras mulheres.
32. Quem foi cravado na cruz pelas mãos e pés.
33. Quem rezou por aqueles que o crucificavam, o torturavam e o matavam.
34. Quem disse ao bom ladrão: «Hoje mesmo estarás comigo no paraíso».
35. Quem te confiou, a ti sua mãe contristada, a João seu discípulo bem amado.
36. Quem gritou: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?».
37. Quem foi dessedentado com fel e vinagre, quando disse: «Tenho sede! ».
38. Quem disse: «Pai, entre as tuas mãos entrego o meu espírito!».
39. Quem disse em último lugar: «Tudo está consumado!».
40. Quem sofreu uma morte cruel por nós, pecadores. Amén. Louvor a Deus!
41. Cujo lado foi perfurado, donde correu sangue e água.
42. Quem, descido da cruz, tu recebeste sobre os teus joelhos, como normalmente se crê.
43. Quem homens justos e bons embalsamaram e sepultaram.
44. Cuja alma santa desceu aos infernos e libertos e libertou os nossos Pais.
45. Que ressuscitou dos mortos ao terceiro dia. Aleluia!
46. Quem te alegrou com uma muito grande alegria, a ti e àqueles a quem apareceu. Aleluia!
47. Quem também, na tua presença subiu ao céu e está sentado à direita de seu Pai. Aleluia!
48. Quem um dia julgará os vivos e os mortos.
49. Quem enviou aos seus fiéis o Espírito Santo no dia do Pentecostes.
50. Quem te fez subir ao céu, a ti sua dulcíssima Mãe, para estar com Ele, que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo agora e sempre. Amén.

O ROSARIO - 6

O «BILHETE-SOCORRO» DE DOMINGOS DE PRÚSSIA



Na Primavera de 1409, os Cartuxos de Tréveris elegeram como prior Adolfo de Esser, embora fosse o mais jovem entre eles. No mesmo ano, nos fins do Outono, um estudante pediu para ser admitido no convento. Fisicamente e psiquicamente ele estava sem forças, embora a morte lhe parecesse próxima. O Prior, a quem ele agradava apesar de tudo, enviou Domingos (1384-1460) a um piedoso Padre Carmelita, seu amigo, o bispo auxiliar de Tréveris, Comado de Altendorf (†1416). Este, depois de o ter ouvido em confissão - uma confissão geral de toda a sua vida - recomendou o vagabundo ao Prior: o que levou o Padre Adolfo a intervir em seu favor junto da comunidade. Foi assim que Domingos entrou no noviciado.
Anos antes, os seus condiscípulos de Cracóvia tinham formulado sobre Domingos um juízo muito apropriado: se as mulheres e a paixão do jogo não o destroem, ele dará um excelente clérigo - bem entendido na medida em que isso é possível na nossa universidade. De fato, por toda a parte onde a juventude se reúne, ele - o filho de um pescador - tornou-se depressa o «mestre de prazer».
Ele ocupou vários cargos bem retribuídos, como preceptor, notário e mestre de escola. Mas após um certo tempo, desaparecia de novo, para fugir às suas dívidas de jogo. Entretanto fez um pedido para entrar nos cartuxos de Praga. Foi recusado por causa da sua inconstância... Ora agora, dois anos depois, na altura em que ele está muito fatigado, muito deprimido, encontra-se com o Prior para o aceitar; um Prior que lhe assegura que comprometia a sua alma para o salvar, com duas condições: se ele aguenta e se ele aceita fazer o que a Ordem lhe imporá. Adolfo confiou o noviço aos cuidados do P. Pedro Eselweg.
É nesta situação, que acabamos de descrever, que o P. Adolfo pôs o seu aluno ao corrente da sua nova maneira de rezar, que ele chamava «Rosário»; isso soou como um cântico de amor. Inesquecíveis permaneceram estas palavras que ele acrescentou em seguida: «Não é possível que exista um homem tão corrompido que não consiga uma séria emenda da sua conduta, se recita esse Rosário durante um ano!»
A partir desse momento, Domingos entregou-se de todo o coração a essa oração, mas sem sucesso. Em vão recomeçou. Não conseguia concentrar-se; de tal modo estava enfraquecido.
Então teve uma idéia - era durante o advento de 1409 - a idéia de resumir numa folha «a vida de Jesus» em 50 pequenas frases, que serviriam cada uma, por seu turno, para a meditação durante a recitação das 50 Ave. Graças a «esta invenção» conseguiu enfim meditar.
Na sua alegria, revelou imediatamente aos seus companheiros, os outros noviços, «a astúcia», que lhe abriu os caminhos da oração. E bem depressa o Prior aprendeu-o também ele. Domingos admirou-se que o P. Adolfo pudesse considerar com tanta seriedade «esta futilidade».
Este último, com efeito, tinha compreendido imediatamente que ajuda preciosa o método podia trazer às pessoas incapazes de rezar à maneira atual da duquesa e da sua. E para que a vantagem não se perdesse, pediu uma cópia do bilhete. Quando mais tarde, Domingos não cedia, então muito simplesmente Adolfo obrigou-o a transcrever outros bilhetes.

