29 novembro 2011

A inclinação do rosto de Cristo crucificado


Confesso que nunca me tinha apercebido, conscientemente, do facto do Cristo crucificado ter o rosto virado para o lado direito, até ao dia em que vi O da fotografia.
Foi durante uma cerimónia ocorrida na Igreja da Vila de São Sebastião, pelos bodos deste ano, que me apercebi do Cristo da foto acima e, com as luzes a incidirem n`Ele, a estrondosa “revelação” que me transmitia. Ainda que inclinado para a direita, as sombras originadas pelas luzes, mostram-me que Ele, tanto virou o rosto para a direita como para a esquerda, tendo entregue o espírito quando estava virado para a direita.
Esta imagem transportou-me à 11ª estação da Via-sacra e à sua mensagem:

(Jesus é pregado na cruz) – “Com Ele foram também crucificados dois ladrões. Um insultava-o dizendo-lhe “Não és Tu o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós também.” Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo que as nossas ações mereciam, mas Ele nada praticou de condenável.”
Parei um pouco para pensar e meditar nesta passagem bíblica, na qual nos é narrado que Cristo foi crucificado juntamente com dois ladrões, um à direita e outro à esquerda . Um insultando-O, o outro aceitando o castigo. No entanto este último continua dizendo-Lhe:
“- Jesus, lembra-te de mim, quando estiveres no teu Reino. Ele respondeu-lhe: - Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.”

A simplicidade, a verdade e o sentir que Cristo era realmente o Messias, de um, contrasta com a arrogância e o desprezo do outro, quase como (diria eu) um “confronto” entre o bem e o mal. Assim cumpria-se o que estava escrito.
Voltando ao início deste devaneio exacerbado, e perante a “revelação” ali exposta, a mim e a todos aqueles que se aperceberam, veio-me ao pensamento a seguinte passagem:
“ E inclinando a cabeça, entregou o espírito.”

Como mero leigo entre os demais, e após ter contactado com 2 ou 3 sacerdotes, nada em concreto me foi dito do porquê da inclinação para a direita e, em certa medida, essa falta de explicação bíblica sobre a inclinação da Sua cabeça, leva-me novamente ao encontro revelante da sombra projetada pelas luzes. Um Cristo que se inclinou para os dois lados, para os dois ladrões. Um Cristo que, tendo sentido que um deles acreditava n `Ele, perdoou-Lhe todas as suas ações e prometeu-Lhe a entrada no Paraíso nesse mesmo dia. Quanto ao outro, não acreditou que estava perante o Messias, o Redentor. Para este, Cristo era apenas mais um criminoso, mais um que recebia o seu castigo na Cruz.
Sinto que no momento derradeiro, quando exclamou: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.” (mesmo antes disso seguramente), deve ter olhado constantemente para o ladrão que não acreditava N`Ele, esperando que, mesmo no seu derradeiro suspiro, O aceitasse como sendo O Filho daquele que é . Esse ladrão era o que estava pregado ao seu lado direito. “Dito isto, expirou”.

Ontem como hoje, continua com o rosto inclinado para a direita, inclinado para aqueles que não crêem n`Ele, esperando pacientemente que, antes do derradeiro momento, essas pessoas apenas lhe digam:
“ – Jesus, lembra-te de mim…”

5 comentários:

joaquim disse...

Já tive ocasião de to dizer por mail, amigo Paulo, mas repito-o aqui.

Este texto é muito belo e profundo e tocou-me de um modo muito especial.

E faz-nos pensar que os "detalhes", os "pormenores", mesmo "pequenos", para uma alma que se deixa conduzir pelo Espírito Santo são sempre importantes e levam-nos sempre à meditação e a um melhor encontro com Deus.

Louvo o Senhor por te ter "mostrado" este "pormenor" e por o teres partilhado connosco.

Um abraço amigo em Cristo

Se me permites vou colocar um link no Apenas Oração para este texto, na secção própria para isso mesmo.

Paulo disse...

Amigo Joaquim,
agradeço o teu comentário. Realmente, e dentro da minha humildade possivel, foi uma ideia que estava a marinar desde Junho (Bodos aqui) mas as palavras faltavam-me, apesar da ideia estar lá.
Ao contrário de outras religiões (como catolico obviamente) sinto que as imagens presentes, levam-nos a ver a palavra de Deus de outra forma.
O que aqui escrevo é meu mas, tal como as sementes lançadas ao vento, podem sair daqui para fertilizar outros campos. Abraço

A Capela disse...

É de facto uma reflexão muito bonita, bem escrita e gostei muito. Ao comentário abaixo, do Joaquim, pouco mais posso acrescentar mas penso que foste iluminado, inspirado; falas da projecção de luz e das sombras, da arrogância de um, da confiança do outro e tomo este belíssimo texto como dádiva de Esperança pois que nos abre o coração e os olhos para a Luz que o Senhor é, e que até ao Seu último suspiro nos oferece para o caminho. Que bom que foste deixando essa ideia amadurecer em ti por tão bem saberes colher todos esses sinais que ainda hoje o Senhor nos vai deixando e havemos que ver, guardar e partilhar.

E só me resta agradecer. Com um abraço em Cristo e Maria,

Malu

A Capela disse...

E esta imagem é tão bonita Paulo. Tinha que dizer :)

Abraço.

Paulo disse...

Obrigado Malu pelas tuas palavras, como sempre, belas, como Bela é a nossa Mãe Maria Santíssima.