Divulgado por mais de mil exemplares através do mundo

Nunca Domingos duvidou que 50 anos mais tarde, ao recordar, escreveria semelhante verificação. Para já estava contente por ter descoberto uma maneira de rezar o Rosário. Mas o seu caráter instável incitou-o depressa a tomar a procurar outras formas de oração, que poderiam por acaso - como ele pensava - ser mais dignas da «Rainha dos Céus». Ainda noviço, Domingos pôs-se a compor como jogo de criança, com e sob forma de orações, uma espécie de «cerimonial de corte» para corte principesca, em honra da Mãe de Deus. Algum tempo depois, pôs-se com ela a querer «educar e cuidar do Menino Jesus». Enfim, compôs - em paralelo com o «demasiado humilde Rosário» - uma oração que, sem comentário, se tornou inacessível aos seus amigos, que não conheciam a sua mania dos anos vagabundos: a Alquimia. A redação desse comentário tomou-lhe sete anos (1432-1439). Tornou-se a sua obra mestra e estranha: «A coroa de pedras preciosas para a Virgem Maria».
Tudo isso revela que Domingos não teve, sem dúvida nunca, uma visão de conjunto do Rosário. Começou somente a duvidar de qualquer coisa, quando, após a morte de Adolfo, vítima da peste, selecionou os seus papéis. Antes estava admirado, até mesmo irritado algumas vezes, quando Adolfo e um número crescente de confrades e de estrangeiros o solicitavam para outras cópias. Ele passou anos de solidão e de fraqueza. Quando verdadeiramente não é capaz de satisfazer os pedidos, os seus confrades ajudaram-no. Embora cada exemplar fosse submetido a uma censura rigorosa, antes de deixar a cartuxa, o texto, já em vida de Domingos, sofreu variantes.

Mas de que provinha este pedido?

 O Rosário no contexto da reforma religiosa do século XV

O Concílio de Constança (1414-1418), com a eleição de Martinho V (1417-1431), restabeleceu a unidade da Igreja e favoreceu a reforma beneditina. Na mesma época por três vezes, Adolfo de Esser era eleito abade de importantes abadias. Mas ele recusou sempre, apesar da intervenção insistente do Arcebispo de Tréveris, Otto de Ziegenhair (14181430). Mas quando o seu irmão em religião, João Rode foi designado para o cargo de abade de S. Matias em Tréveris (1421-1439) e este lhe pediu para o acompanhar nas suas viagens e para o apoiar discretamente nas suas reformas, então Adolfo aceitou. É a esta atividade oculta que é preciso atribuir o fato que no princípio - além dos Cartuxos - foram os Beneditinos os mais importantes propagandistas e intérpretes das 50 pequenas frases do Rosário de Domingos de Prússia.
Numerosos códices, por exemplo, os da Abadia de Tegernsee, mostram como esta maneira bíblica de rezar foi usada para renovação espiritual. De lá, ela estendeu-se a outras abadias da Alemanha do Sul.
Até então o Rosário era uma oração altamente pessoal e individual.
Alguns 25 anos após a morte de Adolfo, começou-se a recitá-Io em comunidade, no Norte da França, sem se duvidar que a oração de massas possa sujeitar-se a outras leis psicológicas diferentes das da oração individual. A massa nivela e aplana. Isto devia verificar-se, agora que o Rosário de Domingos é retomado pela Confraria do Rosário.
Eis como isso se passou: logicamente, em três etapas.

15 dezembro 2010

O ROSARIO - 5

Adolfo de Esser, o primeiro devoto do Rosário


Os registros da cartuxa da época chamam-no: "Adolphus de Assindia" (cerca 1375-1439). Assim é designado o seu nome de batismo - os nomes em religião não existem ainda - e o seu lugar de origem. Ele é oriundo do Principado das Nobres Senhoras Cônegas isentas de Esserl Ruhr. Da sua vida anterior e sobre a sua família não fez - como bom cartuxo - nenhuma revelação, o que não facilita as investigações.
Não se deve atribuir a sua profunda devoção para com a Santíssima Virgem à influência da sua mãe; o único episódio conhecido da sua juventude no-lo prova. E se ele teve uma entrada tão rápida na corte de Lorraine, não é porque estivesse habituado a mover-se em meio nobre e fosse, apesar da sua juventude, uma personalidade particularmente madura.
Todos os fatos concordam e provam que Adolfo pertencia a uma família da velha nobreza, da região de Colônia, que exercia desde há séculos a função de magistrado, isto é, o mais alto cargo do Principado de Esser.
Na corte ducal de Guilherme Von Berg (†1408) Adolfo gozava da consideração e da confiança do Duque e da sua esposa, que era Ana de Baviera, e que fundou em 1407 em Dusseldorf «a Fraternidade das Alegrias de Nossa Senhora para as Irmãs e Irmãos do Rosário».
Além disso, Adolfo fez provavelmente estudos de direito na jovem universidade de Colônia. Quando entrou em região, ele tinha pelo menos o titulo universitário de «Bacharel em Artes». O seu estilo oratório revela como está próximo do povo, apesar da sua formação universitária. Muito cedo ele poderia ter adotado de um convento de devotas de Esser, sem dúvida pelos bons cuidados dum cônego, a sua maneira popular de recitar as 50 Ave. .
E se ele pôde tão facilmente socorrer a duquesa de Lorraine na sua aflição, é porque ele antes, numa situação trágica, teve de recorrer a esta forma de piedade bíblica, que não abandonará jamais até à sua morte.
Uma confidência durante o último ano de vida revela ao mesmo tempo quais foram as necessidades e a graça desta hora: «Eu não podia de maneira nenhuma ser ajudado, se Deus não se tivesse feito homem! Eu não teria sabido onde e como encontrar Deus. É por isso que eu tenho tanta consideração pela natureza humana e a vida terrestre de Cristo».
Isso aconteceu quando? Segundo Modesto Leydecker, historiador da cartuxa de Tréveris em 1765, a causa imediata da entrada de Adolfo na Ordem teria sido provocada por uma repentina epidemia de morte massiva.
A decisão, portanto, tinha amadurecido lentamente, com as preocupações que lhe causava a sua mãe e também por causa dos acontecimentos vividos na corte do Duque de Berg. Talvez isso se situe à volta de 1396, na altura dos seus estudos em Calória.
A mesma época terá sido a hora do nascimento do Rosário. Enquanto Adolfo recitava as 50 Ave-Marias, esta humilde oração, ele apercebeu repentinamente desenhado num imenso fresco o curso do mundo englobando o seu próprio destino banhado no amor condescendente de Deus. Desta maneira, Adolfo de Esser foi o primeiro devoto do Rosário. Porquê?
Precisamente porque foi o primeiro a unir a contemplação - da - vida - de Jesus à recitação vocal das 50 Ave-Marias. Desta união nasceu o nosso Rosário hoje em uso.

As 50 Ave-Marias das Devotas de Esser

Na Baixa - Renânia, existiam até ao século XVII várias maneiras diferentes de recitar - com sentido - 50 Ave-Marias consecutivas. Dois livros de orações das Devotas de Esser contêm a maneira mais bela e a mais próxima do nosso Rosário. Encontram-se nos arquivos da catedral.
Eliminando toda a sobrecarga ulterior, obtemos o texto seguinte, que Adolfo de Esser certamente conheceu: No dia que comemora a Encanação do Filho de Deus no seio da Virgem Maria, reza assim:
«Ó Mãe de Deus, eu ofereço-te estas 50 Ave para te louvar e te honrar em reconhecimento do dia em que o Anjo Gabriel te anunciou que ias conceber o Filho de Deus pela ação do Espírito Santo. Como tu própria te doaste, também eu te entrego o meu corpo e a minha alma, a minha honra e todo o meu bem, os meus cinco sentidos e tudo aquilo de que posso dispor. Da tua parte, obtém para mim da parte do Senhor Onipotente tudo o que me é útil e bom para o Seu serviço, e para a minha alma a felicidade; e se um dia a minha alma e o meu corpo devem separar-se, então reclama, como sendo teu bem pessoal, a minha pobre alma e conduze-la à alegria e à felicidade da vida eterna. Amén».
A partir desse dia durante um ano e todos os dias, recita 3 Ave como prova da tua consagração a Maria e acrescenta a oração seguinte:
«Ó Mãe de Deus, eu ofereço-te essas 3 Ave para te provar que no dia em que concebeste o Filho de Deus pela ação do Espírito Santo, eu dei-te o meu corpo e a minha alma, etc. (como referido acima) ».
Um ano depois, na festa de Maria, recita, em primeiro lugar de pé, o salmo «Miserere» e continua de joelhos:
«O Anjo do Senhor entrou e disse a Maria: Eu te saúdo, Maria, cheia de graça. O senhor é contigo, tu és bendita entre todas as mulheres e Jesus, o fruto do teu ventre, é bendito».
Levanta-te agora, e diz com fervor: Amén. Eis o dia que o Senhor fez! Hoje Deus teve pena do seu povo! Hoje livrou-o da morte, que uma mulher nos deu e que uma virgem agora suprimiu!»

Agora lança-te três vezes por terra e diz:

«Hoje Deus fez-se homem! O que Ele era, permaneceu o mesmo; e o que não era, adquiriu-o: Hoje Deus fez-se Homem!» De novo de pé, para venerar e festejar jubilosamente o começo da nossa salvação, diz: «Glória a ti, Senhor! Porque por esta obra, que é a maior do teu amor salvador, Tu nos concedeste, a nós, pobres pecadores, a Redenção total e a ajuda que conduz à vida nova».
Enfim, de joelhos, termina a tua oração por estas palavras:

«Ora por nós, Santa Mãe de Deus. Para que nos tomemos dignos das promessas de Jesus Cristo.

Ó Deus, Tu que quiseste que o Teu Filho, depois do anúncio do anjo, tomasse carne no seio da Virgem Maria, concede a teus Filhos que a reconheçam verdadeiramente como Mãe de Deus. Por J.C.N.S. que vive e reina contigo na unidade do Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amén».

O ROSARIO - 4

OS DOIS MAIS ANTIGOS ESCRITOS DO ROSÁRIO


Aí por 1398, Adolfo de Esser entrou para a Cartuxa de Saint-Alban de Tréveris. Pouco tempo depois, redigiu, com a licença do seu Prior, o P. Bernard (†1430 em Colônia), dois opúsculos em língua alemã dirigidos à Duquesa de Lorraine, Margarida de Baviera. Remeteu-lhos aí por 1400, provavelmente no seu castelo de Sierck, a montante de La Moselle em relação a Tréveris.
O primeiro escrito era uma «Vida de Jesus», que até hoje não foi identificado. O segundo, intitulado «Pequeno Jardim de rosas de Nossa Senhora», foi descoberto em dois exemplares. As duas obras completam-se e deviam introduzir a duquesa numa nova maneira de meditar:
Durante a recitação das 50 Ave, aquele que medita faz mentalmente desfilar diante de si o nascimento e a vida de Jesus. Ele toma a sério o amor ao mesmo tempo universal e muito pessoal de Deus. Por esta benevolência agradece-lhe com alegria; está persuadido de encontrar em cada particularidade da vida de Jesus uma resposta aos seus próprios problemas.
Alguns 20 anos mais tarde, nas introduções de que Adolfo fez preceder os textos do Rosário, é precisado que esta oração vocal das 50 Ave não obtinha a sua verdadeira beleza - aquela que agrada a Nosso Senhor e sua Mãe - que graças à meditação da vida de Jesus. É recomendado que ao longo desta meditação sejam evitados cuidadosamente toda a fantasia e embelezamento arbitrário, que afastam do Evangelho. Adolfo insiste muito para que aquele que reza o terço se esforce por transformar a sua vida em consequência.
Em conclusão: o Rosário na origem não era um piedoso exercício ao lado de outros exercícios. Era uma conduta global - fundada sobre a Bíblia e a Teologia - em vista da reforma da sua vida individual e da vida eclesial no estado presente.


A duquesa Margarida de Baviera (1376-1434)


A 6 de Fevereiro de 1393, a filha de Roberto do Palatinat - que devia tornar-se Rei da Alemanha (1400-1410) - desposou Carlos lI, duque de Lorraine (1364-1431).
O duque era grande capitão, homem político de primeiro plano, mas débil sobre o plano moral. Quando o seu sogro se tomou Rei da Alemanha, ele bateu-se por ele. Mas voltou-se cada vez mais pata o oeste a partir de 1412, se bem que o Parlamento francês lhe concedeu em 1418 o título de «Connétable», isto é, nomeou-o general-chefe das forças armadas. É verdade que ele exerceu esta função durante apenas um ano.
Apesar do amor sincero e da consideração que ele sentia pela sua esposa Margarida, não chegou a permanecer-lhe fiel, tanto mais que ela não lhe deu - após vários partos prematuros - senão duas filhas. Com a idade, ligava-se sempre mais à sua amante, Alizon du May, uma antiga regateira de Narcy. Ela deu-lhe vários filhos e filhas, que ele dotou num primeiro testamento em 1408, depois num segundo em 1424.
Margarida viveu o seu casamento no meio dum mundo caótico. Porque a política entrava na Igreja, tinha-se chegado à eleição de dois Papas. O sínodo de Pisa em 1409 agravou a situação votando um terceiro Papa. A Inglaterra estava em guerra - uma guerra que devia durar cem anos (1339-1453) - com a França, cujo Rei Carlos VI (1380-1422) se afundava cada vez mais na loucura.
A situação não era melhor na Alemanha onde o Rei Venceslau levava uma vida vistosa em Praga e descurava o governo do seu país. Exagerou ao ponto de os príncipes-eleitores o demitirem das suas funções - aliás em vão - e elegeram para o seu lugar o pai de Margarida como rei. A certa altura três candidatos disputaram a coroa imperial. Ao mesmo tempo este Ocidente tão dilacerado estava ameaçado na sua própria existência. Os Soldados do Crescente, fortemente instalados na Península Ibérica e ameaçando todas as costas do Mediterrâneo, deslocaram-se desde os Balcãs sobre a Hungria.
Tudo isso pesava fortemente na consciência de Margarida, que para mais tinha uma saúde frágil e devia tomar sozinha e sem as trair as decisões no lugar do Duque Carlos, quando este estava ausente durante as suas numerosas campanhas.
É para una mulher numa tão trágica situação que os dois escritos do Rosário foram compostos. Eles levaram a duquesa a procurar em Jesus Cristo - pela oração - o equilíbrio interior.
E de fato, Margarida encontrou esse equilíbrio. Carlos II estimava Adolfo. E conseguiu que a sua Ordem o designasse como primeiro superior da sua nova cartuxa, perto de Sierck (1415-1421).
O Duque tinha verificado que a sua esposa começava desde 1400 a adquirir «uma tal prática espontânea, viva e perseverante do Rosário, que ela parecia como q e transformada, e em posse sempre mais perfeita das virtudes da «Vida de Jesus».
O que ela experimentava como uma ajuda eficaz, esta mulher assim dotada comunicava-o aos nobres da sua corte e ao pessoal ao seu serviço. Mas antes de mais, desta oração ela fez uma prática pessoal, ovação que viveu intensamente na sua própria vida, de maneira que à sua morte, em 1434, a sua santidade foi reconhecida por todos.
O seu processo de canonização não chegou a bom termo. Mas ela é a avó de Bernardo de Baden (1429-1458) e a bisavó da Beata Margarida de Lorraine (†1521).
Ela é a primeira a propagar o Rosário. Provavelmente devemos à sua influência a maneira original de o rezar nos países latinos.

14 dezembro 2010

O ROSARIO - 3

A Ave do «Cântico de amor marial»

Esse nobre conhecia a fundo a literatura da corte, a piedade das gentes simples e o pensamento de Santa Matilde de Hackeborn (1241-1299).

Desta maneira, os escritos baixo-renanos e os mais antigos documentos sobre o Rosário citam sem cessar um extrato do seu livro «Liber spiritualis gratiae», que mostra em que sentido a saudação do anjo é dirigida à Mãe de Deus. Eis a tradução literal:

«Um sábado, durante o canto da Salve Regina, ela (Santa Matilde) diz à Santíssima Virgem: Ah! se eu pudesse, Rainha do Céu, saudar-te com a saudação mais querida que um coração humano possa inventar, eu o faria com grande alegria!

Nesse momento a Virgem apareceu-lhe em Glória. Sobre o seu peito um grande laço tinha gravada em letras de ouro a saudação do anjo: Eu te saúdo, Maria, cheia de graça... A Virgem lhe respondeu:

Ninguém ainda ultrapassou essa saudação e nunca ninguém poderá melhor saudar-me do que dirigindo-me com muito respeito a saudação que Deus Pai me fez transmitir pela palavra «Ave». Por essa saudação, Ele o Onipotente tomou-me tão forte e tão corajosa, que eu fui poupada de toda a mácula de pecado. Também, Deus Filho esclareceu-me tanto com a sua sabedoria que me tomei uma estrela cintilante que ilumina o céu e a terra: é o que exprime o nome «Maria», que significa «estrela do mar». Enfim o Espírito Santo me impregou com a sua divina doçura, que me encheu de tantas graças, que agora quem procura graça junto de mim encontra-a. E o sentido das palavras «cheio de graça».

Com as palavras «O senhor está contigo» recorda-se como duma maneira indizível toda a Santíssima Trindade me une a Ela e realiza a Sua obra em mim, tomando da minha substância carnal e unindo esse qualquer coisa à natureza divina para não fazer senão uma só pessoa, de maneira que Deus se tomou homem e que o homem se tomou Deus. A alegria e a felicidade que eu senti nesse momento, ninguém poderá nunca concebê-lo perfeitamente.

Por «bendita entre todas as mulheres», cada criatura reconhece e testemunha que eu fui bendita e elevada acima de todas as outras criaturas, no céu e na terra.

Por «bendito é o fruto do teu ventre», é anunciado como uma bênção e festejado com júbilo o fruto salvador do meu corpo. Ele vivifica e santifica todas as criaturas e enche-as de bênçãos para a eternidade. »

No tempo de Santa Matilde de Hacheborn, a Ave terminava com as palavras de Santa Isabel «bendito é o fruto do vosso ventre». E somente durante o século XIV que se lhe acrescentou o nome de «Jesus», e mais ainda muitas vezes «Jesus Cristo».

Na Europa de Leste, como por exemplo, na Polônia, ignora-se o nome até cerca de 1400.

O acréscimo «Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pobres pecadores...» vem mais tarde; foi introduzido na Ave pelas Confrarias do Rosário, isso duma maneira definitiva no princípio do século XVIII somente.

Quando o Rosário nasceu cerca de 1400, a Ave não era ainda senão uma saudação muito pessoal à Mãe de Nosso Senhor.

O ROSARIO - 2

A denominação «Rosário» é ambígua.

O seu primeiro sentido é profano.

O termo latino «rosarium» ou ainda «rosarius» não foi usado com a mesma significação nos diferentes períodos do passado. Numa mais antiga série de manuscritos, podia ser a forma latinizada do termo alemão “Rols (cavalo)”. Ele foi usado nesse sentido para designar coleções e obras de consulta, como por exemplo uma nomenclatura de decisões jurídicas ou um código de conveniências da época.

E num período mais recente que se faz derivar o nome do termo latino «rosa». «Rosarium» toma então a sua verdadeira significação de: roseiral, roseira ou coroa de rosas. Será preciso ainda esperar um bom momento, antes que o termo designe a cadeia de pérolas que nós denominamos hoje «rosário» ou «terço» (O primeiro nome do terço foi «Pater noster»). Isso não acontecerá senão no fim do século XV.

A rosa simbolizou em todas as civilizações que a conheceram o amor humano. Após as cruzadas, um conto persa, «Goulistan», introduziu-se no Ocidente e fez a conquista, no meio do século XIII, de todas as cortes das nobres européias, sob a sua versão francesa do «Romance da Rosa». O amor é descrito com realismo como uma incursão num jardim de rosas. As mulheres nobres da Idade Média trocam com os seus cavaleiros «coroas de rosas», como prova de amor. Por um desenvolvimento ulterior, crescente nos meios nobres, as canções de amor são em breve chamadas «rosarium». Não é preciso mais que um pequeno passo para designar igualmente com o nome de «rosarium» as canções de amor e de louvor dirigidas à Mãe de Deus.

Visto sob este ângulo, não é fácil compreender como a maneira simples e despojada de rezar das pessoas humildes, que consiste em repetir 50 vezes a saudação angélica, tal como os Cartuxos de Tréveris o tinham ensinado desde o princípio do século XV: Como esta maneira humilde pôde herdar o belo nome de Rosário, que os nobres reservaram à sua obra-prima?

Esse único fato atesta que o Rosário nasceu sob a influência dum nobre, familiar da oração popular, em uso nas regiões da Baixa Renãnia. Como é que isso aconteceu?"